Memórias do doutor

Crónica de António Carraça

Há pouco mais de um mês, recebi um email da direção do Record. O conteúdo era uma carta a mim dirigida da parte do dr. David Sequerra que me deixou enternecido e tornou esse dia, um dia melhor. Depois de ler algumas destas minhas despretensiosas prosas – e porque o nosso contacto se tinha perdido há muitos anos –, presenteou-me com uma carinhosa e intimista missiva.

Escreveu entre outras coisas: "Jantámos juntos na Expo’98 em 22 de Maio, na mesma mesa e na noite do teu 40.º aniversário (1958-1998). E preguei-te uma ‘peta’ bem intencionada quando te disse que sabia as datas de aniversário de todos os que foram juniores comigo, como foi o teu caso. Ficaste estupefato, lembro bem, mas expliquei-te depois que tu tens exatamente a mesma idade do meu filho Henrique. Lembras-te deste episódio? E também referi a data de nascimento do Chalana (10/11/59) porque é o dia de nascimento da minha filha. Podes orgulhar-te da tua carreira mas também lamentares como o Benfica te tratou. Coisas da vida..."

Não tive a oportunidade de lhe responder em vida, já que algumas semanas depois, o dr. David Sequerra deixou-nos. Por isso, respondo-lhe agora, sabendo que onde está irá ler estas humildes, mas sentidas palavras.

Lembro muito bem desse jantar dr. David Sequerra. O que nos rimos. E lembro-me ainda de muitos mais episódios. Lembro muito bem a forma como recebeu, em 1975, um jovem jogador do Vilafranquense na Selecção Nacional de juniores. Com simpatia, carinho e atenção. Porque o senhor era assim, autêntico, e também pelo facto de eu ser o único jogador que representava um ‘clube pequenino’ e frequentar o 7.º ano dos liceus, estando quase a entrar na Universidade. Lembro bem o quanto falámos da importância da educação e formação dos jogadores de futebol.

Lembro a forma feliz e entusiasmada como comunicava. Como vivia e sentia o futebol. Como abordava as questões por mais difíceis que fossem. E como se preocupava connosco.

Lembro-me muito bem de lhe ter contado o episódio da minha convocatória. De ter lido a notícia no ‘Diário Popular’, jornal que comprava todos os dias em Santa Apolónia antes de apanhar o comboio de regresso a Vila Franca, depois das aulas no Passos Manuel. Só que quem estava convocado era o... ‘Carcaça’ e não o Carraça. Ambos rimos com a gralha jornalística. E compreende-se. Carraça não era, nem é, nome de jogador.

E lembro-me, como se fosse hoje, as palavras que me dirigiu, quando apresentei as despesas ao Rolo: os bilhetes de comboio até Lisboa e de elétrico até à Cruz Quebrada. A esmagadora maioria dos outros jogadores não apresentava bilhetes. Referia tão só a quantia que pretensamente teriam pago pelo táxi. Já nessa altura, meu amigo, jogar no Benfica, no Sporting ou no FC Porto tinha os seus privilégios.

Como vê, na minha memória o senhor continua presente. Como alguém que me transmitiu ensinamentos para a vida, que me fez sentir especial, que deu muito de si ao futebol e aos outros. Foi um orgulho e uma honra ter podido partilhar consigo estes momentos. Até um dia quando nos voltarmos a encontrar...

Por António Carraça
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