Patrick Morais de Carvalho
Patrick Morais de Carvalho

Todos pelo Belenenses

Há uma mentira que de tantas vezes repetida, nuns casos de forma involuntária, noutros nem tanto inocente, foi sendo assimilada como boa. A verdade é uma: não existe qualquer guerra entre o Clube de Futebol "Os Belenenses" e a equipa de futebol que representa as suas cores.

O que acontece é que os sócios estão profundamente desagradados com a gestão desportiva, com a gestão financeira e com a gestão emocional e social que a actual Administração da SAD tem imprimido à sociedade e encontram-se impedidos desde 2012 de alterar os elementos da gestão dessa sociedade em virtude da democracia ter deixado de funcionar o que repugna a nossa associação desportiva que é reconhecidamente consagrada e popular.

Ora, se não existe uma guerra entre o CFB e a sua equipa de futebol, qual a razão que hoje levará muitos sócios do clube a deslocarem-se ao Pavilhão Acácio Rosa para discutir e deliberar qual o relacionamento que querem que o seu Clube tenha com a Sociedade que gere o futebol profissional?

No espaço de uma página dificilmente alguém conseguiria explicar tudo o que está em causa, mas privo-me de algumas linhas na argumentação para chamar à conversa (que por esta via quero manter não só com os sócios do Clube mas também com os amantes do desporto e as entidades que tutelam o futebol em Portugal) um assunto que tem de ser entendido na sua dimensão social.

Ao contrário do que sucede em Inglaterra ou Itália, o futebol em Portugal (tal como em Espanha) é uma parte importante, mas não única, da vida de um clube. Os clubes, aliás, são desde sempre a expressão da vontade de um grupo de homens que partilham determinados valores, sejam eles desportivos, éticos ou até simplesmente geográficos. Nestes grupos as decisões e orientações são seguidas de forma democrática, mesmo que nem sempre consensual.

É isso que está em causa no Belenenses. Em 4 de Novembro de 2012, numa das decisões mais difíceis da história do Clube, os sócios aceitaram abrir mão do controlo da SAD, mas só depois de lhes ser assegurado em AG que o Clube teria SEMPRE a possibilidade de recuperá-lo, tornando-se este ponto um dos pilares do negócio que viria a ser assinado pela Direção que me antecedeu e os representantes da Codecity.

Resumindo uma história longa, em 2014 a Codecity informou o Clube de que extinguia naquele instante unilateralmente o Acordo Parassocial, um dos três documentos que regulavam as relações entre as três partes. A saber, entre Clube e Codecity dois: Contrato de compra e Venda e Acordo Parassocial; entre Clube e SAD um: Protocolo de Repartição de Direitos e Deveres.

Com essa decisão a Codecity visava atingir dois objectivos: excluir o Clube do controlo e da gestão da sua SAD e afastar o direito de recompra mandatório do CFB.

Em novembro de 2017, e depois de contestação em tribunal arbitral, já movida pela minha Direção, foi confirmada a justa causa do corte promovido pela empresa Codecity. Na prática, de relevante, a única alteração no relacionamento entre as partes é que o CFB passou a ser um estranho na sua própria casa, um mero sócio de uma sociedade, com 10 por cento das ações, mas privado, a nosso ver imoralmente, do direito de recuperar o controlo da SAD que fundou e onde personalizou a sua equipa de futebol profissional.

Sendo evidente o manifesto desequilíbrio de forças e a perda de relevância do CFB no panorama da gestão da SAD, a alteração de paradigma leva a que Direção a que presido hoje proponha aos sócios que lhe seja dado um mandato alargado para tomar todas as decisões consideradas fundamentais no sentido de equilibrar o jogo de forças e de interesses entre Clube, Codecity e SAD. Fazemo-lo, apesar de estatutariamente a isso não estarmos obrigados, porque entendemos ser crucial que os sócios se expressem de forma inequívoca.

Entre os pontos fundamentais encontra-se a denúncia unilateral do Protocolo entre Clube e SAD, a partir de 30 de junho de 2018, data escolhida para não causar qualquer prejuízo à gestão da SAD até final da presente época. Por não querermos causar danos imprevistos damos assim um aviso prévio muito confortável para a SAD poder preparar o seu futuro, caso venha a revelar-se não ser possível acordarem-se novos termos do Protocolo, mais justos e equilibrados que os daquele que será extinto; Também para não perturbar a equipa de futebol profissional e para não ferir a competição em que esta está inserida, na medida em que a denúncia imediata do protocolo impediria a SAD de utilizar o Estádio do Restelo, propriedade do CFB, e daria uma vantagem competitiva aos adversários que na 2ª volta vão defrontar a Belenenses SAD.

Porque desde início os sócios do Clube estão de boa fé neste processo; porque o CFB é uma ‘pessoa de bem’, imediatamente abrimos portas à negociação. Só não negociamos a honra do Belenenses, tão pouco a sua sobrevivência. E para sobreviver, perante a alteração de paradigma promovida pela resolução pela Codecity do acordo que era a garantia da vontade dos sócios, o Belenenses não abdica de que o futuro protocolo lhe permita ter uma equipa de futebol sénior que competirá na divisão mais acima em que lhe seja possível inscrever-se, visando três objectivos: alargar o campo de recrutamento para as equipas de formação dando aos jovens perspectivas de futuro; garantir a continuidade da prática do futebol aos nossos juniores que hoje maioritariamente abandonam a competição na transição para o futebol sénior e aumentar dos 18 para os 24 anos os direitos a receber sobre a formação de atletas, o que é fundamental para a sustentabilidade financeira do Clube.

Também o regime de conta corrente entre Clube e SAD terá de ser substituído por um regime de pré-pagamento, entre outras medidas que pela extensão se torna irrelevante aqui discriminar.

É importante que os sócios do CFB saibam, antes de votarem esta proposta, que ao denunciar o Protocolo em vigor, o Clube não pretende de modo algum terminar as relações quer com a SAD de que é fundador, quer com a empresa Codecity. O protocolo é denunciado por o CFB não se rever no espírito do mesmo à data de hoje em virtude de com a decisão arbitral terem-se verificado profundas alterações das circunstâncias. O CFB vai apresentar à SAD e à Codecity condições e valores de mercado imbatíveis (tendo em conta o palco que é o Estádio do Restelo); porque o lugar da equipa profissional de Futebol do Belenenses é junto aos seus adeptos, no Restelo; e porque o Clube quer efetivamente encontrar uma solução para as divergências do passado, só não haverá protocolo em dois cenários: se a SAD e a Codecity não se dispuserem a negociar; ou não chegarem a acordo com o Clube. Por esta razão, o CFB não equaciona, à data de hoje, a possibilidade de não haver um acordo que é fundamental para as três partes. Garantimos que a Belenenses SAD jogará no Estádio do Restelo até final da presente época. E de boa-fé tudo faremos para que a Belenenses SAD jogue no Estádio do Restelo também na época de 2018/19. É possível que tal não se verifique, sim, mas se tal não acontecer será por opção única e exclusiva da Belenenses SAD.

Para terminar, quero aqui partilhar palavras que um sócio me dirigiu há dias: "Não foi encolhidos a um canto, com medo de dar passos firmes que chegámos quase aos 100 anos de história e aos quatro títulos de Campeão Nacional. A nossa história é de luta e preferimos morrer a lutar pela diferença de se ser Belenense do que ficar a assistir a uma morte lenta".

A este amigo e a todos os que me lêem quero dizer que o Belenenses tem futuro; que a nossa História nos torna únicos mas que temos de saber estar à altura dela. Que a nossa luta não é contra ninguém, é pela vida do Belenenses. Sei bem, e todos sabemos, qual seria o voto na AG de hoje do nosso fundador Artur José Pereira, de Acácio Rosa, de Homero Serpa, de Ana Linheiro, de Francisco Mega, de Soares da Cunha e de tantos Belenenses que crescemos a admirar.

Venham todos à AG. Vamos fazer ouvir a voz do Belenenses e dizer que Belenenses queremos: se um Belenenses à Belenenses ou um encolhido a um canto.

Hoje como antigamente, nada temos que temer. Belenenses para a frente, com a certeza de vencer

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