À boleia do Esgana

A crónica de António Carraça

O mundo do futebol sempre teve figuras com particular carisma. Vítor Baptista, o ‘enfant terrible’ de Setúbal, que nos deleitava com a sua irreverência e mágico malabarismo. João Alves, com as luvas e o seu génio de maestro de orquestra. Oliveira, o menino traquina de Penafiel que afrontava com graça a autoridade. Vítor Damas, o gato selvagem, destemido e de personalidade vincada. Jacinto João, o pernas de alicate que nos hipnotizava a todos. Sem esquecer, claro, o nosso Eusébio.

Havia outros que nos surpreendiam. Entre esses, recordo o Alfredo Murça, o nosso muito estimado e querido Esgana. Este magrinho lateral – e central quando era preciso, que treinava sem meias – nascido na Trafaria, iniciado para a prática do futebol nos Pescadores da Costa da Caparica e com bigode de pintor surrealista, nunca... tinha dinheiro. Pelo menos, no bolso dele... Era nos almoços ou jantares. Era nos estágios. Era quando comprávamos os jornais e revistas. Era... sempre!

No início da época não sabíamos desta fraqueza do Murça. Nem nos questionávamos, pois era um jogador que vinha do FC Porto e representava a Seleção, o que significava a alcunha de ‘Esgana’ que o acompanhava. Eu aprendi à minha custa.

Corria o ano de 1981. Jogávamos no V. Guimarães e eu não tinha carro. O Campeonato ainda não começara pelo que o senhor Pedroto deu-nos três dias de folga. Estávamos em julho. Porque tinha a família de férias em São João da Caparica, comentei com o Barrinha e o João Ramalho que, após o jogo, iria de comboio para Lisboa.

Atento, o Murça perguntou-me se não queria ir com ele, pois ia para casa, também na Caparica. Dividiríamos as despesas e fazíamos companhia um ao outro. Concordei e agradeci.

Fim do jogo e primeiro episódio. O Murça era sempre o primeiro a despachar-se e a meter o carro a trabalhar. Eu era sempre o último a sair do estádio.

Lá partimos já de candeias às avessas. Segundo episódio, discussão do local onde jantaríamos. Eu queria jantar de faca e garfo, o Murça queria comer uma sandes. Neste caso não é o dono da bola que ganha, mas sim o dono do carro. Terceiro episódio, o ‘Esgana’ não tinha dinheiro, como era hábito, por isso fui eu que paguei o lanche ajantarado. Quarto episódio, o trajeto até Lisboa. Como era lógico e normal, mesmo não havendo muitos troços de auto-estrada naquele tempo, eu pretendia seguir pelo caminho mais rápido. Argumento do meu companheiro: "Não há muito trânsito, vamos pela Estrada Nacional..." Ganhou de novo o dono do carro. Quinto episódio, foi necessário abastecer o carro de combustível. Como o Murça não tinha dinheiro, fui mais uma vez eu a investir.

E lá continuámos pela EN n.º 1. Devagar, devagarinho. Pela noite dentro. Foi uma das noites mais longas da minha vida. Demorámos mais de 10 horas a chegar ao destino. Porque o ‘Esgana’ cumpria o Código da Estrada e não passava dos limites estabelecidos. E porque assim poupava a gasolina que daria para o regresso. Naturalmente sem mim. De volta a Guimarães, a epopeia foi, qual crónica de jornal, transmitida a toda a equipa. Nunca mais o Murça voltou a ter companhia nas viagens para a Costa da Caparica.

Por António Carraça
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