O menino grande

Crónica

Além do talento, da capacidade física, da força emocional e de uma série de outros predicados, o jogo jogar-se-á sempre com o cérebro. A cabeça será sempre o centro das operações. Por isso, "jogador inteligente é melhor jogador". Ronaldo, Messi e Neymar por exemplo, os mágicos celestiais do planeta, são também os núcleos cerebrais das suas equipas. São eles "a rainha do xadrez futebolístico" em que o futebol hoje é representado. Só eles podem e conseguem fazer todos e quaisquer movimentos. E são eles os únicos que conseguem aniquilar o rei/guarda-redes de qualquer maneira e feitio.

Não é pelo facto do jogo ser mais científico e inteligente. Mais organizado e estudado. Mais elaborado. Mais parecido com o xadrez, onde cada peça tem a sua função e determinado objectivo coletivo. Que o futebol deixa de ser um jogo de rua, onde as emoções e os sentimentos desabrocham a todo o momento, onde as fintas e os dribles magnetizam o olhar e param a respiração.

Este único jogo é isso mesmo, misto de arte, engenho, músculo e pensamento. Condimentado com conflitos, lutas e diálogos pessoais, empurrões, indisciplina a todos os níveis e... sorrisos. Às vezes muitos e constantes sorrisos.

E se conheci jogador que tinha sempre um sorriso nos lábios e estava sempre pronto para a brincadeira, esse jogador era o ‘Mãozinhas’, o Silvino. Sim esse mesmo, o elemento da equipa técnica do melhor treinador do Mundo, José Mourinho.

Às vezes, o tiro saía-lhe pela culatra. Como aconteceu num jogo contra o FC Porto, na época de 1982/83, a 10 de abril de 1983 em Guimarães. Aí fomos nós que nos divertimos e gozámos, já na cabina, a recordar o que se tinha passado. Conto como foi: livre à entrada da nossa área, perigoso já que o terreno estava pesado e o marcador era o terrível Gomes. O ‘Mãozinhas’ gritava e gesticulava com cara de poucos amigos, tentando organizar a barreira.

– Mais jogadores na barreira, quero mais jogadores na barreira!!

Alguém replicou:

– Mas ó Mãos, já temos cinco!

– Não quero saber, quero mais um ou dois. E cuidado com os jogadores livres ali na direita.

– Mas já todos estamos a marcar alguém, Silvino!

– Não quero saber, quero mais jogadores na barreira!

Nisto, o ‘careca’ Nivaldo, no seu sotaque brincalhão de Pernambuco, grita alto e com bom som para todos ouvirmos: "Ó ‘Mãozinhas’, só temos 10. Não queres pedir ao árbitro para entrarem mais dois que temos no banco para pôr na barreira?

Lógico que o nosso ‘Mãos’ lhe gritou uma série de impropérios, proibidos e impróprios para serem aqui reproduzidos. Se calhar também por isso, por esta pequena distração, o Gomes não acertou na baliza. Resultado final: 0-0.

Na cabina, no banho de imersão, riso total a recordarmos o episódio. O Silvino sempre foi um menino grande. Bondoso, com valores, divertido, amigo do seu amigo. E sempre com saudades da sua terra e da sua família. Agora, um cidadão do Mundo... e já fala inglês!

Por António Carraça
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