Ao segundo dia, a primeira corrida e logo com uma experiência para guardar para a vida. Correr no Quénia só de si é especial. Pisar aquele barro vermelho, que tantas fotos incríveis já vimos por aí, sentir aquela terra que nos deixa as sapatilhas sujas como nunca estiveram, enfrentar o incrível sobe e desce deste cantinho de África, respirar o ar puro que é correr no meio de uma floresta onde raras são as vezes em que passam carros. Mas também ter a chance de passar por largas de dezenas de corredores, alguns deles com a simpatia de dizer um olá. Uma experiência para a vida!
Mas hoje para começar foi ainda especial. Na véspera o treinador do training camp Rosa & Associati, um antigo atleta de seu nome Nicholas Koech - de uma disponibilidade extrema para ajudar em tudo! -, convidou-me para os acompanhar na 'easy run'. Uma corrida lenta (para eles) que servia essencialmente para recuperar do treino do dia anterior e, também, preparar o próximo. Ainda duvidei, mas aceitei o desafio. Era o primeiro treino em altitude e ainda me metia num 31... Perguntei o ritmo e disseram-me que ia ser em torno de 5'/km. Era demasiado rápido para o que queria nesta fase, mas lembrei-me que este ritmo seria apenas para os de topo e as mulheres, por exemplo, fariam ritmos mais baixos.
Quando saí para o ponto de encontro ainda era noite cerrada. Cerradíssima. Eram seis da manhã. Não se via nada. Mas ouvia-se. Os passos, as conversas de outros corredores que se iam juntar ao mesmo grupo que nesta manhã ia para uma corrida. Um deles, vendo que não era uma presença habitual, abordou-me. Disse-lhe quem era e que era de Portugal. A resposta do outro lado já se fazia adivinhar: "a terra do Cristiano Ronaldo!" E aí quebrámos o gelo e falámos um pouco. Até que chegou a hora de começar o treino.
Nos primeiros dois quilómetros ia tranquilo e ainda bem junto do grupo, que era composto por uns 20 corredores. A pouco e pouco foi-se partindo e, naturalmente, fui ficando para trás. Até que me vi apenas com outros dois corredores. A Abby e o Edwin. Não sei se foi propositado (perguntei e não negaram, disseram apenas que não havia problema) mas dali em diante fomos juntos. A Abby acabaria por ficar para trás por volta dos 10 quilómetros - creio que terá feito um atalho para voltar mais rápido ao training camp - e eu segui até final com o Edwin.
Tinha feito 30 quilómetros no dia anterior, a um ritmo verdadeiramente de loucos, especialmente neste tipo de terreno. 30 quilómetros em 1:30, um ritmo de 3'/km. Uma loucura! E esta manhã, com uma simpatia e disponibilidade extrema, veio comigo, sem que lhe tenha pedido o que quer que fosse. Fomos conversando enquanto corríamos e, lá está, quando disse que era de Portugal... "Cristiano Ronaldo!". Disse-me que no ano passado tinha previsto ir à Maratona do Porto como 'pacer', mas um problema de vistos impediu-o de viajar. Ia ser a sua primeira viagem para a Europa. Depois de falar comigo acredito que tenha ficado com muitas razões para querer efetivamente visitar o nosso país.
Com tudo isto, com conversas sobre corrida, os nossos países e as suas gentes, os quilómetros foram passando e, quase sem dar por isso, o relógio chegou aos 18 quilómetros. 1h38 o tempo final. Para quem se estava a estrear nos treinos em altitude, provavelmente foi demasiado, mas há oportunidades que são para aproveitar. E vir ao Quénia e ter esta chance de correr ao lado de um corredor local era algo que não podia mesmo desperdiçar. Na próxima semana, correndo tudo bem, lá estarei de novo. Dessa vez, espero eu, um bocadinho mais rápido.
E sabem qual é um dos segredos para essa rapidez? Há muitos fatores, mas acredito que a comida seja parte dele. Hoje, depois de ter provado o ugali, decidi experimentar também o chapati e, digo-vos, estou capaz de comer aquilo todos os dias! É uma espécie de tortilha, mas com um sabor diferente, mesmo saboroso. A acompanhar isso mais uma dose de ugali (também é capaz de ser para repetir todos os dias) e também uns legumes. Tudo natural, para manter o corpo saudável e pronto para o dia de amanhã.