A alimentação, a hidratação e o sono: o outro lado da subida ao Evereste

Pedro Queirós explica a Record como se processa este grande desafio

Para lá da capacidade física e de superação, para se chegar ao topo do Mundo é também necessário fazer uma gestão praticamente perfeita da logística de toda a expedição. E um dos pontos essenciais é a alimentação, já que é ali que está o combustível para levar o corpo até ao Evereste. E se não há combustível... o motor não anda. A Record, Pedro Queirós explicou como tudo se processou, desde a logística de transporte até ao que se come e bebe.

"A alimentação é muito à base de hidratos de carbono. Levámos toda a comida até ao topo. Começámos no 'base camp' e vamos levando as coisas numa lógica de sobe e desce". No 'menu' constam alimentos de fácil preparação, que não se estraguem e que dêem o máximo de energia possível. "Batatas, noodles, esparguete, sopas, biscoitos, chocolcates, lentilhas...", elenca.

Além de servir para ir deixando comida e mantimentos nos diversos campos, este sobe e desce tem outro propósito. "Habituar o corpo às elevadas altitudes, para que ele possa produzir mais glóbulos vermelhos, que possam transportar mais oxigénio para os músculos, cérebro ou coração. É fundamental, caso contrário podemos ter a doença da altitude, o edema cerebral ou pulmonar. Que podem causar a morte numa questão de horas", explica.

Essencial para esse processo são os sherpas, os guias, "os grandes especialistas". "Sem eles 99% dos alpinistas não chegava ao topo", assume. E mesmo que sejam estes guias, na teoria, os responsáveis pelo trabalho 'duro', nomeadamente o transporte dos mantimentos, Pedro Queirós assume-se orgulhoso de ter feito o que poucos fazem: ajudar nesse processo. "Não é normal o cliente fazê-lo, mas quis para mostrar a mim mesmo que o podia. Transportei uma mochila de 15 quilos aos 7000 metros de altitude. Eram condições complicadas", recorda.

Com Mingma Sherpa, o seu guia

Outro aspeto fundamental para o sucesso de qualquer aventura que implique esforço físico é o sono. E aí, assume, acima dos 6.500 essa tornou-se uma tarefa complica. "Nos primeiros dias dormi bem. Mas depois o sono torna-se mais difícil, porque aumenta a ansiedade, o frio, a falta de oxigénio, mas també a amplitude térmica. Durante a noite está muito frio. Lembro-me que no campo 4 apanhámos -30ºC, mas no campo 2 recordo-me que houve uma manhã em que, com o sol bater, tínhamos 30 ou 40 positivos. Lembro-me de estar em tronco nu a suar! Todas estas questões vão diminuindo a qualidade do sono". E o pior ficou mesmo para o final, para o momento da verdade. "Quando ataquei o cume, estive 86 horas sem dormir. Acordámos a 6 de maio de manhã, quando soubemos que havia cordas e que o clima ia estar favorável, e só voltei a dormir na segunda à noite. Tentei descansar na tenda nesse processo. Mas com toda a ansiedade, frio, todas as dificuldades, tive acordado 86 horas".

Ainda assim, nesse período houve um momento que o marcou. A escassos metros do topo, depois de ter visto um cadáver no Hillary Step, recorda que por segundos fechou os olhos. E isso podia ter sido fatal. "Estava mesmo a chegar ao topo, era uma zona perigosíssima, houve muitos mortos no passado, sabia disso. Nessa altura estava a ir-ne abaixo. Estava a ficar preguiçoso. Houve uma altura em que me sentei para beber água, para descansar, e comecei a fechar os olhos. Eu estava neste estado! Mas estava no Evereste e cheguei a fechar os olhos por 10 segundos. Como quando estamos a ver um filme e fechámos os olhos... Mas ali fechar os olhos é morrer! Nunca adormeci. Foi uma 'cena' de fechar os olhos 10 segundos. Nunca estive perto de morrer, não quero fazer um filme disto. Mas passado umas semanas recordei e pensei 'f...! Eu tive ali um momento em que estive para fechar os olhos'. Se estivesse mais sozinho... é assim que começa", assume.

Por Fábio Lima
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