Dia 4: Domingo, o dia em que a corrida fica para segundo plano

Jornalista Record está no Quénia a treinar junto dos atletas locais e vai relatar tudo

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O Quénia é um país fortemente ligado às suas tradições, especialmente no que à religião diz respeito. Com uma população na sua maioria católica, o domingo é mesmo um dia sagrado por estas bandas. É o dia de ir à missa em família, um dia de celebração, mas também é o dia em que os atletas profissionais, aqueles que passam de segunda a sábado no training camp apenas focados nos treinos, colocam os treinos de lado para rever as suas famílias. Normalmente o regresso dá-se ao início da tarde de sábado, depois do treino matinal, que varia entre um fartlek ou uma corrida longa. Passam cerca de um dia com os seus entes queridos e, no domingo à noite, estão de volta a uma verdadeira vida de monge. Tudo pela performance nas provas, onde darão tudo para conseguir garantir o sustento da sua família. É isto, semana após semana. Meses após meses. Alguns conseguem efetivamente fazer compensar os sacríficios com resultados e ganhos monetários correspondentes, mas muitos passam uma vida a tentar sem consegui-lo.

No meu treino de hoje, o primeiro longo (longuinho, vá...) em terras quenianas, apenas me cruzei com três corredores num percurso de 20 quilómetros por entre a belíssima floresta de Kaptagat. Belíssima, mas incrivelmente dura. No ponto mais alto deste percurso, sempre feito em terra batida, chegamos aos 2450 metros de altitude, isto depois de um constante e massacrador sobe e desce. Não há mesmo um palmo de terra plano! Aqui é necessário saber gerir o esforço e não ligar em demasia ao ritmo, mas sim às sensações. E foi nisso, de certa forma, que falhei neste meu treino.

Comecei confortável e, apesar de ter apontado fazer o treino num ritmo pelo menos 40 segundos mais lento do que faria em Portugal, rapidamente me vi mais perto dos 20 do que dos 30 segundos mais lento. Escusado será dizer que, quando o treino exigia um pouco mais de ritmo... as pernas não reagiram tão bem. Diria que foi a primeira vez, ao terceiro dia, que senti algum tipo de desconforto. Nada de muito crítico, mas serviu de alerta para o que aí vem: é para correr lento quando tiver de ser! E que melhor exemplo do que aquele que tive na sexta-feira, quando um atleta capaz de fazer 30 quilómetros em 1:30 horas me acompanhou ao longo de 18 quilómetros?

Voltando à tradição do domingo por cá, se normalmente a zona de Kaptagat é muito pouco movimentada (a escolha por parte das principais equipas para se instalarem aqui teve muito a ver com isso, porque a calma e tranquilidade são a palavra de ordem), o dia de hoje foi uma verdadeira pasmaceira. Poucas pessoas nas ruas, tudo fechado e um dia a convidar a uma jornada verdadeiramente de atleta: acordar, correr, comer, dormir a sesta, comer outra vez, descansar, comer novamente e dormir. Confesso que me habituava a isto. Acho...

Ah! E pelo meio ingerir muitos líquidos! Esse tem sido, provavelmente, o ponto que mais tenho notado como essencial nestes primeiros dias. O corpo rapidamente fica desidratado por conta da altitude. E aqui, como em grande parte dos países de África, está fora de questão beber água que não seja engarrafada. Por isso, em pouco mais de quatro dias, já foram ao ar umas 20 garrafas de meio litro. Mas tem mesmo de ser, porque caso contrário a resposta do corpo será influenciada negativamente.

Amanhã arranca mais um dia e, em princípio terei nova oportunidade para observar os atletas profissionais da equipa Rosa & Associati. Virão certamente com baterias recarregadas e com vontade de deixar tudo naquele barro. E eu cá estarei para ver!

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