A 'filha' de Melia

O Zé António disse que queria um whisky e eu pedi uma Coca-Cola. O mister respondeu: uma Coca-Cola ‘Caraça’? Já não jogas no domingo!

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Um dos clubes onde mais gostei de jogar foi o Belenenses. O clube das Salésias, da Cruz de Cristo, das Torres de Belém, de José Pereira, de Matateu, de Vicente, de Riera, de Scopelli e muitos outros, que marcaram a sua história. Guardo com prazer, o convívio com o ‘mister’ adjunto e homem de grande carácter e singular humildade, Vicente Lucas. Um ‘azul’ da cabeça aos pés.

A minha passagem pelo Belenenses, em 1983/84, marcou a minha vida profissional e pessoal. Fomos campeões da 2.ª Divisão e nasceu a minha segunda filha, Jordana. Um ano de felicidade.

Tínhamos uma equipa repleta de estrelas. O capitão e particular amigo Zé António. Já tínhamos estado juntos nas Seleções nacionais de juniores e esperanças. O concentradíssimo central Paulo Meneses, ex-Sporting. Dudu, o pontapé canhão e comedor feroz de hamburgueres. O Chico Vital, goleador e companheiro de sauna vindo do FC Porto e Benfica. O ‘Balholhas’ Joel, o ‘expresso da Amora’ e brincalhão de serviço. O Jaiminho, o puto dos dribles que chegou a internacional. Uma equipa construída pelo ‘gentleman’ Fernando Mendes.

Fernando Mendes seria substituído pelo técnico britânico Jimmy Melia e que me levaria de novo a trabalhar com ele no Farense. Foi sempre um prazer trabalhar consigo Senhor Fernando!

Trazer Melia para o Belenenses na 2.ª Divisão foi uma decisão de risco, de audácia e mas também visionária. Melia tinha levado o Brighton à final da Taça de Inglaterra, na época anterior. A sua postura irreverente, comunicativa (num inglês de Liverpool bem audível) e exuberante chamou a atenção.

Na primeira folga que Melia nos deu, fui com o meu amigo Zé António beber um copo ao Van Gogo a Cascais. Entrámos e demos de caras com o nosso novo treinador no bar.

Assim que nos viu, excessivamente esfuziante diante da sua caneca de cerveja, chamou-nos para junto dele.

– Ei ‘kids’, venham para aqui. Como estão? Grande vitória hoje!

Anuímos, com algum receio.

– O que bebem? É por minha conta.

– Um whisky para mim mister! Respondeu de pronto o Zé.

– Eu quero uma Coca-Cola.

– Coca-Cola ‘Caraça’? Já não jogas domingo. Venham dois whiskys, please!

Nisto, chega perto de nós, uma jovem loura de olhos azuis. Beijou Jimmy Melia e disse no ‘mesmo’ inglês:

– Hi daddy (olá paizinho)!

– Hi my baby (olá meu bébé)! Cumprimenta os meus miúdos, Valerie. Bonita, não é rapazes?

– É mister. A sua filha é muito bonita. E muito novinha ainda.

– Filha? (seguiram-se impropérios que não reproduzo) A Valerie é a minha namorada!

Melia ficou vermelho, nunca soubemos se de raiva ou vergonha, e saiu dali para fora. Olhámos um para o outro, pagámos as bebidas e saímos também. Mas para casa.

No treino seguinte, levámos um ‘tratamento’ de multisaltos, corrida, corrida e mais corrida. Foram mais de duas horas.

Ainda hoje nos questionamos – eu aqui na terra e o Zé na companhia das estrelas no céu – se fomos nós os causadores daquele treino que nos partiu a todos. Mas aprendemos! Van Gogo, depois do jogo... nunca mais!

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