JOSÉ COUCEIRO, DIRECTOR DESPORTIVO DO ALVERCA
Os relvados em Portugal podiam, de facto, estar melhores, a começar pelo nosso. Isso acontece, fundamentalmente, porque não há muitos campos de treino. Os nossos relvados, na maior parte dos casos, têm uma utilização excessiva, portanto, é natural que acabemos por pagar por isso.
Há relvados que são muito antigos e de facto, com a utilização que têm, acabam por ser problemáticos, embora hoje as pessoas já estejam alertadas para a importância de jogar num bom relvado.
Aquela frase que se utilizava há alguns anos onde se dizia que os campos maus beneficiavam os bons jogadores, já está posta de lado. Um mau campo afecta o resultado do jogo, o espectáculo e provoca o aparecimento de lesões. Há muitas lesões que são provocadas pelo estado do relvado.
Muitas vezes as pessoas olham e até lhes parece que o relvado está em boas condições, mas basta ele ter alguma grama para que um jogador, ao fazer uma rotação, fique com uma lesão no joelho.
LAFAYETTE MACHADO, PROPRIETÁRIO DE UMA EMPRESA DE TRATAMENTO DE RELVADOS
O que destrói a relva é o excesso de utilização, porque provoca a compactação e a água não circula e nem sempre há a manutenção adequada, o que agrava os problemas.
Outra questão é a má construção. Um relvado bem construído, em areia, com uma boa malha de drenagem, não oferece problemas. Em Rio Maior esteve o Sporting, incluindo a equipa B e, no fim, o relvado estava como novo.
Há também a questão dos fungos, porque nesta altura os relvados precisam de muita água e o excesso de humidade e temperatura dá origem ao aparecimento de algas.
A maioria do clubes faz apenas uma descompactação no fim da época, mas isso não dura, porque era necessário fazerem várias ao longo do ano.
Por incrível que pareça, os melhores relvados pertencem a equipas da III Divisão, que sobem, e constroem-nos com a última tecnologia. Geralmente, até não é necessário construir um novo relvado. Todos são recuperáveis.
O de Rio Maior tinha três anos e estava impraticável. Foi feita uma recuperação total e hoje é um belíssimo relvado. Mas isso leva o seu tempo e tem custos.
MARINHO PERES, TREINADOR DO BELENENSES
Como vi poucos relvados até agora, é difícil falar sobre a situação em Portugal. O campo do D. Aves, no qual jogámos na primeira jornada, tinha boas condições mas estava um pouco irregular.
De qualquer modo, estamos a analisar um ponto importante no futebol, já que o relvado é o local de trabalho, é onde o jogador pode mostrar a sua capacidade ou incapacidade. Um mau relvado, no qual a bola não consiga rolar normalmente, pode prejudicar o talento e é um desrespeito ao futebolista e ao próprio público.
Muitas equipas técnicas, em todo o mundo, recorrem a artimanhas para piorar as condições do campo. Hoje não o faço, mas eu próprio já molhei o relvado para prejudicar a técnica do adversário.
No Brasil, especialmente no futebol paulista, o mais competitivo do país, estas coisas já não acontecem. A Federação Paulista de Futebol tem funcionários que cuidam especialmente dos relvados e de outros aspectos relacionados com a organização dos jogos. Um clube que não cumpra as regras pode ser multado, como já ocorreu algumas vezes.
VELOSO CARDOSO, COORDENADOR TÉCNICO DA LIGA DE CLUBES
Os relvados portugueses têm vindo a ser melhorados. Na Liga, temos vindo a aconselhar os clubes sobre o que deve ser um relvado. Costumo usar a imagem de que o campo deve ser liso como o tapete de uma mesa de bilhar.
Isso não está assegurado em todos os estádios e, nesta altura, há sempre coisas que correm menos bem. Até já existe sensibilidade para a necessidade de ter bons relvados, mas há que ter em conta a localização da maior parte dos nossos estádios, que estão dentro das cidades.
Na periferia dos estádios, poucos são os clubes que têm terrenos para construir campos de treino. Geralmente, o que acontece é que durante a época a relva é bastante utilizada e quando o campeonato chega ao fim, é necessário "refazê-la".
A Liga tem poderes para impedir que se disputem jogos se o relvado for uma manta de retalhos e sulcos, mas isso nunca aconteceu.