Cromo adormecido

Crónica de António Carraça

O futebol profissional mudou muito. Não só no nosso país como também no resto do Mundo. Mais profissionalismo, maior organização, incomparável capacidade financeira dos clubes. Mais jogadores ricos. Mais jogadores pobres. Mais treinadores ricos. Mais dirigentes e empresários ricos.

Tudo muito diferente de quando iniciei o percurso como jogador profissional no Famalicão da 1.ª Divisão em 1978.

O Famalicão do Tibi do FC Porto, do Tito do V. Guimarães, do Melo da Académica, do Vítor Oliveira, do Jacques, do dr. José Albino de Barcelos. E outros mais que me ajudaram a entender o significado e a importância que essa profissão poderá ter na nossa vida. Para sempre. Podemos ser treinadores, dirigentes, podemos ser muitas outras coisas no futebol, mas aquilo que mais nos marca, aquilo de que mais saudades sentimos, é de jogar...
Com 20 anos, já casado, adiando o curso de medicina por 2 anos – queria ser cirurgião – o facto de deixar temporariamente os estudos e sair de Lisboa para jogar futebol ‘a sério’ no FC Famalicão e ir viver para uma vila como a Trofa, era um desafio e uma aventura.



E a aventura começou logo na viagem até ao norte. Nesse tempo, com vias rodoviárias nacionais, sem autoestradas e com tráfego intenso e lento, chegar a Trofa foi um exercício de paciência e atenção. E de muito tempo. Mais de 7 horas no Datsun do meu sogro Alfredo. Atrás de nós, uma carrinha com móveis e pertences para que nos pudéssemos, eu e a minha mulher, alojar na nossa nova casa nortenha, situada num prédio, talvez o mais alto de Trofa nesse tempo, no ‘Largo Vermelho’, em frente ao familiar Café S. Martinho e perto da estação de comboios.

Café S. Martinho onde se discutia de forma acesa e emotiva o Benfica e o FC Porto. Onde se analisava diariamente a agenda política de então. Onde se comiam uns gigantescos e gostosos croissants e se lia o maior jornal do Mundo dessa época, o ‘Jornal de Notícias’. E onde ganhei bons amigos.
Nessa terra, tive a minha primeira filha. Tatiana de seu nome, ruiva e hoje advogada de profissão. Nascida no ano seguinte, 1979, foi a primeira dos meus três filhos.
Na Trofa fui feliz. Mesmo longe da família, do teatro, do cinema, dos antigos amigos e de Lisboa. Mesmo não tendo carro para me deslocar para os treinos em Famalicão e voltar para casa, que distava cerca de 10 km pela estrada nacional n.º 14.

Para ir e voltar, tinha de apanhar todos os dias o autocarro que ligava o Porto a Famalicão. Conciliar horários dos treinos e da camioneta era um exercício complicado. Obrigava a chegar muito cedo ao treino – o que era bom – e a chegar tarde a casa – o que era mau. Mas era a vida. Num desses dias, cansado e embalado pelo andamento melancólico da camioneta, adormeci. Quando acordei estava perto da Maia. A mais de 20 km de casa. Chovia, fazia frio e este rapazinho que jogava na 1.ª divisão e já era um ‘cromo da bola’ estava na paragem do autocarro sem saber o que fazer. A minha sorte foi ir a um café, ligar ao meu amigo Luís Lima e pedir-lhe por favor para me apanhar.

Hoje em dia, todos os jogadores da 1.ª e 2.ª ligas e de divisões inferiores têm carro. Até mais do que um. E que carros! Por isso não lhes acontecem estes percalços. Mas por outro lado, não têm experiências peculiares, nem se divertem com a imprevisibilidade com que a vida é capaz de nos surpreender.

Por António Carraça
Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
Subscreva a newsletter

e receba as noticias em primeira mão

ver exemplo

Ultimas de A crónica de António Carraça

Notícias

Copyright © 2020. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.