A vingança do Rúben

Passou uma hora. Passaram duas. Ninguém arredava pé. Passaram, três, quatro e... cinco horas! E nada. O mistério alimentava a resistência...

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Quando em 1419, devido ao mau tempo e depois de muitos dias à deriva, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira aportaram numa pequena ilha, a que chamaram Porto Santo, nunca pensaram que essa descoberta iria enriquecer o país com uma ‘pérola’ única e de valor inestimável. O arquipélago da Madeira emerge nesse imenso Oceano Atlântico, como um jardim de cores múltiplas e brilhantes.

No ano de 1984, o ‘meu’ Belenenses competia com o Marítimo pelo título nacional da 2.ª Divisão. A subida foi coroada com essa conquista para gáudio de milhares de belenenses.

Viagem Lisboa–Funchal. Chegada à Madeira e trajeto direto para o hotel. Distribuição dos quartos, treino ligeiro nos jardins do hotel, banho retemperador e jantar para recuperar energias. Na mesa, a insubstituível Brisa de maracujá.

Na minha mesa, com o Zé António, Rúben e Figueiredo, alguém comenta que, no prédio em frente ao quarto, existiam duas meninas, não totalmente vestidas, deambulando de janelas abertas entre as várias divisões da casa.

Após estas eloquentes e excitadas palavras, o frenesim instalou-se rapidamente e a conversa tornou-se cada vez mais pormenorizada. Eram louras ou morenas? Eram portuguesas ou estrangeiras? Viam-se bem? Será que ainda lá estavam? O ‘informador’ apimentou o filme, dizendo que lhe parecia ter visto algum carinho excessivo entre as meninas, mas que não tinha a certeza pois estava num nível mais baixo. Estava instalado o caos! O jantar estava a ficar muito longo. O tempo nunca mais passava. O serviço estava muito lento! O ‘voyeurismo’ que existe em todos os jogadores de futebol crescia cada vez mais no nosso espírito. Ao ponto de a mesa ao lado, onde estavam o Jaime, o Dudu e o Jorginho, ter ficado a par de toda a história. E que história! Fim do jantar. Já não era sem tempo. E aí vão os sete ‘exploradores’ para a coberta do hotel, de onde a vista era privilegiada. A noite já se tinha posto e corria aquela brisa madeirense. As luzes do dito apartamento continuavam acesas. Sem movimento lá dentro. Olhares atentos, especulações várias sobre o que poderíamos observar. Uns cigarros pelo meio. Passou uma hora. Passaram duas. Ninguém arredava pé. Passaram três, quatro e... cinco horas! E nada! Mas o mistério alimentava a resistência. Já passava das 3 da manhã, quando vislumbramos vultos numa área da casa. Atenção! Um casal, vestido a rigor senta-se na varanda. Um casal... sexagenário. Ou mais velho ainda...

Olhámos uns para os outros. Onde estavam as meninas de pouca roupa? Nisto, entre gargalhadas estridentes, ouvimos uma voz com forte sotaque nortenho:

– Seus ‘morcões’! Achavam que iam ver um filme erótico? Estão pagas as partidas que me têm feito.

Era o Rúben que falava. O nosso homem de todo o serviço – lateral, médio, ala. E, sim, fosse onde fosse, estávamos constantemente a pregar-lhe partidas. Levou uns calduços e foi apertado por aquelas horas de angustiante e fria espera. Valeu-nos a vitória sobre o Marítimo e ficarmos mais perto da subida...

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