O Quénia é definitivamente um país especial no que ao atletismo diz respeito. Se um dia cá vierem não se admirem (nem achem que é 'tanga') se alguém vos disser - um taxista, uma empregada de limpeza ou um dono de um qualquer café - que fez, por exemplo, uma meia maratona em 60 minutos baixos ou que competiram internacionalmente pelo Quénia. Porque aqui é mesmo assim. Há atletas com marcas extraordinárias no passado (e até mesmo no presente) que têm de encontrar um outro caminho para sustentar a sua vida - porque, ao contrário do que se possa pensar, no atletismo queniano nem tudo são rosas, especialmente no pós-carreira, onde muitos acabam sem nada para viver.
Foi um pouco isso que percebi neste terceiro dia por terras quenianas. A caminho para Eldoret, onde fui assistir ao único corta-mato internacional do país, o taxista que me levou era também corredor e tem como sonho chegar a correr ao mais alto nível. Em part-time, a correr poucas vezes por semana, conciliando o trabalho com a paixão da corrida, diz ter feito 62' numa meia maratona realizada na Índia (confirmei o tempo e era mesmo verdade). O tempo, os 62', por estas bandas são vistos como algo quase amador, mas isto serve para mostrar que todos têm o sonho e procuram alcançá-lo a todo o custo. E, para o conseguir, estava ali a tentar ganhar a vida de outra forma, mas também para amealhar dinheiro para se inscrever em provas que quer fazer futuramente para conseguir dar o salto.
É nessas provas que, essencialmente, vão tentar impressionar os agentes que por lá andam, sempre de olho no próximo Eliud Kipchoge ou a próxima Brigid Kosgei. Não é um mundo fácil, porque o aproveitamento por parte de alguns desses 'agentes' acaba por, de certa forma, tirar o romantismo e beleza a algo tão belo como a superação destes humildes e incríveis atletas. É claro que há casos de sucesso e são esses que devemos destacar, como o trabalho da NN Running Team ou da Rosa & Associati.
«Portugal? Já lá estive a competir...»
Neste terceiro dia tive também um contacto de certa forma inesperado e que confirma aquilo que disse acima - há campeões em todo o lado. Enquanto assistia ao Sirikwa Classic XC (já falarei desta brutalidade de prova...), dou por mim a falar com um senhor nos seus 50 anos sobre corrida. Quando lhe digo que sou português, desta vez a conversa não foi para Cristiano Ronaldo. "Já lá estive a competir", disse-me ele. Fiquei a pensar que podia ser 'tanga', mas lá tentei saber o seu nome. Ele apresentou-se e rapidamente percebi que era tudo verdade. Luke Kipkosgei, um antigo atleta internacional queniano, agora com 47 anos, que nos seus tempos de atleta foi medalha de bronze nuns Mundiais de pista coberta e também prata nuns Mundiais de corta-mato. Esteve em Portugal em várias ocasiões e o melhor tempo que tem nos 10 quilómetros foi mesmo feito em Lisboa (28.32 em janeiro de 2003)!
Quando percebi que era mesmo verdade, rapidamente tentei perceber junto dele qual era, na sua opinião, o segredo para o sucesso dos quenianos. "Genética não tem nada a ver com isso", atirou. Nascerem e crescerem em altitude, assume, é parte da resposta, mas há algo que na opinião de Luke faz também a diferença. "Desde crianças vão para a escola a correr. Por vezes mais de 10 quilómetros para cada lado". Um hábito que ganham desde cedo e que acaba por moldá-lo ao movimento natural da corrida. A alimentação, vinda da terra, com alimentos naturais e altamente nutritivos, também faz parte da receita do êxito. E depois o espírito de grupo e as condições do terreno. Tudo conjugado, a fórmula do sucesso está mais ou menos encontrada.
Uma fórmula utilizada por todos aqueles que vi nesta tarde em Eldoret, no tal Sirikwa Classic XC, a única competição internacional de corta-mato na região, que reúne alguns dos melhores do país, mas também europeus que por esta altura estão por cá a estagiar - escusado será dizer que todos eles ficaram bem para trás.
Mal o tiro de partida foi dado, foi a loucura, um regalo para os olhos. Como também foi impressionante ver o mar de gente que se juntou para ver os atletas. O atletismo aqui é mesmo o desporto rei. É um desporto de paixões, mas também de sonhos. Sonhos que podem sair de um qualquer canto do país, mas que surgem essencialmente nesta região do Rift Valley, que será provavelmente a maior incubadora de talento no atletismo do Mundo.
E, claro, os vencedores era todos das redondezas. E se tivesse destacar alguém, teria de ir para Faith Kipyegon, campeã mundial e bicampeã olímpica em título dos 1500 metros. Vê-la correr, ver a superioridade que demonstrou sobre as demais diz-me duas coisas: é um talento fora de série e, claro, está numa forma fantástica. Só ter a chance de vê-la correr, de vê-la dominar como dominou, como se costuma dizer... já valeu o bilhete!
Se nas senhoras o que me impressionou foi a forma com que Kipyegon destroçou a concorrência - e também aquela passada quase poética -, nos homens o mais incrível foi mesmo o andamento destas verdadeiras gazelas. O início de prova foi assombroso. Mais de meia centena de atletas a saírem do bloco de partida que nem loucos e uma poeirada monumental a ficar para trás. O nível era elevadíssimo e a discussão foi até final, num ritmo próximo de 3'/km (tempo final de 30.14)... mesmo com sobe e desce e com quase 30º C! Uma barbaridade!
Ah! E o meu treino de hoje? Não foi nenhuma loucura ou barbaridade, mas foi melhor do que estava à espera. 3x3000 no sobe e desce queniano, com parciais controlados e sempre a sentir-me bem fisicamente. Veremos se é para manter, porque, dizem por cá, uma reentrada nos treinos demasiado rápida costuma passar fatura uns dias depois. Espero que não, espero que não...
Amanhã há corrida longa. Agora é hora de encher o depósito com aquilo que por aqui viram ontem: ugali, chapati e verduras. Parece aborrecido, mas acho que repetia isto todos os dias por cá. Até porque parece estar a dar-me a energia necessária para render nos treinos...
Por Fábio Lima