O meu clube

Nuno Saraiva
Nuno Saraiva Sócio do Sporting

Academia e verdade

Muita gente ainda não se deu conta, mas o Mundo pós-pandemia não será, definitivamente, o mesmo que conhecíamos até aqui. As relações económicas e de trabalho serão mais tensas e complexas, a riqueza será menor e menos bem distribuída, os negócios legítimos e lícitos serão bem menos lucrativos, a arquitetura e a estrutura de capital das empresas será diferente. Ou seja, o Mundo pós-Covid-19 não será apocalíptico, longe disso, mas nada terá a ver com aquilo que experimentámos antes. Este facto é válido para todas as indústrias e sectores e o futebol não é, naturalmente, exceção.

Feito este pequeno introito ’lapalissiano’, é preciso sublinhar o óbvio: se o Mundo mudou, Portugal, como é evidente, não ficou na mesma e o futebol nacional muito menos. E é bom que todos os adeptos e dirigentes, sejam eles de que clube forem, estejam conscientes da nova realidade para não terem desilusões ou serem desonestos nas análises e exigências que, inevitavelmente, continuarão a fazer.

No que ao Sporting Clube de Portugal diz respeito, na minha modesta opinião, há um único caminho possível em matéria de política desportiva e uma única estratégia de comunicação aceitável para enfrentar, não apenas a próxima época, mas também os anos que se lhe seguirem.

Vamos por partes. Em matéria de política desportiva, estou convicto, até pela natureza exportadora do futebol português, de que o pós-pandemia terá de ser encarado pelo Sporting Clube de Portugal de forma necessariamente diferente. A alternativa, óbvia e evidente, passa por olhar clinicamente para a nossa Academia, em tempos das melhores do Mundo, com competência e olhos de ver.

A formação do Sporting, na próxima época, tem de ser encarada por todos, treinador incluído, como uma oportunidade e não como uma fatalidade. É verdade, e temos de ser realistas, a nossa Academia não tem hoje o mesmo crédito que as dos nossos rivais – uns vencem a Youth League e outros, amparados por ‘agentes milagreiros’, despacham talentos recém-formados por fortunas inimagináveis. Mas, a verdade é que isso acabou e, mesmo não havendo petróleo, há talento em Alcochete. E se não apostarmos nele de forma séria e sem complexos, jamais o conseguiremos comprovar devolvendo a nossa formação ao patamar que é seu por direito.

Em nossa casa, ou espalhados pelo Mundo fora, temos ovos para somar à omeleta de experiência de outros que, necessariamente, têm de continuar a vestir a nossa camisola e, assim, garantir o equilíbrio e acrescentar a competitividade imperiosos a uma equipa de futebol.

Jogadores como Luís Maximiano (hoje titular indiscutível), João Palhinha, Francisco Geraldes, Daniel Bragança, Ivanildo, Diogo Sousa, Rafael Barbosa, Leonardo Ruiz, Eduardo Quaresma, Gonçalo Inácio, Nuno Mendes, Matheus Nunes, Dimitar Mitrovski, Joelson Fernandes, Diogo Brás, Pedro Mendes ou Pedro Marques têm de ser vistos como o nosso investimento e os nossos maiores reforços. Não digo, como é óbvio, que todos tenham lugar no plantel principal, seria absurdo, impossível e irrealista. Mas vários deles têm de ser aposta em Alvalade. E outros tantos já atingiram o patamar de maturidade que lhes permite jogar em planteis principais de equipas de 1.ª Liga para depois regressarem mais fortes e mais capazes. E é isto que os valorizará, que os fará crescer mais ainda e ganhar robustez competitiva, e que justificará este investimento para que, num futuro próximo, possamos dele obter retorno.

É esta filosofia que nos fará, estou seguro, relançar a Academia Sporting e usá-la no pós-pandemia, não como uma fatalidade a que estejamos condenados, mas como uma oportunidade que temos de saber aproveitar.

Em paralelo, e para que isto aconteça, é fundamental regressar ao tempo pré-Academia, em que os miúdos eram bem tratados no centro de estágio que existia por baixo das bancadas do velhinho e saudoso Estádio José Alvalade, e em que os treinos aconteciam no pelado. Nesse tempo todos queriam jogar pelo Sporting, e foi dessas fornadas que saíram os Cristianos, os Figos, os Futres, os Quaresmas ou os Nanis, só para dar alguns exemplos.

Aquilo que temos de voltar a fazer é a formar homens e atletas de exceção. Aquilo que temos de voltar a ter é quem ‘namore’ com os pais da criançada que veste a Verde e Branca e lhes diga que os filhos terão uma oportunidade. Do que precisamos é de ter novos Aurélios que sejam a base da nossa equipa. Pouco me importa se são do Sporting quando chegam, até porque todos sabemos que a maioria dos nossos maiores craques mais recentes não nasceram Leões. Aquilo que me interessa é que, na inevitável saída, sejam Sportinguistas dos pés à cabeça, de alma e coração.
Depois há o discurso e a política de comunicação para os tempos de crise que aí vêm e que, repito, a maioria de nós ainda não percebeu que será das maiores desde a II Guerra Mundial, com implicações sérias à escala global.

O Sporting Clube de Portugal, que conhecíamos antes da Covid-19, já não é o mesmo. E o que está em causa, por mais que nos custe a reconhecer, é encontrarmos, todos juntos, um modelo que assegure a sobrevivência e o futuro de um Clube com quase 114 anos de história.

Disto isto, seja quem for o Presidente do Sporting Clube de Portugal não pode seguir uma estratégia de comunicação que sirva para iludir e enganar os sócios e adeptos, com frases feitas e chavões mobilizadores. Não! O que é preciso, repito, é ter a coragem de falar VERDADE, por mais dura e dolorosa que ela seja.

Na época 2020/2021 estarão novamente em causa, além do título nacional, três vagas no acesso à Champions League. Um Presidente sério e intelectualmente honesto, com uma equipa diretiva solidária e com conselheiros que se preocupem com a SAD e com o Clube, jamais pode prometer a conquista do Campeonato. Isso seria um erro trágico que teria o mesmo efeito dos que apontam para o céu e prometem a Lua, deixando os seus fiéis seguidores embasbacados a olharem para o dedo.

Não é falta de ambição, é realismo e pragmatismo. O fosso para os nossos rivais é grande e, nos últimos anos, ficou ainda maior por força, por exemplo, da nossa ausência da mais rica competição de clubes do Mundo.

Aquilo que pode e deve ser prometido é trabalho, empenho, compromisso e esforço para atingir um objetivo que é o único que, realisticamente, pode ser atingido: assegurar um lugar na edição de 2021/2022 da Champions League. Tudo aquilo que venha acima da conquista deste objetivo, realista repito, é lucro.

Ao mesmo tempo, e concordando que, entre pagar salários e fornecedores eu, se fosse gestor, optaria sempre pela primeira opção – tal como o Sporting fez relativamente ao Sp. Braga –, desde que devidamente conversada e negociada com os credores, nenhum Presidente ou dirigente pode permitir que quem desenha o discurso e a comunicação externa crie a perceção de que somos ‘caloteiros’ porque sim. Porque foi isso que aconteceu no recente episódio do não pagamento da primeira tranche relativa a Rúben Amorim, conferindo à SAD arsenalista e ao seu presidente um estatuto de superioridade moral inaceitáveis. Basta simplificar e explicar, de forma clara e transparente, falando VERDADE, o racional das opções tomadas e aquilo que a lei põe ao nosso dispor.

Sim, há muito mais a fazer e a propor. Seguramente, estas ideias, só por si, serão insignificantes para nos garantir a Glória com que sonhamos há anos demasiados. Mas confio que isto é o princípio de um caminho. Porque eu acredito no Sporting Clube de Portugal, porque eu acredito que este Clube é viável e que tem futuro.

Autor: Nuno Saraiva, ex-jornalista e sócio do Sporting

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