Torresmos e bagaço

A evolução do jogo deve-se muito à evolução dos meios, dos saberes e da moderna mentalidade dos protagonistas. As ciências técnicas e humanas vieram abrir novas janelas do conhecimento e tornaram o futebol profissional num dos maiores fenómenos industriais e um espetáculo de massas avassalador. Muitos jogadores, treinadores, árbitros, agentes, dirigentes e outros, são hoje notícia de abertura de telejornais e capas dos jornais e revistas em todo o Mundo.

Só que o sucesso e a fortuna não presenteia todos. Particularmente jogadores. Más opções, maus clubes, maus conselhos, más companhias, má família, mau empresário, mau profissionalismo geram mau presente e péssimo futuro. E quando assim é, torna-se inevitável uma queda no precipício. Em muitos casos, a perseverança, a responsabilidade e a paixão pela vida e pela família, funciona como tábua de salvação.

Em Novembro de 1979, com 21 anos e uma filha de 1 mês, eu e mais seis colegas do Famalicão fomos despedidos por tentarmos defender os nossos direitos. Com dois meses de salários em atraso e prémios de jogo por pagar, pretendíamos ter uma palavra a dizer na resolução do problema. O presidente de então, um ‘senhor’ engenheiro, que não foi importante nesta história e agora muito menos é, ao ser confrontado com as nossas necessidades, disse:

– Meus senhores, não temos dinheiro, por isso, desenrasquem -se. É a vida! E não vamos pagar nada. Por isso, quem é que não joga domingo? Levantem-se aqueles que tomam esta posição!
Como na reunião do dia anterior, todos os 30 jogadores determinaram tomar essa medida, levantei-me, como homem de honra e de palavra que era e que sou. Fomos sete os ‘revolucionários’. De 30, só sete assumiram o compromisso. Os outros, de cabeça baixa, sem consciência e de forma irresponsável e traiçoeira, continuaram sentados e mudos. "E agora? O que nos vai acontecer?" Agora... "Os sete têm guia de marcha para casa, sem dinheiro, sem trabalho, sem prendas de Natal e sem poder jogar até ao fim da época por clube".

Voltámos para casa com a dignidade e a nossa palavra de homens de bem intatas. Ainda hoje, sei que foi a decisão mais importante da minha vida. Fez-me crescer 100 anos e ensinou-me quanto a honra é determinante.

Passados dois meses, estava a vender caixas de fruta da Cooperativa do Cadaval, na Ribeira, no Mercado Abastecedor com o meu amigo José Rijo. Tinha uma família para proteger. Por isso, tinha de trabalhar. Às 6 horas da manhã, num antigo quiosque do Cais do Sodré, comia uma sandes de queijo e um sumo de laranja. Ao meu lado, os estivadores e os carregadores devoravam sandes de torresmos, uma taça de tinto, um café e um bagaço. Sempre o mesmo ritual. Sempre as mesmas caras. E diziam-me:

– Ó miúdo, ‘tás a olhar? Quem não é para comer não é para trabalhar! E tu não vais lá com um Sumolzinho.

Riamo-nos e acabávamos a falar do Benfica e do Sporting. Por vezes, acabávamos também por falar de esperança, de sacrifício, dos nossos sonhos e de como é importante acreditarmos. Em nós e na vida...

Por António Carraça
Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
Subscreva a newsletter

e receba as noticias em primeira mão

ver exemplo

Ultimas de A crónica de António Carraça

Notícias

Copyright © 2020. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.