O grande Washington

Sempre se disse que uma equipa constitui-se a partir da defesa

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Sempre se disse que uma equipa constitui-se a partir da defesa. Um guarda-redes seguro e corajoso. Laterais competitivos e que intervenham no jogo ofensivo. Centrais que complementem a técnica e a energia. Médios centros criativos. Alas com velocidade e magia nos pés. E avançados goleadores.

Em teoria, é esta a fórmula usada para estruturar uma equipa de sucesso. Ou de insucesso. E, tanto num caso como no outro, nem sempre o que parece é. Muitas vezes é o acaso ou a fortuna que determina o destino coletivo.

Treinadores com capacidade e talento sempre existiram e sempre existirão. No entanto, muitos deles, porque não souberam desenvolver outro tipo de valências, ficaram pelo caminho. Outros, pelo contrário, menos apetrechados de condições técnicas, mas porque são líderes e desenvolvem um especial conhecimento do potencial dos seus jogadores, conseguem chegar ao topo. Criando equipas e ganhando, marcando a diferença e potenciando jogadores. Por muito limitados que eles possam ser. Não são mágicos nem malabaristas, mas sim práticos e solidários. Trabalhadores incansáveis até à última gota de suor. No aperto são eles que carregam a equipa aos ombros. Os jogadores que qualquer treinador deseja ter na sua equipa. Ao longo dos anos, esses homens tiveram vários nomes: Oceano, Rodolfo, Toni, Eurico, Freitas, Mozer, Lima Pereira. E Bruno Alves e Washington Alves! Filho e pai, que com profissionalismo e um notável espirito de sacrifício fizeram carreira. Sempre com entusiasmo e entrega ao jogo. Sempre com o pelo na venta. Às vezes fazendo ‘doer’...

Corria a época de 1978/79, era verão na Póvoa do Varzim, e disputava-se mais um Torneio da Póvoa. Frente a frente, o Famalicão de Mário Imbeloni e o Varzim de António Teixeira. Estádio cheio.

Primeiros minutos, o veterano Tito serve-me na meia direita, domino, rodo, tento partir em velocidade e sou completamente atropelado. Uma marca na canela, falta e segue o jogo. Mais uns minutos de jogo, cruzamento do Lula pela esquerda, salto com um defesa e sou projetado, qual bola de pinguepongue. Cerca de 30 minutos de jogo da 1.ª parte, recebo a bola no meu meio campo, tiro um adversário do caminho e parto em direção ao meio campo adversário. Pela frente, entre mim e a baliza, um adversário grande e ameaçador, de pernas abertas. Passo a bola por aí mesmo e tento prosseguir em velocidade. Sinto um pé no meu peito, o ar falta-me e estatelo-me na relva. Dor no peito. Nisto, sinto os ‘pitons’ de uma bota no ombro e uma voz rouca decidida:

– ‘Minino’ se você volta a fazer outra vez o mesmo, ‘ti’ parto todo!

Abro os olhos e, pela terceira vez no jogo, o Washington era o protagonista do filme. Levantei-me depois do spray milagroso e toca a jogar. Era para homens de barba rija. E sem caneleiras. Já o jogo tinha reiniciado e eu ainda não sabia bem o que me tinha acontecido.

Nem recordo o resultado (saí vencedor, pois o selecionador nacional Mário Wilson estava na bancada e convocou-me para a Seleção de Esperanças), mas no fim houve cumprimentos entre todos e um pedido de desculpa do grande Washington. E um forte abraço demos os dois. Bruno, o teu pai era o maior. Era mesmo. E tu sais a ele...

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