Dia 14: Asante-san, Kenya!

Jornalista Record esteve no Quénia a treinar junto dos atletas locais e partilhou a sua experiência

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'Asante-san'. Em swahili, a língua que por aqui é mais falada a par do inglês, quer dizer 'muito obrigado'. E é isso que quero dizer ao Quénia e aos quenianos por estas duas semanas. Foram duas semanas intensas, de experiências, em que absorvi uma nova realidade, em que vivi numa nova realidade. Duas semanas em que aprendi mais do que provavelmente no último ano. Os quenianos, pela sua forma de ser, sempre muito tranquila, muito amável, muito positiva, mostraram-me todos os dias que, apesar das dificuldades diárias, é possível sorrir para a vida e ser feliz.

A cada dia via as dificuldades que enfrentavam, a forma como vivem a vida, as condições básicas em que dormem, o que têm na mesa para comer ao final de cada dia... Mas mesmo assim a sua alegria era contagiante. Era impossível ficar indiferente a tamanha simpatia. Em especial as crianças, que quando me viam sorriam e diziam um tímido 'olá' (é um tratamento como aos 'muzungus'). Foi assim durante duas semanas. Ao começo estranhei, mas depois percebi que faz parte da sua forma de ser. Os quenianos, em parte como os portugueses, têm o dom de saber receber. De saber fazer-nos sentir em casa.

Do Quénia levo também uma experiência e tanto do ponto de vista dos treinos. Eu tinha uma ideia das dificuldades que os grandes campeões enfrentam para preparar as suas provas. Correr no Quénia não é fácil. Estamos em altitude - em Iten a cerca de 2300 metros - e os primeiros tempos podem ser complicados. Não se deixem enganar como eu. A primeira impressão é incrivelmente enganadora. O efeito da altitude, o impacto que tem no nosso rendimento, apenas se sente normalmente ao terceiro dia. Aí, se começaram demasiado rápido, vão pagar. Eu paguei!

E depois são as condições do terreno. Correr no barro, por entre pedras soltas, num sobe e desce absolutamente demoníaco. Correr no Quénia é uma experiência super exigente, mas eles sabem que é aqui que podem evoluir até chegarem ao topo mundial e cumprirem os seus sonhos. Esta gente vive precisamente desses sonhos. O sonho de ganhar uma prova lá fora e receber um prémio monetário que permita para sempre mudar a sua vida e a das suas famílias. Poucos são os que conseguem, pois o nível é incrivelmente elevado. Aqui é muito fácil encontrar alguém que tenha corrido uma meia maratona na casa dos 60 minutos. Até mesmo alguém que não é corredor profissional. Eles nascem com um dom, mas é ao longo da vida que o forjam. Desde crianças, quando são obrigados a correr dezenas de quilómetros diários para chegar à escola. Essa necessidade natural de se moverem, de se moverem num movimento de corrida, faz com que correr para eles seja algo que já lhes está no sangue. Desde muito cedo.

Mas não é apenas esse dom, essa genética que tanto falam. Esta gente sabe que tem de lutar por cumprir o sonho. Para muitos é mesmo a única opção, a única via possível para sobreviver. Para nós, europeus, se não triunfarmos numa determinada área, provavelmente teremos sempre algo para onde nos podemos virar para ganhar dinheiro para colocar comida na mesa. No Quénia, para estas pessoas que não sabem fazer muito mais do que correr, dar tudo nos treinos é a única solução para ficarem mais perto de ganharem a chance de correr lá fora e ganhar uns trocados que, para eles, são uma fortuna.

Os europeus, como eu, que para cá viajam procuram viver as condições exigentes de treino, o correr em altitude, o correr em percursos que nos dão força muscular mas que ao mesmo tempo nos preservam os músculos e articulações (correr em barro algo solto é fantástico para isso), mas muitos chegam aqui com o desejo de viver a experiência queniana e levar uma lição de vida para sempre. Foi isso que aconteceu comigo e é por isso que quero voltar no próximo ano. O Quénia, as suas gentes, ficaram-me no coração.

E quanto ao atletismo, sabendo que é um mundo que ultimamente está a ser inundado de casos de doping - percebi que temos muita culpa no cartório... -, saio daqui ainda com mais admiração pelos resultados que eles fazem. Sempre que vir uma prova na televisão ou ao vivo saberei certamente dar o dobro do valor ao que eles estão ali a fazer. E provavelmente no futuro até verei a brilhar, a ganhar medalhas, atletas com os quais corri por aqui. Porque essa é também parte da experiência: amadores correrem e partilharem treinos com os campeões atuais e os do futuro. E não há cá nenhuma sensação de superioridade da parte deles, só porque correm muito mais rápido do que nós. Eles sabem valorizar-nos e sabem que a nossa presença é importante para eles. Como para nós também é importante viver experiências destas.

Se gostam de correr, se gostam de aventura e querem ter uma experiência que vos pode mudar para sempre, aceitem o desafio de vir ao Quénia. Não precisam de ser super atletas para vir cá. Há espaço para todos e todos são bem recebidos. E é fácil cá vir. Nos próximos dias escreverei sobre isso. Mas por agora vou embarcar de volta a casa e aproveitar a viagem para continuar a absorver todos os ensinamentos que esta viagem me deu.

Asante-san, Kenya'.

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