As meias pretas

A crónica de António Carraça

Os nossos filhos e netos não sabem o quanto a vida é diferente nestes dias de modernidade. No século XXI, as crianças e os adolescentes têm, desde muito novos, conceitos de vida multifacetados. Hábitos diários que adulteram a relação normalizada entre os pares. Prioridades que deturpam o verdadeiro significado do tempo de qualidade. São os telemóveis, os computadores, os iPads, as PlayStations, as redes sociais. Um sem-número de opções que, muitas vezes, determinam o caminho a seguir e o rumo que as suas vidas tomam, sem darem por isso. É certo que têm mais informação. Há quem diga que são mais independentes, responsáveis e ousados. E que crescem mais depressa. Tudo isso pode ser verdade – para mim não é tudo totalmente verdadeiro – mas gostaria de ver o meu filho de 10 anos e os meus netos e netas, a viverem em ‘outros tempos’. Só para testarem as suas capacidade cognitivas, o seu caráter e personalidade. Os seus valores e a forma de resolver o imprevisto. De entender e compreender os outros e como construir o presente e o futuro. Onde as facilidades e a modernidade não estivessem sempre presentes, onde necessitassem de puxar pela cabeça para construir brinquedos e inventar brincadeiras. Onde os livros fossem a companhia constante e diária, onde as novas tecnologias, pudessem ser substituídas pela conversa, pela partilha, pela amizade cara a cara. E onde não existissem escolas de futebol e a rua e os parques funcionassem como linhas de montagem de jovens talentos. Onde para brincar e jogar no alcatrão e nos terrenos baldios, os ténis, sapatos e as chuteiras fossem substituídos por outros ‘apêndices de pé’. Como acontecia comigo.

Entre os 7 e os 13 anos, eu, os meus pais e os meus irmãos vivemos numa casa antiga, no cais de Vila Franca. Tínhamos o rio Tejo à porta de casa e um largo imenso de alcatrão negro, duro e sempre ‘vulcânico’ no verão – nele se faziam jogos de futebol com muitas partes de horas e horas seguidas. Às vezes seguidos de perto e com atenção pelos ‘monstros’ Coluna, Simões, Jaime Graça, Germano e outros, depois de grandes ‘patuscadas’ na garagem do Zé Esparteiro. O nosso outro, sempre atento e especial espectador, era o grande e velho carneiro, preso no portão da garagem por uma corda espessa, mas que às vezes se desapertava e proporcionava faenas e pegas rijas com umas cabeças partidas à mistura.

Voltando aos pés, relembro as palmadas que nesses tempos levei da minha mãe, porque um dia de manhã cedo o meu pai perguntou:

– Efigénia, onde estão as meias? Mudaste o sítio das meias?

– As meias estão na primeira gaveta da cómoda, Francisco.

– Então emigraram para uma terra mais fresca. Só está aqui um par e não emigrou, pois já é velhinho!

– O quê? Não pode ser. A gaveta estava cheia de meias. Toninho, o que fizeste às meias do teu pai? É por isso que os ténis ainda não rebentaram como sempre acontece?...

Pois era, como só tinha uns ténis para calçar durante a semana e uns sapatos para o fim de semana e para a missa, a solução para jogar naquele magnífico ‘empedrado escuro’ era usar as meias pretas do meu pai...

Por António Carraça
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