As botas do 'rei' Midas

A crónica de António Carraça

Já aqui falei várias vezes da importância que os ídolos – imagem que representa uma divindade e à qual se presta culto à pessoa ou a coisa muito admirada – têm na sociedade moderna. Principalmente para os jovens e adolescentes que tentam imitar as suas estrelas e assim terem também alguma notoriedade. Ou é no vestuário, ou no penteado, ou na forma de festejar os golos ou ainda nos comportamentos e vocabulário. Por isso, a responsabilidade destes protagonistas é cada vez maior e transporta consigo uma série de deveres e obrigações. De cidadania, de respeito, de imagem impoluta. De passagem de uma mensagem positiva e de exemplo. E é importante que os Ronaldos, os Messis, os Neymares, os Renatos e todos os outros tenham essa consciência E a noção de que marcamos os outros, não pelo que fazemos, mas sim pelo que somos.

Na semana passada, tomei um café com o Luís Mira, o antigo médio e capitão de várias equipas de sucesso do Barreirense, nas décadas de 60 e 70 e que continua, com os seus 73 anos, um jovem de espírito e um grande conversador. Falámos do Barreirense do Ti Manel (Manuel de Oliveira), do futebol português, do Benfica e de Eusébio.

Falámos de caráter, que muitas e muitas pessoas ainda não sabem o que é. De humildade e de falsa humildade. De como o futebol pode tornar as pessoas realizadas e felizes. E logicamente, falámos do seu passado.

Relembrava o Luís Mira:
– Sabes Carraça, tenho histórias para contar que davam para ficarmos aqui dias e dias. Muitas boas, algumas más. Mas divertidas. E algumas de homens bons e grandes como o nosso Eusébio.
E recordou uma quando foi jogar ao Estádio da Luz...
– Nesse tempo, as diferenças entre os jogadores do Benfica e dos outros clubes não era grande, era enorme! Quando entrámos em campo, nos cumprimentos habituais, o Eusébio, que me conhecia bem pois tínhamos jogado juntos na seleção militar, ao olhar para as minhas botas de travessas perguntou se eu ia jogar com aquilo. Eu disse que sim, eram as botas que tinha. Ele sorriu e deu-me uma palmada nas costas.
Mira continua:
– Ao intervalo, quando estávamos no balneário, bateram à porta. Era um dirigente do Benfica, com um saco na mão para entregar ao senhor Luís Mira, da parte do Eusébio. Todos ficámos espantados e admirados.
E o que vinha no saco?
– As botas de pitons novas iguais às do Eusébio! Pretas, não como aquelas que agora se usam de cores extravagantes. Jogámos a segunda parte e no fim do jogo, já com as botas lavadas e no saco, fui ter com o Eusébio para as devolver. O meu amigo e grande senhor disse: "As botas são tuas. Os meus amigos e jogadores a sério têm de jogar bem calçados." E deu-me um forte abraço com um sorriso do tamanho do Mundo. Ele era um ser humano de grande dimensão. Um exemplo de homem e de profissional. Deus o tenha ao seu lado. Só para matar a curiosidade: as botas ajudaram, perguntei.
– Então não ajudaram! Perdemos ‘só’ por 5 a 1...

Por António Carraça
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