Viajámos no tempo com o Hugo e com quem o apresentou

Susana Bento Ramos foi uma das caras do jogo inovador que passou por Portugal no final dos anos 90/início de 2000

Ponto prévio: hoje em dia, participar em programas de televisão por telefone equivale a gastar "60 cêntimos + IVA" para, com sorte, podermos ganhar uns trocos ou um SUV da moda, acertando em números à sorte. Mas e se fosse a nossa habilidade nas teclas do telefone a definir se conseguíamos ou não ganhar algo? Tornar-se-ia num jogo?

Senhoras e senhores, deem as boas-vindas ao mais famoso duende/troll/ boneco adorável dos anos 90: o Hugo está no Record Gaming.

'Aaaaah', dizem todos vocês neste momento, enquanto recordam as horas que passaram a ver o programa da RTP ou a ligar para lá na esperança de salvar a família de Hugo das garras da bruxa Maldiva. 'Ah ah ah', rimos todos nós, quando nos lembramos das figuras que fazíamos com um daqueles telefones de brincar em frente à televisão, como se estivéssemos a participar no programa. Ok, talvez tenha sido eu o único a fazer isso.

Mas mais do que quem estava deste lado do ecrã, o Record Gaming teve o prazer de conversar com quem esteve do lado de lá, junto do Hugo e desse mundo de magia. Ela foi apresentadora do Hugo em 2001, é atualmente jornalista da TVI e agora viaja connosco no tempo até à Caverna das Caveiras. Escutemos, portanto, Susana Bento Ramos.

"Já lá vão 16 anos! O Hugo era um dos programas infanto-juvenis mais apreciados da televisão. Era uma referência! Esteve quatro anos na grelha do canal estatal e foi uma rampa de lançamento para nomes hoje consagrados. Dois exemplos: a atriz Joana Seixas e o jornalista Pedro Pinto, que foi cara do Desporto da CNN. Foi uma pena o Emídio Rangel ter acabado com o programa assim que chegou à RTP na qualidade de Diretor-Geral", confessou em entrevista ao Record Gaming.

Haverá entre os fieis seguidores do nosso cantinho alguém que não saiba do que estamos a falar? É possível, o tempo passa! Façamos, por isso, uma visita rápida à enciclopédia.

Hugo era um programa de televisão interativo, com origem na Dinamarca em 1990. Esteve no ar durante cinco anos consecutivos, mas foi além-fronteiras e chegou a mais de 40 países. Por cá, o famoso troll surgiu em 1996, na RTP2 – mais tarde haveria de chegar ao primeiro canal.

A voz estava a cargo de Frederico Trancoso, ao passo que Alexandra Cruz, Fernando Martins, Pedro Mendonça, Pedro Pinto, Joana Seixas e, claro, a nossa ‘Susana’ foram os apresentadores.

"Era jornalista no TVI Online e soube do casting por uma amiga dos meus pais. Mesmo constipadíssima e com falhas de voz, compareci. Lembro-me de receber um guião para as mãos e de me darem cinco minutos para decorar o que conseguisse. Pensei: ‘tenho que improvisar, brincar, ser o mais natural possível’. Era o primeiro casting da minha vida (aos 22 anos) e, no momento da verdade, senti-me estranhamente calma, descontraída. Também me recordo que achei que não tinha grandes hipóteses, porque tinha como concorrentes a Marisa Cruz (que pouco tempo depois estava a apresentar um programa infantil na SIC) e a Ana Sousa (na altura, tinha um currículo invejável! Já tinha apresentado uma data de programas infantis). O que é certo é que cerca de uma semana depois me estavam a ligar a dizer que tinha sido A escolhida. Fiquei, naturalmente, muito satisfeita! Curiosamente, a TVI não levantou qualquer problema. Deixou-me abraçar este projeto num canal concorrente", conta-nos.

Passemos à história do boneco. Hugo era um troll, figura do folclore escandinavo, com cerca de 220 anos. Um jovem, portanto. Vivia feliz com a mulher, Hugolina, e os três filhos: Rit, Rat e Rut. Mas, como a vida não é um mar de rosas, a bruxa Maldiva decidiu aparecer e raptar a família de Hugo, que contava então com a nossa ajuda para chegar à Caverna das Caveiras e libertar os seus ente-queridos. Uma fórmula de sucesso, Susana?

"Aquilo era uma telenovela muito criativa. Os argumentistas tinham imenso sentido de humor. Um humor propositadamente estapafúrdio! E isso agarrava o público. O mais jovem... e o menos jovem também!"

À medida que íamos caindo nas inúmeras armadilhas, o Hugo chegava a bater no ecrã da nossa televisão enquanto dizia frases que rapidamente se tornaram célebres.

"Ah ah, são inesquecíveis! A mais icónica de todas: ‘Continua lentinho e vais de carrinho!’. Mas há outras pérolas: ‘É tramado, mas este jogo está acabado.’; ‘Esquece, mãos-de-manteiga! Este jogo já era.’; ‘Não sejas molengão, joga com o coração!’; ‘Quando o Hugo e os participantes jogam em equipa, a bruxa flipa!’; ‘É muito melhor ter um amigo que perde, do que perder um amigo'".

Toda uma tecnologia

A forma como os espectadores participavam no programa era uma inovação à data. Basicamente, o jogador comandava o Hugo com as teclas do telefone enquanto olhava para a televisão. Isto era possível graças a uma tecnologia chamada IVR (Interactive Voice Response) e que ainda hoje é usada quando ligamos para aqueles Call Centers e temos de marcar trezentas opções antes de chegarmos ao pretendido. Refira-se que, à data, muitos lares portugueses tinham ainda aqueles telefones de disco, que não davam para participar no programa.

Em todo o caso, alguns felizardos lá conseguiam entrar em direto e participar na aventura, que era relativamente curta.

"Havia vários diálogos entre o Hugo, os apresentadores e os outros personagens da Hugolândia (Tuca, Castor, Cheiroso...). Como tal, não eram muitas as chamadas dos concorrentes. Meia dúzia, talvez", recorda a antiga apresentadora.

A facilidade com que hoje entramos em contacto não era propriamente igual à dos inícios dos anos 2000. Se somarmos a isso um programa em que os espectadores participavam telefonicamente, só podia dar uma história engraçada.

"Um dos programas foi um verdadeiro teste ao meu jogo de cintura! Houve um grave problema técnico que ninguém conseguiu resolver em tempo útil: eu não conseguia ouvir absolutamente nada daquilo que os participantes diziam, imagine-se! Desenvolvemos, então, uma autêntica estratégia de sobrevivência. A produtora do programa ia-me dizendo, através de sinais, se a resposta das crianças era ‘sim’ ou ‘não’. No final, surpreendentemente, correu bem!".

Ok, já estamos uns especialistas no Hugo. Mas, estando nós no Record Gaming, é possível chamar ao Hugo um videojogo sendo que uma ínfima parte dos espectadores é que realmente o jogava? Responde Susana Bento Ramos:

"Hugo é um jogo especial. Ponto! Não nos podemos esquecer que, para além do jogo jogado na televisão, também havia um videojogo que qualquer pessoa podia jogar na sua consola lá de casa. Assim se democratizou o Hugo".

Hugo faz agora parte das memórias da RTP e questionámos Susana sobre se um programa do género ainda encaixaria nos dias de hoje. A resposta surgiu sem hesitação.

"O Hugo é um clássico! Provavelmente hoje jogaríamos no telemóvel através de uma app. Assentaria lindamente nos dias de hoje, até porque ‘quando o Hugo está presente, não há bruxa que aguente!’".


Por Luís Miroto Simões
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