A maleta recheada

A crónica de António Carraça

A atividade física e os desportos coletivos são fundamentais na educação e na formação do caráter das crianças e dos jovens. Se nos desportos individuais, a superação é muito a base da ação, nos jogos de equipa, a solidariedade, o espírito de grupo, a amizade, são determinantes para o sucesso e acompanham-nos para sempre, moldando a personalidade e marcando a nossa vida.

Foi isso que transmiti ao meu filho António Maria que, acabado de fazer 10 anos, tem nos próximos dias o seu primeiro torneio de futebol fora de casa, em Santarém, onde irá estar três dias em ‘estágio’. É também uma recompensa pelo seu aproveitamento escolar.

Durante a nossa conversa, perguntou-me como eram os estágios no meu tempo. Lembrei-me de uma história passada em 1982. Estágio de início de época do Vitória de Guimarães. Treinador era Manuel José, vindo do Sporting de Espinho, com a ‘bênção’ de Mestre Pedroto, de partida para o FC Porto. Duas semanas em São Pedro de Muel onde iríamos apurar a nossa condição física. O pinhal, a praia e o campo relvado faziam-nos companhia todo o santo dia. E sempre em frenética correria. Por isso, a necessidade de recompor energias.

Para esse estágio, levei queijos, bolachas, paio, fruta, coca-colas, chocolates, que deixaram de boca aberta – e com apetite... – o meu colega de quarto, o vimaranense Abreu. Era uma mala repleta de ‘sustentos’ que necessitava de esconderijo seguro. O roupeiro foi o local escolhido. Com cobertores por cima.

No primeiro dia, estafados até à medula, não houve repasto. Mas passei a mensagem ao Barrinha, ao Silvino, ao Laureta e a mais um ou outro sobre o menu que nos esperaria nos dias seguintes. No segundo dia, ainda doridos, mas já com vontade de partilhar novos sabores em amigável confraternização, combinámos a ceia no meu quarto. Por volta da meia-noite, chegaram os convivas. Vou ao roupeiro. Lá estava a mala, mas sem cobertores por cima. Pego nela, trago-a e coloco-a em cima da cama. Estamos preparados, com guardanapos e copos na mão. Abro o fecho e... a maleta, a minha rica maleta, só tinha cobertores e uma folha de papel com o seguinte texto: "Toni, obrigado por te lembrares de nós. Sabíamos que podíamos contar contigo. E com o teu bom gosto para a escolha do menu. Dorme bem... se conseguires". Foram 12 dias de angústia. E o ‘crime’ ficou impune e sem rosto. Até hoje...

Nota a propósito de uma crónica sobre Murça. Alfredo, escrevi a história, porque pensava que te irias rir das peripécias que passámos juntos durante dois anos em Guimarães. Não tinha conhecimento que já não estavas neste Mundo, mas sim noutra ‘dimensão’. Se o soubesse, não a escreveria, já que não podes explicar à tua família o que significa a cumplicidade e a especial vivência de alguém que passa mais tempo em treinos, jogos, estágios, viagens do que em casa com os nossos. Pelo facto, deixo aqui sinceras desculpas à tua família por não ter conseguido e sabido passar corretamente a minha mensagem. Em relação a ti, iremos falar e rir quando nos encontramos aí em cima...

Por António Carraça
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