Maratona da Europa: A experiência de Pedro Amaro

12 semanas de preparação e 858km depois, eis que me estreio na distância mítica da maratona, numa prova também ela em estreia, primeira edição da Maratona da Europa em Aveiro.

O objetivo que, ao longo das várias semanas de plano, fui traçando era claro: terminar a maratona abaixo das 3h00 o que, embora fosse arrojado, tendo em conta ser a minha primeira maratona, considero que treinei bem para alcançar essa marca.

Para mim, o início desta prova foi ainda na véspera, quando cheguei a Aveiro, estando todo o meu foco voltado para a prova e para os pormenores que poderiam fazer a diferença. Estava de cabeça fresca, depois de uma semana de férias, na qual tive tempo para ir pensando em todos os pormenores que fossem relevantes para o dia 28 de abril, o dia D. Por muito que não quisesse, estava algo ansioso e queria rapidamente que chegasse o dia e pudesse finalmente começar a correr.

Assim, no sábado, chegando a Aveiro com a Lili, o local de chegada foi o Centro de Congressos onde se realiza a feira / expo da prova. Fiquei algo surpreendido, dado o reduzido tamanho da mesma, embora sinceramente, não seja algo relevante para mim, desde que tenha o essencial: levantar o dorsal e algumas informações úteis da prova.

Depois de levantar o dorsal, percebi que estava no bloco de partida B, que corresponde ao tempo de 3h00, relativamente à maratona. Uma nota sobre este ponto, uma vez que acabei por não perceber bem a correspondência dos blocos nas diferentes distâncias existentes, tendo ficado na dúvida em que bloco seria colocado e ao que corresponderia. Acabou por correr bem e fiquei bem situado para a partida, pelo que foi uma preocupação sem impacto. Ainda assim, seria útil clarificar esta informação em regulamento para futuras edições.

Após todas as formalidades necessárias, foi tempo de conhecer o grande Helder, máquina de maratonas que treinou muito forte para o seu grande objetivo nesta prova, 2h45m (!). Em seguida reencontrar uma série de amigos que vinham fazer uma das provas (10km, meia maratona ou maratona). Quem estava presente também, a Miriam e o Fred, as duas lebres que combinaram ajudar-me neste grande desafio. Assim, ficou alinhada a estratégia: a Miriam acompanhava-me na primeira parte da prova, onde os primeiros 3/4 kms seriam a 4:20 para estabilização e nos seguintes manter um ritmo a 4:10/4:15, tentando ir até ao fim desta forma. O Fred encontrar-se-ia connosco a partir do km 18 para ir comigo até ao fim. Tratava-se de uma estratégia excelente, que me permitia ter sempre alguém comigo a ajudar-me, o que numa maratona, é excelente.

Posto isto, é tempo de ir para o hotel, onde as primeiras perguntas foram muito simples e diretas: a que horas era o pequeno-almoço, convinha ser no máximo às 7h00, de preferência antes e a até que horas poderias fazer o check-out, tendo em conta que, já sabia que não conseguiria cumprir o horário normal das 12h00. Ambas as perguntas tiveram a resposta pretendida e fiquei descansado. Obviamente deveria ter feito estas questões muito antes, mas sinceramente, não costumo preocupar-me em demasia com estes temas até que seja mesmo preciso.

Hora de jantar, a minha massa esperava-me por volta das 20:30, tendo jantado no quarto. Já estava cansado e não deu para sequer explorar um pouco a cidade, pelo que aproveitei para preparar tudo para o dia seguinte e para descansar.

Estava algo preocupado sobre se conseguiria dormir bem, tendo em conta a ansiedade que costumo ter antes das provas, mas acabei por conseguir dormir por volta das 23h, tendo acordado às 5h e não consegui dormir mais. Chegou o dia, começou cedo e com vontade!

Às 6h50 desço para tomar o pequeno-almoço e tenho um momento hilariante: perguntaram-me o número do quarto e a minha pronta resposta foi "1007", o número do meu dorsal! Este foi mesmo um sinal do meu foco. Tomei o pequeno-almoço rapidamente, fui novamente ao quarto e por volta das 7h20 estava a sair do hotel em direção à partida (cerca de 600m a andar).

Assim que saio, deparo-me com uma manhã de nevoeiro, tendo sido uma boa surpresa, tendo em conta que a previsão apontava para uma manhã solarenga e com temperaturas a ir dos 13 graus (às 8h) aos 20 graus (às 11/12h). Pessoalmente, sofro bastante com o calor, pelo que claramente era uma boa notícia o nevoeiro.

Para além do calor, havia também a preocupação com o vento, prevendo-se pouco vento, o que me agradava e veio-se a confirmar. Durante todo o percurso, não tive problemas com o vento, o que foi excelente.

Sem combinar nada, com quem me encontro? A máquina! O Helder, a caminho da sua quarta maratona e do grande objetivo. Fomos em direção à partida onde já estavam algumas pessoas. Por volta das 7h40, fomos aquecer, num trote leve. Penso que ambos estávamos bastante concentrados, ansiosos e com aquela vontade que tudo comece. Foram cerca de 10/15 min de aquecimento (o Helder continuou). Hora da última ida ao WC...

Por volta das 8h00 encontro a Miriam, vamos conversando e encontrando alguns amigos, estando na hora de ir para os blocos de partidas (8h15). Entro no meu bloco, onde em 15min pude ver e cumprimentar uma série de amigos e até conhecer outros que apenas conhecia do Instagram.

Acabei por perceber que a questão dos blocos de partida não tinha sido bem implementada, tendo em conta a existência de pessoas de outros blocos que se encontravam no meu (o B), claramente houve falta de controlo, que deu nesta situação. Uma vez mais, não foi algo que me afetasse, mas acredito ser injusto, pelo que será importante corrigir a situação no próximo, como acredito que acontecerá.

Outro ponto que me parece que deverá ser analisado de alguma forma é a largura da partida, considerei haver pouco espaço para a partida para o que se pretende que seja a dimensão desta prova. Para esta edição foi suficiente, mas poderá ser um problema no futuro, se a prova tiver o crescimento que se pretende nos próximos anos.

Relativamente à questão de todas as distâncias partirem ao mesmo tempo e terem percursos em comum, não me fez qualquer confusão, nem me causou qualquer impacto, pelo que, a não ser que exista uma mais valia em realizar a partida de outro modo, pareceu uma boa organização (principalmente para quem gosta de correr provas de 10km e meia maratona mais cedo, algo que em Portugal não é hábito).

Estamos a 5min do início da prova e estou algo tenso, acho que é normal, mas é algo que acaba por me afetar a concentração naquele momento, mas com palavra puxa palavra, boa disposição e uma risada aqui e ali, acabei por me controlar bem.

Começa a contagem decrescente para o início e é hora de começar a concentrar-me apenas no que aí e vem e nas próximas pouco menos de 3h (espero eu).

10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, zás! Começa a prova mais importante desde que me dediquei a correr! Maratona da Europa, aqui vamos nós! Depois de cerca de 20s, passo a linha de partida e começo finalmente a correr, ainda com alguma dificuldade tendo em conta o facto de haver algumas pessoas à minha frente a um ritmo mais baixo do que o meu, mas nada demais, depois de alguns metros estava perfeitamente à vontade e pronto para avançar no trajeto ao ritmo que queria.

Primeiros 200m, sinto o corpo tenso e a respiração acelerada o que, com mais alguns metros fica normalizado, estando confortável e com a minha companhia de luxo, a Miriam, ao meu lado. Vamos para a maratona!

Primeiros kms, houve tempo para encontrar o Ricardo Areias, pacer das 3h15, que fez há poucas semanas um grande tempo em Roterdão - mais uma motivação, que cumprimento e sigo o meu caminho rumo ao pacer das 3h. Estou bastante tranquilo e confortável na minha passada, sem grande pressa para alcançar o pacer, indo a 4:20/4:15, portanto, dentro do ritmo pretendido. Consulto o relógio diversas vezes para confirmar o pace e acima de tudo a minha frequência cardíaca, que ronda os 150bpm, portanto, está controlado.

Nos primeiros kms, o percurso possui algumas subidas e descidas, mas tudo dentro do normal e facilmente ultrapassadas.

Por vezes o ritmo ia aumentando e lá ia tendo um aviso da Miriam: "olha 4:05!", então corrigíamos e voltávamos ao que era pretendido.

À medida que os kms passavam estávamos cada vez mais perto do pacer das 3h00, com o qual estava um bom grupo de atletas que, à minha semelhança, procuravam seguir o ritmo indicado e aconselhável para chegar ao fim com o tempo esperado, o sub3h.

Chegados aos 8km, entrámos numa avenida onde o piso é empedrado, foram cerca de 2,5km neste piso, sendo algo desagradável e quis rapidamente acabar aquele percurso que, para além de ser desconfortável, acaba por desgastar. Lá saímos dessa zona e dirigimo-nos para a periferia da cidade, onde comecei a sentir a primeira sensação de isolamento, dada a ausência de público e apoio, essencial para uma prova longa. Ainda assim, como ia acompanhado pela Miriam e ainda com muitos corredores perto do pacer, acabei por não sentir grande falta dessa motivação extra.

Km 10: tempo para abastecimento (que ocorreu de 5 em 5km, em perfeitas condições) e lugar também para o primeiro gel. Levei com 4 géis da Prozis de 25g, planeando tomar ao km 10, 20, 30 e 40, juntamente com o abastecimento de água. Apesar da organização disponibilizar gel e barras energéticas da Prozis em determinados abastecimentos, optei por levar os meus que testei ao longo dos meus treinos longos e com os quais me senti bem (segui a regra de testar tudo nos treinos antes da prova e dei-me bem).

Sobre os abastecimentos, tudo correu bastante bem, sem qualquer percalço. Disseram-me posteriormente à prova que houve falta o gel e barras energéticas para os últimos atletas. Se tal aconteceu, será importante garantir que tal não acontece em futuras provas. Da minha parte, tudo perfeito e nada a contestar.

A partir do km 11, começamos a distanciar-nos alguns metros do pacer, apesar de mantermos um ritmo médio perto dos 4:15, pelo que estava dentro do plano e a sensação de frescura estava lá.

Ao km 12, para minha surpresa, vemos o grande Fred que foi connosco a partir daí, ao contrário do combinado, que era encontrarmo-nos no km 18, uma vez que teve dificuldades em deslocar-se para esse ponto, devido ao condicionamento existente, que o obrigou a caminhar em direção ao local combinado. Sem problemas, estava contente por estar com estas duas máquinas, Miriam e Fred, a ajudar-me nesta prova, com o intuito de chegar aos final dos 42km.

Nesta fase começamos a ter a oportunidade de nos cruzar com os primeiros atletas da classificação da meia maratona e da maratona, dando oportunidade para dar um incentivo extra ao Helder e ao Bruno, que passaram em excelente ritmo.

Depois de chegar aos 14km, onde fazemos um retorno, concluo que estamos numa zona para a qual seguimos com o propósito de fazer kms, o que seria interessante para futuras edições tentar evitar, dado o pouco que acrescentam, embora acredite que a missão de fazer um percurso com esta logística de 4 provas em simultâneo não seja nada fácil.

Seguimos então em sentido inverso onde pude ver muitos amigos que fui tendo oportunidade de saudar. É nisto que a corrida é espetacular, vamos conhecendo imensa gente, principalmente via redes sociais que, em determinado momento, vamos encontrar em provas e lá estamos para dar um incentivo, todos sabemos o quanto gostamos de receber um grito de "força!", "vai Pedro!", "está quase!", "continua!", etc etc... portanto, sempre que ouvimos estes incentivos, é como um recarregar de baterias, um novo alento para aguentar mais um esforço, um novo estímulo para o nosso cérebro de felicidade e emoção que nos permite superar o cansaço e a dor, para chegarmos e alcançarmos o nosso objetivo.

Voltando à corrida, continuamos numa nova fase de pouco / nenhum público a apoiar, o que dura desde o km 11/12 até por volta do 18. Nesta fase, já estamos alguns metros à frente do pacer, com o ritmo a ir nos 4:14/4:15, seguindo eu, o Fred, a Miriam e mais alguns atletas bastante bem.

Entretanto, lembro-me perfeitamente de, ao km 15, ter um desconforto na faixa plantar do pé esquerdo. Sentia que estava algo mal e pensei que podia estar a gerar-se uma bolha. Foi algo que nunca tive e ao longo das 12 semanas de preparação, nos quais fiz bastante treinos longos e muitos superiores a 30km com calor, nunca foi um problema. Nesta fase era ainda um desconforto e não nem sequer comentei o assunto, porque realmente não me incomodava e queria continuar focado na prova e na boa disposição com que seguia.

Entramos na Gafanha da Nazaré com bastante público e algum tímido apoio que demora em se revelar. Vamos tentando puxar o incentivo e a Miriam acaba por conseguir estimular as gentes da sua terra, uma vez que é a primeira mulher que aparece no percurso que, nesta fase, já é exclusivo da maratona.

Perto do km 19, o Fred decide parar para ficar à minha espera no retorno, uma vez que iria fazer muitos kms caso continuasse até ao fim. Decisão ponderada e acertada de alguém que conhece e sabe gerir bem a sua forma. Assim, sigo com a Miriam e mais dois / três companheiros de jornada.

Reparo novamente como fiz durante quase toda a prova no ritmo médio por km, ritmo instantâneo, ritmo médio total e principalmente na FC. Estava tudo dentro do que eu esperava para esta fase da corrida. Essencialmente preocupei-me muito com a minha FC dado que sabia que, à medida que aumentasse cada vez mais, a minha resistência e capacidade de manter o ritmo iria baixar e ter problemas.

De realçar ainda que o nevoeiro mantinha-se ainda nesta fase, o que permitia ir com uma sensação de frescura muita boa.

Passamos à meia maratona e vejo que estou com 1h29. Excelente! Estava no ritmo certo e tudo corria pelo melhor, as sensações eram boas. Fiquei super motivado, comentei com a Miriam, que estava no tempo certo e estava bem.

A partir do km 19/20, algo mudou, esta euforia, este sentimento de confiança, levou a que o meu ritmo aumentasse e, ao invés de manter o ritmo de 4:14/4:15 com que vinha há bastantes kms, passo a rodar abaixo de 4:10. Agora, depois de analisar a minha prova e pensando "a frio", concluo que foi neste momento que perdi a hipótese de chegar ao sub3h. Posso estar errado, mas julgo que foi este o ponto chave para o desfecho da prova.

Assim, após o meu segundo gel, seguimos em bom ritmo e eu muito confiante, quando chego ao km 23, onde encontro uma boa subida, referente ao acesso à auto-estrada A25 e à ponte, em direção à zona de praias, em concreto a Barra. Eu e a Miriam íamos sozinhos e fizemos a subida sem grandes dificuldades, mantive muito bem o ritmo e segui forte. Passando a ponte, entramos na Barra novamente com muito público, embora novamente pouco participante no apoio, a não ser que a Miriam pedisse um incentivo, onde aí sim, havia uma força extra, uma vez que era a primeira mulher a passar, dando outra vida ao ânimo das pessoas que prontamente apoiavam e saudavam o esforço da grande atleta (com todo o mérito).

A Miriam diz-me que vai comigo até ao km 27. Que dizer sobre isto? Grande disponibilidade física, grande presença e apoio. Apenas tenho a agradecer a sua ajuda nestes 27km.

Passados os 27km, despedimo-nos e sigo com dois atletas a 4:10 até ao acesso à A25 e nova subida, para regressar em direção à Gafanha da Nazaré e posteriormente a Aveiro. Desta vez, a subida é feita com mais dificuldade, mas consigo manter o ritmo. Sinceramente, agora penso que não deveria ter forçado tanto o ritmo em ambas as subidas, o que me pouparia a elevação da FC e poupar-me mais para a parte final.

Chegados aos 28km, vejo novamente alguns amigos em sentido inverso, o Filipe e o Fábio e eu ia com um atleta que estava a ir em bom ritmo e me parecia uma boa companhia para os restantes kms.

Entro então na Gafanha da Nazaré, chegando aos 30km e olho para a minha FC nos 170 bpm. A partir daí sabia que ia começar a sofrer, devido ao excesso que tinha cometido com o aumento do ritmo a partir dos 20km. Adicionalmente, começo a sentir o calor, uma vez que o nevoeiro acaba de desaparecer, com o sol a pairar e sem grandes sombras. Desta vez, o indesejável vento que eu temia inicialmente, acabou por ser uma ajuda, estando pequena brisa de vento agradável que permitia suportar mais o calor.

Apesar de começar a sentir o cansaço, consegui manter o ritmo nas 4:10/4:15 até reencontrar o Fred ao km 32. Este reencontro acabou por ser muito simples e deu para perceber perfeitamente o que cada um pensou... nem eu, nem o Fred falámos... eu não disse nada porque já estava muito ofegante e o Fred percebeu isso, sendo altura de seguir em frente até inevitavelmente ser mesmo preciso falar e puxar por mim.

Nesta fase, continuava o mesmo atleta connosco, que seguia comigo desde o km 27, contudo a partir do km 35 a energia começou a acabar e fiquei eu e o Fred.

Foi nessa altura que começou a componente psicológica a trabalhar, afinal de contas o corpo estava exausto e acabara de embater na famosa "parede" dos 36km! Como muitas vezes ouvi maratonistas dizer, a partir daqui é puxar pela componente psicológica e tentar ao máximo evitar a quebra física, tentando manter um ritmo aceitável. Aí, o Fred teve um papel fundamental, foi falando comigo, dando o incentivo necessário para não parar e tentar manter o ritmo minimamente ("foi para isto que treinaste!", "os treinos a subir em Vila Real para que vão servir se parares?"). Brutal! Foi realmente uma grande ajuda ouvir aquelas palavras em momentos chave onde o ritmo caiu abruptamente e as pernas simplesmente não queriam responder.

A minha bolha no pé esquerdo estava também a incomodar-me cada vez mais, o que me estava a deixar ainda mais desconfortável com a situação, principalmente porque nunca tinha tido problemas até então, pelo que seria mais um fator de sofrimento a adicionar.

Nesta fase estamos novamente "despidos" de público e o fundamental apoio que faz a diferença, dirigindo-nos para Aveiro, junto da A25. Foram kms penosos nesse aspeto, o que claramente faz com que o percurso desta edição da Maratona da Europa, apesar de plano, tenha-se tornado difícil (no meu ponto de vista).

Assim, conjugando o cansaço, calor, "solidão" de atletas e ausência de público, estava no cenário ideal para claudicar e eventualmente parar, mas fui resistindo e com a ajuda do Fred, o ritmo entre os km 36 e 39 oscilou entre 4:27 e 4:38, o que considero ter sido excelente, apesar de tudo.

Ao longo destes kms fui começando a olhar para trás, com o intuito de perceber até que ponto poderia estar próximo p pacer das 3h00 (que tinha mudado aos 21km). Acabei por ganhar uma boa vantagem para o mesmo, provavelmente cerca de 1:00 até aos 35km. Contudo, com o meu abrandamento, perto do km 38, avistei-o e aproximava-se a passos largos para me ultrapassar, o que acabou por acontecer ao km 39.

O pacer foi espetacular, tentando puxar por mim de modo a tentar que eu fosse atrás dele para conseguir a tão ambicionada marca sub3h. Apesar do esforço e da tentativa de o acompanhar, não consegui e fiquei "colado" ao asfalto, restava-me tentar minimizar o tempo perdido e chegar o mais rápido à meta.

Uma vez mais o Fred a puxar por mim, mas o corpo já não permitia muito mais, pelo que o km 40 (5:05) e 41 (6:19) foram de "convalescência", acabei por recuperar alguma da FC principalmente no km 41 para tentar um último esforço até à meta.

Já após o km 40, o Fred lembra-me para eu tomar o último gel. Sinceramente já não me lembrava, só queria "arrastar-me" até ao final, mas lá tomei. No último abastecimento bebi água, molhei o corpo e ingeri laranja já no desespero final para que algo me desse a "vitamina" necessária para acabar a prova.

No km 41, tento acelerar e dar algum alento ao meu ritmo, o que me levou à primeira cãibra na coxa esquerda, tendo de abrandar de novo o ritmo, ficando desiludido pelo sucedido, o que implicava correr ao ritmo de "cruzeiro" dos últimos kms.

Nesta fase, kms 39, 40 e 41, chegados a Aveiro, julgava que estaria já "rodeado" de público e a sentir um incentivo tão importante nesta fase crítica da corrida, contudo não foi o que se sucedeu (pelo menos foi a minha perspetiva e que defraudou a minha expectativa, que pode ser diferente de outros atletas...).

Km 41,5, era momento de dar tudo o que ainda tinha e chegar o mais rápido possível à meta e foi o que fiz, dei tudo o que tinha, sendo que não seria suficiente para fechar abaixo das 3h00, mas ainda assim fui olhando o relógio para saber o tempo que tinha, tendo visto as 03:00:00 a passar, ainda com a meta distante.

Num esforço brutal e na companhia do grande Fred que foi comigo sempre a apoiar-me, chego à zona onde deixei de ouvir os meus passos, a minha elevada respiração e passei a ouvir um ruidoso e caloroso apoio da multidão que "se guardou" para os últimos 600/700m e nos deu uma força incrível para chegar à meta com tudo o que tínhamos para dar.

Assim, a meta quase, quase a aparecer, mas parecia que nunca mais a avistava, o ruído aumentava ainda mais e eu já só queria ver os últimos metros, só queria ver o placard do tempo e a linha que eu tinha de atravessar.

Finalmente o km 42! Lá estava eu, num sprint alucinante, sem grande consciência do que se passava, o ruído empurrava-me para a frente e a poucos metros de chegar, tenho o último apoio da grande Cheila, sempre com a sua energia e dinâmica!

Mas a meta... era onde eu queria chegar o mais rápido possível e assim foi, foco e determinação para finalmente chegar ao final e tornar-me MARATONISTA!

Passada a meta, tive ainda oportunidade de ver a Lili a gritar por mim, adorei! Mas o corpo estava exausto e não consegui sequer ir até ela. Depois de alguns passos, o corpo estava o caos e queria parar e sentar-me, mas não era aconselhado. Alguém da organização me ajudou e foi-me perguntando seu eu estava bem. Sentia-me tonto e a cambalear, demorando alguns minutos até me sentir minimamente em condições de andar e falar. Foi claramente uma situação complicada, tinha levado o corpo ao limite, o que me fez recordar o final da meia maratona de Lisboa, em Março, onde tive exatamente a mesma sensação, embora durante menos tempo. Claramente será algo que terei de analisar nos próximos tempos, fazer exames, nutrição desportiva, o que seja para que possa perceber a razão para este comportamento, que me parece anormal e extra cansaço ou talvez não seja...

Os minutos seguintes foram de alegria, trocar impressões com os amigos que já tinham acabado, falar sobre o que se passou com a Lili e perceber o como estavam os amigos que já acabaram.

Para finalizar e fazendo um balanço de toda esta aventura, acabei por me tornar maratonista na Maratona da Europa, em Aveiro, com um tempo de 03:02:42, obtendo um 60 lugar da classificação geral e 13 lugar de seniores masculinos, o que acaba por ser um excelente tempo. Apesar de não ter conseguido fazer o tempo ambicionado abaixo das 3h00, fiquei muito contente com o que obtive. Foram muitas horas dedicadas ao treino (5 treinos de corrida e 1 ou 2 de ginásio por semana), alimentação (não como doces há meses) e descanso (dormir o máximo possível). Este esforço dos últimos três meses implicou principalmente aos domingos muito tempo de ausência e o respetivo descanso, o que afeta a vida pessoal. De referir igualmente o facto de ter sido a terceira vez que treinei para esta distância, tendo nas duas primeiras saído lesionado a meio do plano de treinos, o que pode desmotivar qualquer um. Mas foram essas experiências que também me permitiram perceber como devo treinar com mais qualidade, respeitar e ouvir o meu corpo, assim como me levou a aprender ainda mais sobre métodos de treino. Nem tudo foi perfeito nesta preparação e cometi erros, alguns de amador, mas cometi, sendo com esses que aprendi e continuo a aprender.

Nesta prova, no dia D, pude contar com a ajuda e apoio de amigos que me acompanharam, tanto ao longo dos últimos três meses como no decorrer da prova, tendo sido fundamental, para a exigência duma distância destas, onde não conseguimos controlar todas as sensações e reações que vamos tendo ao longo de 42km.

No final, quase tudo correu bem e consegui sair muito contente da Maratona da Europa, sobre a qual deixo uma palavra: ficará marcada na memória considerando ter sido a minha primeira Maratona, na sua primeira edição, a tarefa não era fácil... a organização teve uma abordagem muito próxima desde o momento 0, tentando ao máximo agradar e responder da melhor forma a todas as vontades de um "povo" muito exigente e que, ao primeiro de sinal de ausência de reposta, criticava tudo. Por isso e por todo o esforço e acima de tudo pelo sucesso alcançado, estão de parabéns, uma vez que esta prova marcou seguramente centenas de pessoas e principalmente, marcou aqueles que se estrearam na distância máxima e exigente de 42km. Mesmo não tendo corrido tudo na perfeição, estou grato por tudo e também por toda a simpatia das gentes de Aveiro que bem nos receberam.

Obrigado Maratona da Europa, graças a vocês no dia 28 de Abril de 2019, sou MARATONISTA!

Participou na Maratona da Europa? Conte-nos como foi a sua experiência através do email: recordptrunning@gmail.com

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