Markelle Taylor: Da prisão à Maratona de Boston

Centro prisional de San Quentin, na Califórnia, acolhe anualmente uma corrida pouco habitual

Autor: Fábio Lima

Manhã de 11 de janeiro, San Quentin, Califórnia. Uma sexta-feira como tantas outras em grande parte do planeta, mas um momento muito especial numa das prisões mais temidas dos Estados Unidos. San Quentin é a ‘casa’ dos criminosos mais perigosos do país, desde assassinos a violadores, mas é também palco de uma das maratonas mais peculiares e exclusivas do planeta. O cenário não é o mais desejado pelo comum dos mortais, mas deixa bem patente a vertente inclusiva que o desporto pode ter na vida das pessoas e no seu futuro. Mesmo naquelas que, por vezes, a sociedade dá por perdidas.

E é aqui que entra a história de Markelle Taylor, de 46 anos, detido em 2001 por ter agredido a sua namorada e ter provocado o aborto da filha de ambos. Condenado a 15 anos de prisão em 2004, encontrou em San Quentin uma paixão, que em abril o poderá levar à zona de partida mais desejada pelos maratonistas: a Maratona de Boston.

A possibilidade (ainda) não passa disso mesmo, mas os seus feitos no interior da prisão, nomeadamente na maratona anual, colocam-no nesse caminho. E não se pense que esta possibilidade surge por compaixão ou algo do género. É que Markelle corre... e muito! Tanto que os seus tempos já lhe valeram a alcunha de "Gazela de San Quentin". Por algo será...

Um registo voador

Mesmo num ambiente nada propício a grandes registos, sem muitas das benesses que os corredores do ‘mundo cá fora’ têm (massagens, mil e um suplementos ou até uma alimentação cuidada e voltada para o atleta), Markelle trabalha arduamente para ser melhor corredor a cada dia que passa e este ano tirou mais de cinco minutos ao seu tempo de 2018, fazendo o percurso numas muito respeitáveis 3:10 horas. Um registo que num traçado homologado o colocava certamente à partida em abril.

O problema é que o percurso de San Quentin está longe de ser homologado. Afinal de contas são 105 voltas à prisão, num pavimento por vezes enlameado e nada regular. Ainda assim, nem isso tira a possibilidade de, durante três, quatro ou cinco horas, os corredores terem um sentimento de liberdade a que poucas vezes têm acesso. Ali, naquele momento, não há contagens para regressar às celas, não há confusões no pátio. Pelo menos não para os 29 corredores que este ano se colocaram à partida.

Acabaram 23 (recorde da prova) e muito do crédito terá de ser atribuído a Frank Ruona, um veterano de guerra que decidiu que a melhor forma de passar a reforma era ir à prisão treinar um grupo de presos na sua busca por uma nova chance na vida. Com curso da associação norte-americana de treinadores, Ruona lidera o ‘1.000 Mile Club’ e sabe bem aquilo que os seus pupilos estão a tentar alcançar, já que tem nas pernas 78 maratonas e 38 ultramaratonas. Um exemplo que inspira estes corredores, tanto pela sua história como por aquilo que sabe sobre corrida.

Mundialmente conhecida

Para lá de ser palco desta maratona, San Quentin é também uma referência no que a prisões diz respeito, tendo aparecido inúmeras vezes mencionada em filmes, séries ou músicas. O videoclipe de San Anger, dos Metallica, foi ali gravado, por exemplo. De resto, refira-se que a história desta Maratona de San Quentin irá mesmo ser retratada no cinema, através do filme 26.2 to life, que deverá ser lançado durante o ano de 2019.

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Por Fábio Lima
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