Paulinho, o feiticeiro

Numa tentativa de ele levar tudo à frente, tive de lhe dar uma ‘ripada’. Sem intenção de o magoar seriamente, claro...

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Como todos sabemos, os jogadores são a essência e a razão do jogo. É por eles e para eles que os estádios se enchem e o negócio existe e prospera. O futebol da magia e do improviso compete em absoluto com o futebol organizado, pragmático e com o pensamento exclusivo no resultado.

E é nesta simbiose plena que o jogo vive e alimenta paixões. E, por isso, atrai investimento e investidores numa constante promoção e desenvolvimento do espetáculo.

Porque o espetáculo/jogo tem de ter brilho, sentimento, suspense, entrega, malabarismo e um sem-número de outras particularidades, os mágicos do futebol serão sempre os protagonistas. Serão sempre a chave do sucesso e da implantação planetária do jogo.

Numa das minhas recentes idas à CM TV, tive o grato prazer de encontrar e rever o meu amigo Paulo Futre.

Um dos indeléveis feiticeiros do jogo que com o seu futebol de filigrana, de têmpera, ousadia e frenética velocidade, incendiava e enfeitiçava adeptos, adversários e amantes do jogo da bola.

Relembrei de imediato dois momentos, entre outros, que vivi com ele em emocionantes jogos do campeonato e que marcaram as nossas carreiras.

O primeiro, em 15 de abril de 1986, quando eu representava o Vitória de Setúbal. Num jogo decisivo do FC Porto no Bonfim, o Paulinho, num rápido contra-ataque (agora é moda dizer ‘contragolpe’), pelo seu lado direito, corre cerca de 80 metros com a bola, levando tudo e todos à frente. Cara a cara com o nosso guarda-redes Miguel, faz um grande golo e dá o título de campeão ao FC Porto. No Estádio da Luz, o Sporting vencia o Benfica por 2-1 e contribuiu assim para a entrega do cetro ao seu rival do Norte.

O segundo momento que recordei, com saudade, aconteceu um ano antes, 15 de abril de 1985, na bonita cidade de Faro, num Farense-FC Porto, jogo de caráter quase decisivo para as equipas que lutavam por objetivos diferentes.

A jogar como médio-esquerdo, com Bukovac nas minhas costas mas que só atacava, levei desde o início do jogo com o Paulo ‘em cima’, o que em abono da verdade era um pesadelo.

Pensei: só há uma solução. Numa tentativa do Paulinho de levar tudo à frente, dei-lhe uma ‘ripada’. Sem intenção de o magoar seriamente, claro. Ele ficou no chão. Entra o massagista e o médico para prestarem assistência. Passados uns minutos, Paulo Futre está recuperado. Vou junto a ele e segredo:

– Paulo vai para o outro lado. Eu e o Buko não te vamos dar tréguas. Necessitamos deste pontinho, não compliques a nossa vida...

O mágico olhou para mim, sorriu, e foi para o outro lado do campo à espera da marcação do livre.

Tinha resultado, pensei eu. Puro engano. Aos 26 minutos, perdemos a bola à entrada do nosso meio campo. Bola no Paulo, progressão, cruzamento magistral e lá estava o Gomes para finalizar.

Tinha sido pior a emenda que o soneto. Não havia volta a dar. Quando se tem o dom do talento, de marcar a diferença com ‘bordado de ouro’, não há nada a fazer. Com dureza, sem ela, com malícia e mesmo com artistices à mistura, fazer parar o Paulo Futre era quase impossível.

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