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Dia 10: A melhor forma de conhecer Iten a correr

Uma das coisas que mais me surpreendeu em Iten foi a incrível sensação de segurança que tenho desde que cheguei. Não tenho qualquer problema em passear sozinho na rua e pelo que vou vendo nem mesmo para as senhoras isso é algo problemático. As gentes são incrivelmente afáveis e fazem de tudo para que nos sintamos sempre em casa. Provavelmente nos primeiros dias até podemos achar que são demasiado 'intromeditos', mas a verdade é que esta a sua forma de ser. Gostam de ser (exageradamente) simpáticos e acolhedores, na esperança de que os estrangeiros lhes possam dar uns shillings (a moeda local) em troco da sua simpatia. É mesmo assim, porque este povo, infelizmente, é incrivelmente pobre... Essa é parte da experiência de estar no Quénia e, passado o primeiro impacto, acabamos por nos adaptarmos e perceber que é algo normal.

Outra parte da experiência queniana, pelo menos no que à corrida diz respeito, é correr com atletas locais. No caso, em Iten é habitual os corredores locais oferecerem os seus serviços de pacer aos estrangeiros (algo que já vos tinha falado no texto de quinta-feira). Muitas vezes temos a sorte de nos encontrarmos com atletas com marcas bastante boas, mas o simples facto de podermos conhecer os cantos e recantos de Iten com as indicações de quem por cá corre já é algo incrível. Como de incrível é ir conhecendo as mil e umas histórias que eles têm para contar. Perceber as suas dificuldades de vida, como conseguem encaixar a corrida nas suas vidas ou simplesmente por que correm.

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E mesmo que nem todos consigamos encontrar antigos campeões, raros são os atletas quenianos que por aqui têm marcas modestas. Veja-se o caso dos dois pacers que tenho utilizado, gentilmente cedidos pelo meu amigo Pedro Queirós (que está cá pela terceira vez): um deles tem um melhor tempo de meia maratona de 62 minutos. O outro foi pacer de uma das maiores campeãs da maratonas do país. Todos correm imenso, mas precisam de encontrar uma forma de ganhar a vida de outra forma. Por isso é que cedem os seus serviços de pacer a estrangeiros. Normalmente, cada treino rende-lhes cerca de 500 shillings (é um preço comum por aqui), qualquer coisa como 3,7€. Uns 'trocados' para um europeu, mas dinheiro que faz muita diferença na hora de colocar comida na mesa para estes atletas.

Para eles, estes treinos com estrangeiiros são por vezes apenas um aquecimento para os verdadeiros treinos que terão depois. Veja-se o caso do Johnstone, um dos pacers que na quinta-feira me veio acompanhar. Fez 13 quilómetros comigo, poucos minutos depois acompanhou uma corredora argentina num fartlek e, depois disso, ainda acabou por correr mais 15 quilómetros a um ritmo de 3'30/km. No total, na quinta-feira terá feito quase 40 quilómetros. Isto para depois ganhar a vida de uma outra forma: como taxista numa das centenas de motos que todos os dias inundam as ruas de Iten (o chamado mototaxi). Pode ser cansativo, acredito que seja, mas também creio que o facto de ser algo que gostam de fazer acaba por compensar todos os sacrifícios. Nem todos vão conseguir ser super estrelas, mas pelo menos conseguem fazer alguns 'trocados' com aquilo que, provavelmente, é a única coisa que os preenche por completo - e também aquilo que lhes rende esperanças numa vida melhor.

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Se no futuro cá vierem viver a experiência, não será difícil encontrar um corredor para se juntar a vocês a troco dos tais 500 shillings por dia. Basta falarem um pouco com as gentes locais que rapidamente perceberão que em cada canto há alguém disposto a ajudar-vos em troco de uma pequena contribuição. E acreditem que esses quase 4 euros diários serão pagos em dobro com aquilo que levarão como ensinamentos para o futuro.

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Por Fábio Lima
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