A venda da participação de 16,38% da SAD do SL Benfica por parte de José António dos Santos e do Grupo Valouro a investidores internacionais, ainda dependente de formalidades de natureza estatutária, legal e de compliance, levanta várias questões relevantes, sobretudo tendo em conta a dimensão da posição em causa.
Desde logo, destaca-se a entrada de capital estrangeiro qualificado. A Entrepreneur Equity Partners está associada a executivos com ligações à Oak View Group e à Acrisure, o que sugere tratar-se de investidores não passivos, com potencial para criar valor em áreas como receitas comerciais, infraestruturas e expansão internacional.
Verifica-se também uma reconfiguração do quadro acionista. A saída de um acionista histórico altera equilíbrios, ainda que uma participação de 16,38% não represente controlo. Ainda assim, poderá traduzir-se em influência relevante na governação, dependendo do alinhamento dos novos investidores. Em conjunto com os 5% já adquiridos por outro grupo norte-americano, poderá formar-se um bloco de cerca de 21%, o que tenderá a aumentar a pressão sobre a administração da SAD.
Importa ainda notar que nenhum destes investidores apresenta um perfil clássico do setor do futebol ou do desporto, nem tão-pouco um perfil financeiro tradicional. Trata-se, sobretudo, de especialistas em eventos e exploração de infraestruturas.
A operação pode ser interpretada como um sinal de valorização, refletindo expectativas de crescimento. No entanto, importa distinguir entre uma visão estratégica de longo prazo e uma lógica essencialmente financeira. O perfil identificado sugere uma abordagem de “comprar, valorizar e sair”.
Existem, naturalmente, riscos. Investidores com horizontes temporais mais curtos poderão pressionar para decisões mais orientadas para a vertente comercial, potenciando algum desalinhamento com a identidade do clube. Este movimento insere-se, aliás, numa tendência mais ampla de financiamento do futebol europeu.
Coloca-se, por isso, uma questão estratégica: deveria o Benfica ter recomprado esta participação antes de permitir a sua venda direta a um parceiro institucional e estratégico que acrescentasse verdadeiramente valor?
Na minha perspetiva, a resposta é afirmativa. A não concretização dessa opção pode ser vista como um erro estratégico. No mínimo, exigiria uma reflexão aprofundada. Tal decisão permitiria reforçar o controlo num momento de transição, criar valor numa eventual alienação futura em melhores condições e, sobretudo, escolher um parceiro verdadeiramente alinhado com a visão e ambição do clube.
Acresce que, atendendo à capacidade de endividamento do Benfica e à liquidez atualmente disponível no mercado, não seria, à partida, uma operação difícil de estruturar do ponto de vista financeiro. Não tendo sido essa a via seguida, resta avaliar a eventual existência e exercício do direito de preferência, desconhecendo-se se o Benfica foi devidamente notificado para o efeito.
Mais do que ter investidores, importa ter os parceiros certos. Num futebol cada vez mais global, a gestão do capital é também uma questão de identidade e de futuro.
Fica a reflexão: queremos apenas investidores ou verdadeiros parceiros estratégicos?