O sobrolho do Bubu

A crónica de António Carraça

O futebol já não é o que era. Tudo mudou. Ou quase tudo, já que as ‘tricas’ com a arbitragem continuam e ainda em tons mais acentuados. Não só no tom, como também nos verbos, nos adjetivos e nos comportamentos primitivos de muitos dos protagonistas.

Se algum de nós, os ‘dinossauros’, estivéssemos durante alguns anos preservados em formol, quando ‘voltássemos’, como nos filmes de ficção cientifica, não conseguiríamos compreender muitas das novas realidades. Não por ser melhor ou pior, mas sim por ser diferente. Muito diferente. Não poderíamos ir ao futebol ao domingo à tarde com a família, pois quase já não há jogos ao domingo à tarde. Os estádios e os campos repletos de espectadores são uma raridade. Os jogadores são mais ricos e famosos, tal como os treinadores. Não existiam fisioterapeutas, havia massagistas. Os técnicos de equipamentos de agora eram os roupeiros de antigamente. A discussão técnica do jogo também mudou. O contra ataque agora é uma transição. Os fiscais de linha são árbitros assistentes. O bascular, o jogar entre linhas são agora as novas pérolas quando se fala de futebol. Não existiam relvados sintéticos e os naturais eram poucos. Havia era muitos pelados com areia e gravilha.

Era o que tinha o campo do Alcacerense, na pitoresca Alcácer do Sal. Em 1991, num jogo do Nacional da 3.ª Divisão entre este clube e o U. Montemor, aconteceu um episódio que marca a diferença entre o jogador moderno e o jogador de outros tempos. Muito rebolam e caem os jogadores hoje em dia, talvez porque a relva é fofa.

Nesse jogo – debutava eu nesse ano como treinador –, um dos centrais, Bubu de seu nome, um cabo-verdiano de rija cepa e solidário, foi a estrela do dia. Nos primeiros minutos de jogo, abriu o sobrolho, a disputar uma bola de cabeça onde os outros puseram as botas. O sangue jorrava pela cara. Ia substituí-lo, mas ele veio ao banco e disse-me:

– Mister, estou bem. Não me faça isso. Ponho um adesivo e no intervalo vemos como está. Por favor.

E assim fiz. Durante a 1.ª parte continuou a disputar os lances sem um único queixume. Chegou o intervalo.

– Bubu, vais ter de sair. Temos de te coser isso.

– Mister, por favor, eu estou bem. Não sinto nada. Temos de ganhar este jogo. E isto é só um arranhão...

– Mas Bubu tens o sobrolho aberto...

– No fim falamos mister!

E assim foi. O meu central leão correu, lutou, jogou e marcou (de cabeça!) o golo do empate, 1-1.

No fim, no balneário, e porque o massagista não sabia suturar, apesar de ter material para o fazer e porque o Bubu se recusava a ir ao hospital, tive de ser eu a usar os meus poucos conhecimentos médicos e cosê-lo com 3 pontos. É certo que ganhei algum crédito perante os jogadores, mas o verdadeiro e único herói foi o nosso Bubu. Sobretudo, quando lhe disse:

– Não te posso coser. Não temos anestesia. Tens de ir ao hospital.

– Não pense nisso mister. Não vou ao hospital. Cosa sem anestesia. Eu aguento. Isto ainda está quente. Força!

E assim foi. Quando vejo as fitas, os truques, as cenas de muitos jogadores do, penso logo... no Bubu.

Por António Carraça
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