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Dia 13: a mítica pista do Estádio Kipchoge Keino

O dia 13 não foi propriamente de sorte para os meus lados, mas a verdade é que me deu também uma das melhores experiência que levarei do Quénia. Tal como na semana passada, a terça-feira foi dia de pista e deu-me a oportunidade de ver ao vivo os treinos de enormes nomes do atletismo mundial. Mas ao contrário do sucedido na passada terça-feira, quando apenas tive a chance de ver o treino e não partilhei a pista com eles - pelo menos não num treino -, desta vez tive a enormíssima honra de treinar no mesmo tartan e fazer o meu treino enquanto eles também treinavam. Ainda para mais na mítica pista do Estádio Kipchoge Keino!

Dia 13: a mítica pista do Estádio Kipchoge Keino
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Foi uma daquelas sensações absolutamente incríveis. Dezenas e dezenas de atletas estavam na pista já a treinar quando cheguei. Fiz o meu aquecimento, ativei um pouco e comecei o meu treino. Tinha 8x400 num ritmo relativamente confortável, mas ver aquelas máquinas a correr deixou-me um pouco nervoso e a pensar "estou aqui, não posso correr tão lento assim, caso contrário ainda sou atropelado por este comboio". É que era mesmo um comboio. Não um... eram dois ou três! A uma velocidade impressionante, quase como se nada fosse. Iria certamente em ritmos abaixo de 3'/km e era como se nada fosse.

Dia 13: a mítica pista do Estádio Kipchoge Keino
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Por isso, na minha primeira série, num misto de entusiasmo com medo genuíno de atrapalhá-los, dei por mim a fazer uma das repetições mais rápidas de sempre. Em altitude! Acabei, olhei para o relógio e quase nem acreditava. Mas aquela sensação de estar a correr e sentir as gazelas aproximarem-se, quase como se viesse um leão (ou muitos) no meu encalço... eu só queria correr rápido e não atrapalhar! Acabei e estava bem, mas sabia que tinha ido demasiado rápido. Por isso, nas seguintes, meio a medo, decidi tentar encaixar o meu pace, na esperança de não ser atropelado por aquele incrível comboio que se aproximava, muitas vezes com uns 15 corredores seguidinhos num ritmo surreal.

E a verdade é que, mesmo em curva, todos eles me passaram sem problema, sem protestar, nem com qualquer mania de superioridade por terem ali um amador na mesma pista que eles. Dali em diante fiquei com mais tranquilo e até dei por mim a desfrutar do momento em que, como se nada fosse, dezenas de atletas passavam por mim a todo o gás. No grupo estavam atletas com marcas incríveis, vários campeões e, em especial, um daqueles corredores que aprendi a admirar nos últimos tempos. O norte-americano Paul Chelimo. Para mim, vê-lo em vídeos, na sua forma poética de correr, com uma postura absolutamente perfeita, já era mágico. Agora imaginem quando percebi que ele estava na mesma pista!

Dia 13: a mítica pista do Estádio Kipchoge Keino
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Os parciais seguintes foram bem mais controlados - mas sempre bem mais rápido do que queria. Acho que a emoção do momento me atraiçoou, tal como a inexperiência de fazer um treino em altitude com tanta gente de enormíssima qualidade por perto. Provavelmente, numa próxima oportunidade saberei controlar-me e encaixarei os meus parciais sem exageros. Erros de principiante, eu sei...

Quando acabei as séries segui para o arrefecimento e, após isso, foi hora de aproveitar para absorver o momento e registá-lo. Tirei do telemóvel e comecei a fazer fotos e vídeos. Quando o Paul Chelimo passou por mim, foi como ver poesia. Poesia em movimento. Para quem gosta de correr e admira estes incríveis atletas, ver alguém com uma postura de corrida tão limpa, tão perfeita, é mesmo algo que aprendemos a valorizar.

Como também valorizo todos os outros atletas que ali estavam ali a treinar, a dar tudo de si. Muitos deles, depois do treino, abordaram-me porque só queriam ter algumas fotos e vídeos do seu treino e queriam saber se os tinha apanhado. Um dos que mais me chamou a atenção foi o etíope Nageso Nyafaro, um atleta que se encontra refugiado no Quénia e tem o sonho de ir aos Jogos de Los Angeles. Mal acabou o treino abordou-me e ficamos a falar um pouco. É por estes momentos que vale a pena vir ao Quénia. Trocar impressões com atletas incríveis, com uma humildade impressionante e ficar a saber tanto, aprender tanto...

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O dia começou de forma perfeita, mas a verdade é que depois acabou menos positivo. Talvez pelo excesso no ritmo de domingo e nas séries de hoje, umas duas horas depois comecei a sentir uma ligeira dor na zona do glúteo. Sempre tive uma fraqueza naquela zona, mas não tinha dores há mais de dois anos. Quando a senti fiquei em pânico. Rapidamente procurei saber se o Amos (o massagista de que vos falei na sexta-feira) tinha vaga ainda para hoje. Ele conseguiu encontrar um pequeno espaço na agenda e, mesmo que com algumas dores, tranquilizou-me e disse-me que não era nada de muito grave. Amanhã farei mais um tratamento antes de voltar. Mas correr novamente no Quénia... só no próximo ano!

Dia 13: a mítica pista do Estádio Kipchoge Keino

Hoje foi o último dia em que corri por aqui. Não foi o final que desejava dos meus treinos por cá - queria correr uma vez mais amanhã -, mas a verdade é que provavelmente não podia desejar melhor forma para cumprir o último treino. Partilhar o tartan com as estrelas, o tartan de um palco mítico como o Estádio Kipchoge Keino... É fechar com chave de ouro! Amanhã é dia de regressar a Portugal, com a bagagem repleta de memórias e, acima de tudo, muitos ensinamentos.

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Por Fábio Lima
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