O selo do futebol

TENTANDO perscrutar os segredos da História e vendo nela o drama de uma dor sempre redimida concluiríamos que a nossa época é um tempo de tragédia. Nela correm parelhas os desastres da mão do homem e as revoltas da Natureza. Não conhecemos os fios invisíveis desta representação universal, mas pressentimos os perigos que de mais perto ou de mais longe nos seguem os passos.

Foram os italianos que inventaram a palavra “disastro” de “disastrato”, vindo de maus astros, de más estrelas, e assim o transmitiram às principais línguas cultas. Não há dia nenhum que o não sombreie a asa da desgraça: os vulcões e os sismos, os incêndios e as inundações, as derrocadas e os bombardeamentos, os raptos e o terrorismo, o luto das viúvas e o choro dos órfãos. Eça de Queiroz descreveu numa página admirável esta lei das emoções, hoje de contornos mais largos devido à prodigiosa facilidade das comunicações. Mas a lei psicológica permanece inalterável. A comoção fere-nos na razão inversa da distância.

Viriato Graça Oliva foi árbitro de futebol. Talvez o último árbitro que andou no futebol só por gostar do futebol como forma de realização humana. Era um comerciante bem sucedido e possuía esse raro condão de fazer amigos que é timbre dos corações generosos. Recentemente, entrando na política regional, venceu as eleições para a presidência do município da sua terra natal.

Apesar de há muito ter passado o seu tempo de protagonista da bola e de haver mudado de rumo nas actividades sociais, ainda foi pelo designativo de “árbitro” que o país inteiro conheceu, primeiro, o seu misterioso desaparecimento, e, depois, a tragédia que lhe ceifou a vida, juntamente com a da mulher, numa curva da estrada, sem outros vestígios e testemunhos senão o traço de um despiste. Aqueles que o conheceram de perto como eu terão experimentado essa dolorosa sensação da perda de um amigo. Mas o que nele persistia em viver como identificação social era o antigo árbitro.

Eis aqui uma grande lição para aqueles todos a quem o futebol alguma vez escolheu. A popularidade que traz consigo imprime carácter e acompanha pela vida fora os seus eleitos. É verdadeiramente uma chancela, um selo, um sinal do autêntico. Sabemos como entrar no futebol; mas ninguém sabe como sair dele.

A montanha

HÁ DIAS, os serviços de Imprensa da FIFA fizeram anunciar “urbi et orbi” que estava na forja uma alteração das regras ou dos regulamentos, já nem sei bem. Esta publicidade madrugadora encerra um sintoma encorajante: a própria FIFA reconhece que há muito para mudar e vai entretendo as plateias da bola com esta esperança peregrina.

Trocado aquilo por miúdos, viu-se que as mudanças não vão além de pequenas esquírolas, sem influência na economia do jogo. Mas a ideia existe, o pressentimento é cada vez mais opressivo e cada vez mais pesado o medo do futuro. Se o projecto de mudar já reflecte algum progresso, ao menos nas consciências, a coragem de mudar o que anda errado, ou seja, o que se revela todos os dias ruinoso e obsoleto, essa está longe de se decidir. Parece que a FIFA tenta iludir os dois hemisférios: a um contenta-lhe o culto do imobilismo; a outro serve-lhe um aperitivo para enganar o paladar.

Mais uma vez a montanha anunciou que ia parir; uma vez mais a montanha limitou-se a parir um rato...

A peste...

O ÚLTIMO número do “Figaro Magazine” conta que as autoridades portuguesas armaram uma espera aos adeptos do Liverpool para lhes estender aos pés uma passadeira de desinfecção por causa da febre aftosa. A mesma notícia sublinha que foi Portugal o pioneiro destas cautelas, obrigando também os visitantes a despejar nos recipientes do lixo os produtos de natureza alimentar.

Não se pode dizer que ao menos desta vez padecemos de desleixo, embora menos radicais do que os polacos que proibiram toda a importação de porcos e ruminantes, todos os azimutes. Diz a mesma publicação, com dados à vista, que a Europa jaz cercada de febres pestíferas e já minada por dentro. Isso não tira o brilharete às nossas autoridades obrigando os britânicos a sacudir a polaina antes de entrar em Portugal..

Eu pergunto: se a peste não se detém, que vai ser das competições internacionais de futebol e dos outros certames desportivos? Que vai ser de um futebol que arrasta multidões bacteriologicamente impuras?

Enfadonho

NÃO sei o que se passa nos actuais cursos de treinadores, mas avaliando-os pelo respectivo boletim da UEFA, existe neles uma nova preocupação de estilo. O treinador não está pregado à relva nem amarrado ao pontapé no esférico. Tem deveres de representação. Tem de falar aos meios de Comunicação Social.

Ora estas obrigações novas ameaçam criar entre nós um discurso repetitivo e enfadonho, uma espécie de glossário de cartilha que se abre e fecha sempre com o mesmo ritual: “entrámos bem no jogo”, “a nossa equipa mostrou carácter e teve atitude”, “tínhamos o jogo controlado”, “houve uma desconcentração da nossa defesa”, “mostrámos respeito pelo adversário, etc. etc.“.

Salvo também o devido respeito, este dialecto só tem parra e não tem uvas. Mera cortina vocabular, sem uma fresta de luz.

Certa vez, o poeta Marcial queixou-se em tribunal de lhe terem roubado as cabras. O advogado que o defendia desatou num discurso em que exumava dos arquivos e das lendas a História de Roma. O Marcial indignou-se:

-Senhores, eu só quero de volta os meus bichos. Quando é que se passa ao próprio e essencial?

Onde o clube?

TODOS os povos possuem o seu rifonário, capaz de lhes definir a idiossincrasia. Quando nós dizemos que num lado se põe o ramo e noutro se vende o vinho, trocámos a realidade pelas metáforas.

Com a chegada obrigatória das sociedades desportivas; com a intromissão dos empresários dos jogadores e a animação da bolsa de transferências; com o que ainda resta de evasivo da famigerada lei Bosman; com a hegemonia das ligas profissionais; e com tudo o mais de capcioso e negativo que a sociedade de hoje introduziu nas relações humanas, o clube, célula-mãe da organização desportiva, empalidece a olhos vistos. A própria hierarquia interna sofreu e sofre abalos fatais.

É o balneário, vago e indistinto, que detém o segredo dos comportamentos institucionais. O treinador, o dirigente, o secretário esmolam à porta dos balneários. O poder dissolve-se numa teia de competências rivais. A mística dos clubes mal passa já de tropo literário.

Não tarda que ele responda aos fiéis que o procuram como a última pitonisa de Delfos: os deuses já não moram aqui...

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