Estar em Iten é uma oportunidade de ouro para sentir o ar que respiram os campeões, pisar as mesmas estradas que eles pisam ou simplesmente cruzarmo-nos com eles durante os nossos treinos. Já perdi a conta aos grandes atletas locais com quem me cruzei durante as minhas corridas matinais. Alguns deles, com uma simpatia e humildade incrível, até esboçam um sinal de cumprimento. São pessoas humildes, para quem a presença de um 'muzungu' (é o termo pelo qual são tratadas as pessoas brancas) nestas paragens é um sinal de esperança. De esperança de que Iten (e o Quénia) se continue a desenvolver e que a pobreza instalada seja de certa forma diminuida. Mas também a esperança para conseguir um futuro melhor para si mesmos, caso do outro lado esteja algum agente ou um jornalista como eu. Mas por mais que haja essa vontade de colher algum benefício, não duvido minimamente da forma genuína como nos tratam. São mesmo pessoas diferentes. A sua alegria, mesmo com tantas dificuldades que enfrentam, é contagiante, quase comovente.
Estar em Iten permite-nos também interagir com atletas com os quais, noutras situações, não seria possível. Normalmente, quando viajam para a Europa, por mais que tenham vontade de melhorar as suas vidas através dos contactos que vão fazendo, os africanos são muito mais fechados. Sente-se a timidez no ar. O facto de estarem fora do seu ambiente natural, mas também por estarem perto de um momento de tensão como uma prova, acaba por justificar essa postura fechada. Mas aqui, estando em casa, é muito fácil tirar-lhes umas palavras e falar durante um bom bocado. O facto de dizer que sou jornalista acaba por ajudar, porque praticamente todos eles anseiam por oportunidades na Europa, mas às vezes nem é preciso usar esse 'trunfo'.
Além dos atletas locais, estar em Iten permitem também encontrar e trocar impressões com alguns europeus de enorme valia que por cá estão. Nienke Brinkman, Konstanze Klosterhalfen, Tadesse Abraham, Sondre Nordstad Moen ou Julien Wanders são alguns dos grandes nomes que por cá estão nesta altura do ano. Estando tão longe de casa, muitos deles até agradecem quando algum europeu aparece por perto para dois dedos de conversa. Foi isso que hoje percebi quando fui visitar o Kerio View, um dos pontos mais belos de Iten. A paisagem é de cortar a respiração e permite desligar um pouco o chip dos treinos e simplesmente desfrutar.
Foi por lá que me encontrei com o norueguês Sondre Nordstad Moen. Abordei-o, disse-lhe quem era e, num ápice, estávamos a conversar como se fôssemos conhecidos já há algum tempo. Antigo recordista europeu da maratona (teve esse registo durante dez meses, mercê das 2:05.48 horas que fez em Fukuoka), Moen está cá num estágio de quatro semanas para preparar a sua próxima maratona. Quando lhe disse que já a tinha feito, ele questionou-me sobre a minha opinião da mesma, se achava uma prova rápida e até me pediu opinião quando a uma eventual estratégia de prova. Foi curioso e mostra que estes super atletas - Moen é neste momento o detentor da sexta melhor marca da história de um europeu - dão valor à opinião dos amadores e até os valorizam.
Falámos de Portugal, da Noruega, do atletismo, de sapatilhas, de Iten, do Quénia. Foi praticamente uma hora em conversa com um dos melhores atletas europeus de sempre na maratona. Sem ter de marcar nada, sem ter de passar por mil e um filtros. Não gravei nada. Não era esse propósito. Foi uma conversa de adepto do atletismo com uma referência da modalidade. Era tão bom que fosse possível fazermos isto mais vezes... A conversa foi tão boa, tão enriquecedora, que o tempo passou e acabei por ter de trocar todos os meus planos para o resto do dia. Tinha previsto fazer uma pequena sessão de ginásio, para complementar a corrida matinal, mas acabei por não conseguir. Foi por uma boa causa!
Amanhã é um novo dia e, ao penúltimo por aqui, vou fazer algo que esperava há muito. Ver e treinar no Estádio Kipchoge Keino. Um estádio que homenageia aquele que foi, diria, o primeiro grande atleta queniano e que todos os dias é utilizado por larguíssimas centenas de atletas nos seus treinos. Amadores, como eu, e profissionais. Ali todos se misturam, sem qualquer problema. Tem apenas de haver respeito mútuo.
Era também um estádio bastante frequentado pelo próprio Eliud Kipchoge, mas essa mesma falta de respeito - o recordista da maratona era muitas vezes abordado por amadores durante os seus treinos -, fez com que o GOAT decidisse mudar o palco dos seus treinos de séries para algo mais tranquilo. É uma pena, porque assim não o poderei ver em ação, mas entendo perfeitamente. É o preço a pagar pelo sucesso e a fama, mas de corredor para corredor... o treino é sagrado e tem de ser respeitado!
Por Fábio Lima