Há muito que o mundo do atletismo é dominado por atletas africanos, provenientes na sua maioria de países como Quénia, Etiópia e, mais recentemente, o Uganda. Em comum têm o facto de estarem na mesma região de África, mas há muito mais que pode justificar o facto de, na larguíssima maioria das maratonas e provas internacionais, o nome do vencedor ser originário desses três países.
A justificação, dizem muitos, está na genética. Pode ser verdade, mas diria que é apenas um pequeníssima parte da história. Tanto quenianos, etíopes como ugandeses têm de jogar muito mais para conseguir atingir esse sucesso e é mesmo isso que, durante as próximas duas semanas vou tentar perceber ao longo de uma das aventuras que mais me entusiasma desde que sou jornalista. Viver como os quenianos. Comer, treinar e dormir como eles, Ver como eles são enquanto pessoas. Sentir as suas dificuldades. Aprender. E tentar, quando sair daqui, ter uma ideia ainda mais clara do que faz destes homens (e mulheres) uns devoradores de quilómetros a velocidades surreais. E provavelmente sair também com a sensação de que as queixas que tenho no dia a dia, comparadas com isto, são... 'peanuts'.
No Quénia o destino mais comum para este tipo de aventuras é Iten, a conhecida terra dos campeões. Há até um enorme portal a anunciar isso mesmo. Mas por questões logísticas, para estar mais perto do grupo de atletas que vou acompanhar, decidi vir para Kaptagat, onde curiosamente treina praticamente de forma diária aquele é apelidado por muitos como o GOAT da maratona: Eliud Kipchoge. Ainda não o vi, mas quando vir prometo que vou tirar uma foto para aqui mostrar.
Uma maratona antes de começar
Chegar ao Quénia não é fácil. Não há voos diretos e as viagens conseguem ser mesmo bastante longas. No meu caso, por conta de uma pequena confusão na marcação dos voos, acabei por demorar ainda mais - foram seis horas a mais! Conclusão: saí de Portugal às 11:30 de dia 1 e cheguei a Eldoret, ao aeroporto mais próximo de Kaptagat, às 13:30 locais (10:30 horas em Lisboa). Contas feitas, foram 23 horas para chegar aqui. De Lisboa a Istambul, de Istambul a Nairobi, de Nairobi até Eldoret e, depois, de carro até Kaptagat. Uma longuíssima jornada, para chegar ao palco de uma experiência que tem tudo para ser inesquecível.
O primeiro dia não deu para muito. O facto de ter chegado já para lá do meio dia, e bastante cansado, condicionou um pouco os planos, mas sempre deu para tratar de comprar certas coisas necessárias para ter no quarto e para o dia a dia: como sabão para lavar a roupa à mão (aqui não há serviços de lavandaria. Era bom...) ou uma dose industrial de garrafas de água, visto que beber da torneira é algo proibido. E houve também espaço para sentir um pouco da hospitalidade queniana. O facto de verem um estrangeiro desperta uma enorme curiosidade sempre que passam por nós, dos mais novos aos mais velhos. Perguntam de onde sou, o que estou ali a fazer... E sempre de sorriso no rosto. Grande parte deles fala inglês e isso ajuda bastante a comunicação. Caso contrário... só por gestos!
E, claro, não podia ter fechado o primeiro dia sem provar algo tipicamente queniano. Primeiro o chá, ao qual os locais adicionam generosas doses de açúcar. Em especial os corredores, que numa chavena são capazes de colocar três colheres de açúcar. Eu coloquei uma e já me bastou, mas talvez tenha de aumentar a dose para poder correr como eles. Depois o ugali. Este era obrigatório. Trata-se de uma espécie de farinha, muito consistente, que é a alimentação diária dos atletas quenianos. É comum, quando fazem provas na Europa, certificarem-se que têm utensílios e espaço para fazê-lo, o que demonstra bem a ligação e quase necessidade que têm a esta iguaria. Eu fechei precisamente o meu dia a experimentá-la e a apreciá-la. Não é má, diria...
Amanhã é um novo dia. O primeiro de treino, que começará logo bem cedo, pelas 6 da manhã.