Obrigado Rui Vitória!

O Benfica conquistou o 35º título nacional do seu historial, o terceiro consecutivo, depois de um início de época em que nada o fazia prever.

O Benfica iniciou a época com um plantel muito aquém dos últimos anos. Este era o plantel mais fraco do Benfica dos últimos 11 anos. Creio que pior só em 2004/2005 em que o Benfica foi dos piores campeões de sempre com menos 23 pontos que o actual. Desde 2005/2006 para cá sempre tivemos sempre um número mínimo de 5/6 jogadores por ano de top, muitos deles que se transferiram para clubes candidatos a ganhar a Liga dos Campeões.

Este Benfica começou por ser a equipa do Gaitán + 10, tal foi o seu início de temporada desastroso. Fazendo uma análise ao plantel do Benfica é fácil perceber as suas fraquezas comparativamente com os últimos anos. Na baliza temos as únicas excepções com Júlio César e Ederson a nível muito elevado. No centro da defesa Luisão esteve longe de ser a referência de outros anos. Jardel é sem dúvidas dos centrais que mais evoluiu no Mundo mas não é nenhum Garay.

Lindelöf jogava na equipa B o ano passado. No lado direito da defesa o Benfica jogou preferencialmente com 2 portugueses (André Almeida e Nélson Semedo). Jogadores que estão longe de ser consensuais para o Euro 2016, algo que sempre fui impensável nos últimos anos no Benfica. Dada a qualidade do plantel, qualquer jogador titular tinha que ser internacional com frequência pelos respectivos países, salvo excepções de Brasil e Argentina que tem uma quantidade de jogadores de qualidade assinalável! Do lado esquerdo da defesa, Eliseu está bem longe de Léo, Fábio Coentrão ou Siqueira por exemplo.

No meio-campo Fejsa e Samaris estão também longe de Matic ou Javi Garcia. Renato Sanchez é um jovem vindo dos juniores. Pizzi está longe de ser o ala direito ideal para uma equipa que quer atacar quartos de Liga dos Campeões.
E na frente de ataque Jonas não marcou em nenhum clássico e tem uma média de golos na Liga dos Campeões muito baixa. Nos jogos a doer o seu rendimento é claramente inferior.

O Benfica perdeu também um dos melhores treinadores no treino do Mundo. Considerado quase unanimemente como dos treinadores que mais jogadas criativas consegue criar e cujo modelo é mais pesquisado por colegas de profissão. Perdeu um detector de diamantes, que consegue potencializar jogadores como muito poucos o conseguem fazer no Mundo e contratou um treinador sem provas dadas no que a classificações cimeiras do campeonato diz respeito.

Apesar de todas estas contrariedades, Rui Vitória, que está longe de ser um criador como Jorge Jesus, conseguiu o impensável. Ser Campeão Nacional e chegar aos 37 minutos da 2ª mão dos Quartos-de-Final empatado na eliminatória com um dos mais fortes candidatos ao título europeu. E nesse jogo não contou com Gaitán, Jonas e Mitroglou.

O Benfica, de Rui Vitória, conseguiu a sua terceira melhor prestação europeia dos últimos 43 anos! (desde 1973).
O Benfica de Rui Vitória conseguiu a melhor prestação interna dos últimos 43 anos! (desde 1973).
E a grande pergunta é, como aconteceu este milagre?

Este milagre aconteceu, porque Rui Vitória é o protótipo do treinador que o futebol actual pede. Não é necessário ser uma grande criador, o tal mestre da táctica, essencial é ser capaz de tirar o melhor proveito colectivo dos seus jogadores, motivá-los e unir o grupo, tendo uma crença e uma determinação infindáveis na busca pelo sucesso!

Ao contrário de Jorge Jesus, que sempre esteve longe de potencializar o colectivo, apenas uma vez em 5 anos passou a FG, Rui Vitória conseguiu tirar o máximo proveito da equipa. Treinando, jogando e vivendo como um todo unido e inquebrável!

No ano transacto sem jogadores de qualidade assinalável Jorge Jesus foi vergonhoso na Liga dos Campeões e porquê? Porque quando não existe qualidade individual o actual técnico leonino não consegue capturar outras qualidades. O espírito de grupo, a concentração nos objectivos (O Sporting teve 7 pontos de vantagem sobre o Benfica, perdeu 2 campeonatos com 4 e 5 pontos de vantagem para o Porto), a consciencialização das suas limitações. Os jogadores de Jorge Jesus, tal como o técnico estão sempre a arranjar desculpas para as derrotas, pensando sempre que são os melhores em campo e que são os árbitros e o azar a retirar-lhes as vitórias.

O Benfica de Rui Vitória foi uma equipa que cresceu a partir das suas limitações, não dava para mais, talvez por isso tenha perdido 5 dos 6 clássicos que jogou, mas na Liga dos Campeões a crença e determinação infindáveis permitiram ganhar no Calderón, ganhar 2 jogos ao Zenit e sem os seus 3 jogadores mais influentes na 2ª mão ser eliminado pelo Bayern por um escasso golo de diferença.

É fácil ver como de um ano para o outro os jogadores percebem muito mais o que é a mística benfiquista, as suas declarações e a sua postura em campo é muito mais consciente e profissional. Vários são os casos de jogadores que vêm a público criticar a parte humana de Jorge Jesus e quem trabalhou com Jorge Jesus e Rui Vitória sabe bem as diferenças, veja-se o caso de Luisinho. Eu tive um colega na faculdade, que foi aluno de Rui Vitória, e só tinha elogios para a sua postura enquanto professor e enquanto homem.

São todas estas qualidades desportivas e extra-desportivas que permitiu com que o Benfica tivesse realizado esta época de sonho (fase à qualidade do plantel). Todos os jogadores são importantes e todos conseguiram render o máximo que puderam. Porque fizeram auto-crítica, uniram e trabalharam! Tirando os clássicos o Benfica apenas não venceu 2 jogos! Isto é a perfeição para este plantel! O Benfica deixou de ser o clube em que o campeonato era a prioridade! O Benfica recuperou a sua mentalidade histórica! Olhou olhos nos olhos perante qualquer adversário, seja ele Zenit, Atlético de Madrid ou Bayern de Munique e acreditou até ao fim que podia ser melhor, nunca pensando que se fracassasse o campeonato era a prioridade. Jogou a Champions, como os partidos mais importantes da época, com uma concentração que há muito não se via e por isso mesmo depois de tanto desgaste físico e psicológico continuou ganhando para o campeonato, umas vezes com mais outras com menos sofrimento.

Já o Sporting, nas competições europeias não teve um único jogador de campo com mais de metade dos jogos a titular na equipa, que tenha sido frequência assídua no onze em jogos do campeonato. O Sporting geriu o plantel na Liga Europa e jogou apenas 2 jogos na competição depois do virar do ano.

Teve uma vantagem de 7 pontos sobre o Benfica e desperdiçou-a. O seu plantel ao contrário dos últimos anos está longe de ser considerado inferior ao Benfica, basta analisarmos os 11 tipo de cada clube e ver que as diferenças são escassas ou inexistentes.

Jorge Jesus continuou com o discurso da prioridade do campeonato. Bruno de Carvalho com as desculpas das arbitragens e os adeptos lá foram seguindo as ideias dos seus principais responsáveis, dizendo sempre que são a melhor equipa e que tem azar por não ganhar os jogos.

Esquecendo que talvez mais importante no futebol actual do que criar é simplesmente saber copiar bem. Algo que Jorge Jesus disse na sua última conferência de imprensa " Eu crio, os ouros copiam". Mas as cópias neste caso são bem mais eficazes do que os originais, porquê? Porque existe uma diferença gritante na vertente extra-desportiva entre Benfica e Sporting.

Os constantes discursos do treinador e presidente não permitem nenhuma auto-crítica ao Sporting, o clube não tem a capacidade para reflectir sobre os seus erros e crescer a partir deles. É sempre a bola no poste ou na barra, não arranjando soluções para inverter esse cenário. São sempre superiores dentro do campo, mas não percebem que se a finalização não estiver apurada isso de nada vale e lá considerando os seus empates e derrotas como inexplicáveis, no fundo tem um problema e nunca buscam a solução.

Talvez por isso foram eliminados da Liga dos Campeões depois de terem uma vantagem de 2 golos na eliminatória (a arbitragem não é desculpa para caírem assim, ceder o domínio completo do jogo ao CSKA e sofrer 3 golos dessa maneira), talvez tenham desperdiçado 7 pontos perante o Benfica e não tenham sido capazes de chegar simplesmente aos oitavos de final da Liga Europa.

Uma equipa que se vê tão prejudicada em Portugal já leva 4 anos sem conseguir estar pelo menos nos 16 melhores da Liga Europa, será que também no estrangeiro tudo está contra o Sporting?

No fundo o Sporting cria uma teoria da conspiração para justificar os seus fracassos, apoia-se em vitórias morais e vai seguindo sempre sem ganhar campeonatos nem disputar uns oitavos de final da Liga dos Campeões sem ser goleado.

O Benfica de Rui Vitória, com um plantel muito, mas mesmo muito mais fraco que das pretéritas épocas conseguiu aquilo que o Sporting em toda a sua história (60 anos de competições europeias) nunca o conseguiu: ser campeão e chegar aos quartos de final da Taça/Liga dos Campeões!

No mínimo, dá que pensar!

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