Opinião

Pedro Peres Master in Sports Psychology

O que espera de nós 2022?

O ano desportivo chegou ao fim com alguns abraços que muito alimentaram o comentário futebolístico paralelo ao retângulo mágico. Foi curioso observar quanta discussão pode originar um gesto tão simples e humano e a facilidade com que se estruturam verdadeiras teorias impactantes em conspiração, escárnio e de nebuloso interesse.

Parece-me difícil compreender esta necessidade lusa de transformar atitudes e gestos de apelo mais ou menos veemente à tranquilidade em gatilhos de discórdia e sustento de guerras antigas altamente inibidoras de um espetáculo sadio e atrativo.

Se algumas vezes tenho a convicção de vir de dentro dos meandros da bola a irresponsabilidade de, ao futebol, ser subtraída a capacidade de funcionar como escola de valores e princípios éticos, nesta situação particular, acredito que o problema estará mais ao redor das entidades desportivas que propriamente no seu interior.

Infelizmente, muito provavelmente derivado ao contexto histórico do nosso país, acusamos ainda uma significativa falta de cultura desportiva e os nossos adeptos são essencialmente isso mesmo, adeptos, torcedores e apoiantes de clubes e não tanto amantes de desporto e do jogo de futebol em particular.

Se olharmos com relativo e transversal cuidado ao comentário mais estruturado nos vários formatos comunicacionais, passando pelas conversas de café e discussões de altercação amistosa nas rodas de mão na algibeira, verificamos facilmente que o seu sustento é bem mais a defesa intransigente de cores clubísticas e a procura de argumentação sustentadora da supremacia da sua preferência do que a análise do jogo propriamente dito.

É vulgar verificarmos pouca admiração perante uma dinâmica que passa apenas por 22 indivíduos a correr atrás de uma bola, mas no que respeita ao gosto pelo emblema seja qual for a modalidade, esse já encerra recorrentemente a defesa cega e parcial em toda e qualquer situação.

Em alguns outros campeonatos que tanto destacamos positivamente, como é o caso inglês, também existem, com toda a certeza, pedidos e expectativas de vitórias e obtenção de troféus. Mas, verdade seja dita, ali os adeptos exigem a si próprios bastante mais. São incontornáveis as suas exigências ao nível do "fair play" e de apelo a um jogo limpo e justo. Vemos requeridas atitudes abnegadas de entrega à competição. São fortemente criticadas as tentativas de ludibriar os árbitros por intermédio de atitudes encenadas. São aplaudidas as condutas em prol de um espetáculo que eles querem de qualidade e os atletas que, mesmo defendendo outras cores, lhes proporcionam bons momentos de uma atividade que apreciam verdadeiramente.

Toda esta exigência é sustentada num apoio incondicional às suas equipas, quer vençam ou não e sempre que lhes seja garantido o direito a observar jogadores e treinadores apenas dedicados a dar tudo pelo seu melhor rendimento.

Ora, nesta linha de pensamento, julgo ser já tempo de refletirmos um pouco mais à moda do célebre estadista e olharmos para o que podemos nós ofertar ao novo ano desportivo e não tanto, ao que ele nos deverá conferir como desejos e interesses meramente pessoais.

Assim, fará mais sentido reposicionar as nossas prioridades e aprimorar um pouco as nossas preferências. Talvez seja altura de querer mais qualidade no jogo do que ganhar mais vezes sem qualquer propriedade. De cobrar menos mudanças de treinadores, de exigir menos resultados imediatos e defender apenas a cor da camisola. Ao invés, devemos lutar mais pela consideração do tempo que o trabalho bem feito necessita, defender acerrimamente a justiça e o respeito por todos os integrantes do jogo e substituir a vontade de ganhar sempre, a qualquer preço, pelo desejo de, independentemente do resultado no marcador, sair sempre vencedores pela tranquilidade conferida pelo fazer bem feito.

Deveríamos estar mais atentos ao que o futebol poderá contribuir para a formação do individuo e não somente para o crescimento do potencial desportivo. Desejar mais o desenvolvimento do atleta e não apenas do futebolista. Esta deve ser uma preocupação sobretudo dos pais dos jovens atletas. Ao contrário de tentarem parametrizar a atuação dos treinadores, será mais profícuo enquadrarem a prática dos seus filhos procurando a promoção de atividades prazerosas com ganhos para o desenvolvimento global das crianças e tendo sempre presente nas escolhas de modalidades e clubes a utilização do desporto como veículo e reforço pedagógico com impacto positivo na estruturação biopsicossocial dos seus entes mais queridos.

O futebol, tal como o conhecemos hoje no nosso país, pelo movimento financeiro que acarreta e pela promoção mediática que gera, terá sempre grande dificuldade em expurgar e afastar do seu seio as tão perversas toxinas que o corroem. Dessa forma, só existindo da parte de quem consome o espetáculo, uma mudança de estilo e uma luta intransigente pela qualidade global do futebol conseguiremos evoluir para um patamar superior.

No fundo, resumindo as expetativas para o novo ano, devemos nós consumidores repensar o tipo de espetáculo a que queremos assistir e estar preparados para puxar mais vezes o livro de reclamações. Requerendo de quem decide os moldes em que esta atividade se desenrola, um investimento sério na qualidade do jogo e na promoção de um desporto de massas que pode e deve ser uma escola de valores com grande impacto no desenvolvimento holístico dos indivíduos e, em particular, das crianças e jovens. Cobrança esta, legitimada também por uma nova abordagem, um outro olhar e uma diferente conduta oferecida pelos adeptos para um novo jogo de futebol.

Deixe o seu comentário

Pub

Publicidade