Dia 11: a tradicional e obrigatória 'long run' na Moiben Road

Jornalista Record está no Quénia a treinar junto dos atletas locais e partilha a sua experiência

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Moiben Road. Quem corre e está um pouco por dentro da realidade do atletismo queniano certamente já terá visto e ouvido falar desta estrada junto a Iten. É uma das rotas de treinos mais conhecidas do Mundo e quase como um ponto sagrado para quem gosta de atletismo. Não é uma estrada com um grande ponto para ver, um monumento ou o que seja, mas a beleza das paisagens é absolutamente desconcertante. E depois há o espaço sentimental, simbólico... É como se fosse a Meca do atletismo.

Moiben possui simplesmente uma mística diferente por ser ali que praticamente todos os grandes corredores fazem as suas corridas longas. A escolha prende-se com múltiplos factores, mas o principal é mesmo o facto de esta ser, muito provavelmente, a estrada longa mais plana que temos por estas bandas e também a que está em melhores condições - foi pavimentada em 2019 e, por isso, está ainda num estado impecável.

Isso permite fazer treinos longos com ritmo constante, sem ter de compensar por conta das mil e uma subidas que encontramos noutros pontos (como em Iten, por exemplo). Há também o aspeto do trânsito, já que nesta estrada podemos perfeitamente correr a par com os nossos parceiros de treino, mesmo que quase no meio da estrada. E quando passa algum num carro há quase uma espécie de regra oculta que diz que os corredores têm prioridade e que são os veículos que têm de se desviar... e não o contrário.

E depois as paisagens. Absolutamente de cortar a respiração. Fazer um treino em Moiben permite-nos correr e observar ao longe das montanhas, olhar para qualquer um dos lados e contemplar o horizonte enquanto corremos. Por vezes passamos por zonas habitacionais e não raras as vezes temos crianças a cumprimentar-nos e mostrarem, uma vez mais, a incrível hospitalidade queniana.

São cerca de 30 quilómetros desde o ponto em que começa até ao ponto em que, normalmente, ninguém passa em termos de treino. Dá perfeitamente para um grande longo indo apenas numa direção ou simplesmente fazer o retorno em determinado ponto e voltar ao ponto inicial (ou perto dele). Foi esta última opção que eu e as minhas parceiras de treino fizemos este domingo.

Essencial para treinar em Moiben, especialmente por conta da hidratação intratreino (algo muito importante em altitude!), é termos connosco a acompanhar-nos alguém num carro ou moto, de forma a dar-nos águas, geis, etc. Normalmente este tipo de serviços podem ser recrutados a motoristas privados, que normalmente cobram entre 3000 e 4000 shillings pelo serviço (entre 23 e 32 euros) de carro ou menos de metade em moto.

Foi isso que fizemos este domingo, fazendo uso dos contactos que fui absorvendo durante esta estadia (graças ao meu grande amigo Pedro Queirós). Alugámos os serviços do Jeff, o motorista que anda normalmente pelo HATC, e fomos à nossa aventura. Ele ficou no carro durante todo o percurso, disponibilizando-se para dar as águas ou simplesmente receber a roupa que eventualmente quisêssemos descartar.

Neste treino, para lá de todo o simbolismo que teve correr na estrada dos campeões, tive a oportunidade de treinar com Neja Krsinar e Anja Fink, também elas duas grandes campeãs, no caso da Eslovénia. A primeira tem 1:14.19 horas na meia maratona - e é recordista nacional da maratona, com 2:35:30 -, a segunda conta com 1:12.45. Estão ambas no nosso 'training center' e têm sido a nossa companhia em todas as refeições que fazemos. Os meus tempos não estão nem lá perto, mas como os ritmos deste treino para elas seriam mais calmos, decidi abraçar o desafio. E ainda bem que o fiz!

Terei provavelmente feito o meu melhor treino no Quénia, com 15 quilómetros a 4'39/km, com 13 quilómetros mais rápidos com um ritmo médio ligeiramente abaixo de 4'30. Foi provavelmente o melhor indicador de que estou já adaptado à altitude e que as minhas pernas estão prontas para atacar a Maratona de Sevilha no próximo ano. Desses 15 quilómetros fiz somente 11 na companhia das tais atletas eslovenas, não por não conseguir acompanhá-las (hoje sentia que podia efetivamente fazer o treino sem problema), mas sim porque elas tinham 26 e eu apenas os 15. Mesmo assim, mesmo fazendo apenas 11 quilómetros na sua companhia, foi uma experiência incrível. Mais uma daquelas experiências para mais tarde recordar.

E sabem aquilo que senti depois de ter acabado o meu treino (mini) longo? Tenho de voltar para fazer uma verdadeira corrida longa nesta mítica estrada. Fazer 30 quilómetros ali tem de estar na 'bucket list' de todos os corredores de longa distância. Na minha já está! Talvez no próximo ano...

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