Padrinho da Kalinka

A crónica de António Carraça

Todas as equipas têm jogadores ‘particulares’. Com um carácter e uma personalidade muito própria, conseguindo, assim, divertir o grupo, unindo-o e fazendo com que a boa disposição esteja sempre presente. As ‘figurinhas’ como lhes chamávamos. No bom sentido claro, gente boa e de cabeça diferente, mas saudável. E tive o prazer e a honra de ser amigo de muitos deles.

Lembro, em 1974 e 75, no meu Vilafranquense, o meu amigo Balé, já trintão, lateral e central de rija fibra, empregado num talho no mercado, que, com as suas piadas e felicidade pessoal, nos envolvia a todos numa risada pegada. Quando no treino eu lhe fazia algumas maldades, com dribles e fintas que o confundia, dizia sempre com uma voz de fingida irritação: "Oh miúdo (tinha 16 anos nessa altura) vou partir-te! Isso faz-se ao Balé? Não te parto uma, parto-te as duas pernas!" E logo de seguida, ria-se muito e dava-me uma festa no meu então cabelo basto e louro.

Passados poucos anos, três para ser mais preciso, encontrei o Vicente no Sacavenense. Também já maduro e batido com os seus trintas e chegado da CUF, o ‘Mula’, como era conhecido ‘mundialmente’, fazia rir até o mais sorumbático treinador ou jogador. As suas histórias, do nosso futebolês e aquelas mais privadas que continham muitas bolas vermelhas, faziam correr o tempo, mais depressa e com prazer. Dizia-me ele, às vezes: "Tonizinho, se tiveres juízo, e não andares atrás de muitos ‘rabos de saia’, podes chegar à primeira divisão. E, puto, se quiseres, posso ser teu conselheiro e empresário. E não cobro nada. Vai por mim..."

E dizia isto com um ar de completa seriedade. Fazia um compasso de espera de alguns segundos, olhando para mim, nos meus olhos, e logo de seguida soltava algumas gargalhadas, confundindo-nos, ficando eu e todos que ali estávamos sem saber se estava a falar a sério ou a brincar.

Já mais tarde, em 1982, no inesquecível Farense e no especial e mágico Algarve conheci a verdadeira e genuína ‘figurinha’ do futebol português. O Rui Lopes, o ‘figurinhas’. Sempre feliz e de bem com a vida. Jogasse. Não jogasse. Tivesse ou não problemas pessoais. Estava sempre em festa. Mas sempre. Todos os dias e em todos os momentos. E para fazer conhecimentos, amigos e ‘amigas’ estava sempre disponível. E para organizar festas era único. Um dia de manhã chegou ao treino e disse, com voz grave e séria, alto e bom som para todos ouvirem na cabine:

– Toni, tens cá em baixo um fato? É que se não tiveres vais ter de comprar um!
– Um fato? Por acaso tenho um cinzento. Mas para quê, onde vamos? – Vamos a um baptizado. E estou a convidar-te para padrinho. Quero que sejas o padinho. Vai-te preparando.
– Um baptizado? Mas de quem? As tuas filhas já não estão baptizadas?
– Estão! Quero que sejas o padrinho da Kalinka. Trouxémo-la ontem para baixo.
– Da Kalinka, mas quem é a Kalinka? Nunca me falaste de teres uma filha com esse nome.
– Mas qual filha? A Kalinka é a minha... [nesta altura começou a rir e a rir com total gozo] cadela...
Risada total e ensurdecedora. Em toda essa semana, a minha alcunha foi o ‘Padrinho da Kalinka’.

Por António Carraça
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