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Jornalista Record está no Quénia a treinar junto dos atletas locais e partilha a sua experiência
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Para quem segue e pratica atletismo, ter a oportunidade de ver ao vivo alguns dos principais nomes da modalidades é sempre algo impactante. Normalmente só temos oportunidade de fazê-lo nas provas, onde todos esses atletas colocam em prática o esforço do trabalho diário. O chamado trabalho invisível, que poucos ou ninguém vê, mas que é essencial para chegar ao dia D e entregar os resultados que depois fazem deles referências no atletismo. Por isso, ter a chance de vê-los num desses treinos, num daqueles treinos que contam, onde o esforço é até ao limite e as pernas são 'esticadas' ao máximo, é algo verdadeiramente impagável...
Como sempre sucede por aqui, o dia começa ainda antes do sol nascer. No caso de hoje ainda mais cedo, pelas 5:40, a hora da saída para a pista em Eldoret, a uns 30 quilómetros de Kaptagat. Parece incrível, mas um dos maiores viveiros de talento do atletismo não tem uma pista - tal como Iten... -, pese embora os milhões que entram no país, através da sua federação. Isso obriga todos eles a fazerem largos quilómetros, muitas vezes amontoados numa carrinha com lotação para 10 onde chegam a ir 15. E como se isso não bastasse, o que dizer do estado das pistas em que estes atletas têm de treinar? As imagens que ilustram este artigo fazem jus às condições ridículas a que eles estão entregues. Aqui estão os melhores do Mundo, mas treinam como um país de terceiro mundo. Já imaginaram um Cristiano Ronaldo ou um Leo Messi a treinarem todos os dias num pelado? É, algo não bate certo...
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E quando digo melhores do Mundo é porque estavam mesmo aqui alguns dos melhores do Mundo. Francine Niyonsaba, uma das mais fortes da atualidade dos 3.000 metros aos 10 quilómetros, Sharon Lokedi, recente vencedora da Maratona de Nova Iorque, ou Timothy Kiplagat, o pacer que surpreendeu todos em dezembro ao vencer a Maratona de Abu Dhabi. Todos eles partilham resultados de excelência e também condições de treino que deviam envergonhar as autoridades do país que lidera o atletismo mundial. Mas bem, vamos ao que interessa, a magia que se viu nesta pista de Eldoret.
Depois da longa viagem, seguiram-se 20 minutos de aquecimento e estavam todos prontos para o treino do dia. O programa era simples, mas super exigente: 4x1600 e 7x1200. Ao todo eram quase 15 quilómetros, em ritmos que para os homens andavam ligeiramente abaixo dos 3'/km. Quando o treino começou, com o sol a nascer em pano de fundo, tentei absorver aquela energia. As passadas eram quase perfeitas, os pés, apesar de quase não tocarem no solo, faziam levantar uma poeirada que, no final de contas, dava ainda mais magia a todo este momento. Ao vê-los ao longe, todos alinhados, como um verdadeiro comboio, fez-me perceber o porquê de serem tão fortes. Sabem trabalhar em equipa, sabem sofrer juntos, sabem ajudar-se. Quando assim é, obviamente que o caminho do sucesso é mais fácil.
O grupo maior teria uns 15 corredores. Sempre que passavam por mim o barulho das passadas era impactante. Para quem gosta de atletismo, era quase como um recital de poesia, poesia em movimento. As séries foram passando a um ritmo frenético e ninguém desarmava. Francine Niyonsaba, por exemplo, vinha desde a primeira a fazer um incrível esgar de sofrimento, mas foi incrível vê-la a concluir o treino sempre a dar tudo e com parciais certinhos. Na liderança do outro grupo, aqui e ali, estava Edward Zakayo, um jovem de 21 anos que está ligado contratualmente ao Benfica. Apesar da sua tenra idade, foi sempre dos que mais se impôs neste treino, raramente ficando para a segunda metade do seu pelotão.
Quando o treino acabou seriam umas 8:15. Já o sol brilhava e no olhar de cada um dos atletas do grupo via-se aquela expressão de satisfação por uma missão cumprida. Estavam um passo mais perto de conseguir atingir o seu objetivo de conseguir ter uma vida melhor. Porque aqui a corrida é mesmo isso, mais do que uma paixão, é sim uma forma (para muitos a única) de ganharem a vida e conseguirem ter dinheiro para colocar comida na mesa. Não é fácil, mas eles dão tudo por isso, como neste dia tive oportunidade de ver.
Feito o treino exigente do dia, regressaram ao training camp e por lá ficaram até ao treino da tarde. Algo bastante calmo, apenas para 'meter' quilómetros nas pernas. Pelo meio, claro, houve espaço para recarregar baterias. Todos eles foram para este exigente treino de pista em jejum. Quando voltaram ao training camp esperava-os o pequeno almoço de sempre: pão e chá (o famoso chá queniano, que em breve tentarei partilhar o segredo). Seguiu-se um período de descanso e veio era hora de almoço. Ugali e managu (um vegetal típico daqui, que não consegui encontrar tradução para português). As horas seguintes, até ao segundo treino, foram em convívio ou em descanso. Pelas 16 horas saíram para a tal 'easy run'. Voltaram uns 80 minutos depois, prontos para fazer tudo de novo. Comer, descansar, comer e dormir. Que no dia seguinte começa tudo de novo.
Da minha parte, este foi o meu último dia em Kaptagat. Foram seis dias a viver uma vida pacata, em que a tranquilidade e calma eram a palavra de ordem. Este é o cenário perfeito para ter foco total do treino, imune a distrações externas e outros factores que possam prejudicar a performance. Por alguma razão algumas das mais importantes equipas do Mundo estão aqui sediadas. Mas também quero viver o outro lado. O lado de Iten, onde há mais vida, mais movimento e até mais corredores amadores com quem socializar e partilhar histórias. É isso que espero trazer-vos nos próximos dias. E, claro, manter o meu programa de treino, que por agora está a ser cumprido na perfeição. Venha a segunda semana!
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