Filipe Albuquerque: «Le Mans está em 1.º lugar»

Pilotou o único carro da Audi a conseguir ganhar as 24 horas de Daytona, mas o sonho maior continua por realizar na mítica pista francesa de La Sarthe...

Filipe Albuquerque: «Le Mans está em 1.º lugar»
Filipe Albuquerque: «Le Mans está em 1.º lugar» • Foto: david martins

Filipe Albuquerque é de Coimbra, vive em Coimbra, mas cada vez que vai a Lisboa almoça pelo menos uma vez no Sea Me, perto do Camões. "Sou maluco por sushi, mas também gosto muito do prego." A militância de Filipe pela autointitulada Peixaria Moderna obrigou a que fosse este o primeiro restaurante a repetir presença na ‘Conversa de Faca e Garfo’, da Revista Record. Percebeu-se porquê. A dieta de um piloto profissional impõe rigores aos quais não é possível escapar. "Num fim de semana de corrida, não me vou pôr a inventar, porque não posso arranjar problemas." Mas nos momentos de evasão, a conversa é outra.

A vida de um piloto da Audi passa-se muito no eixo Portugal-Alemanha. Chega a ir e vir no mesmo dia. "Com alemães trabalha-se ao minuto, não são apenas as corridas, tenho de estar presente em muitos eventos." Em outubro, Filipe Albuquerque só participou nas 4 horas do Estoril, do campeonato European Le Mans Series, mas a sua agenda marcava uma ausência em casa, entre os dias 11 e 28. "Temos muitos testes com o carro", apesar do calendário com a Audi só ter duas provas, as 12 horas de SPA e as míticas 24 horas de Le Mans.

Depois de ter sido campeão da Europa de Fórmula Renault 2.0, de se tornar um dos membros efetivos do Red Bull Team Junior e testar na Fórmula 1, Filipe Albuquerque atingiu um ponto de não retorno na carreira. "É o auge. Subir mais não dá. Na vertente da resistência, as 24 horas de Le Mans são a prova mítica, estão em primeiro lugar. As 500 milhas de Indianápolis também são importantes, mas é outra dimensão, talvez como o Grande Prémio do Mónaco, na Fórmula 1, apesar de ter perdido um bocadinho, porque os carros já não têm aquele barulho característico."

Filipe Albuquerque julga ter razões para se sentir satisfeito com a sua carreira. "Estar a correr por uma casa que ganhou 13 vezes em Le Mans, em 16 anos, quer dizer alguma coisa. Todos os anos vamos lá para vencer."

O seu passado no circuito francês de La Sarthe ainda é curto, mas já muito acidentado. "No meu primeiro ano, em 2014, caiu uma tempestade, um dos GT vinha a andar a fundo, bateu e desfez-nos o carro. Eu nem cheguei a conduzir. Foi uma situação difícil de digerir. Nunca me tinha preparado tanto. A ansiedade era tanta, quando vi que não ia andar foi incrível, frustrante."

Um recorde

Em 2015, Le Mans já foi diferente. "Não estava a chover e consegui um bom andamento. À 14.ª volta bati o recorde da pista. Só me apercebi quando vim cá para fora. Mas faltava tanto tempo para acabar... Nós andámos sempre entre os três primeiros, mas a quatro horas do fim, quando íamos a minuto e meio do líder, a centralina avariou." Moral da história: "Parámos 20 minutos e perdemos oito voltas. As corridas só acabam no fim e quando andamos bem só nós é que sabemos."

Do passado, Filipe Albuquerque fala sem arrependimento, apesar da febre da Fórmula 1 ter batido forte. "Temos de estar no lugar certo, à hora certa, e bem preparados. Quando decidimos bater com a porta da Red Bull, havia uma proposta para fazer o GP2 e depois ir para a Fórmula 1, mas não conseguimos reunir os patrocínios necessários. O Kobayashi ganhou a Fórmula Renault e foi à Fórmula 1, eu ganhei no ano a seguir e não fui. A Red Bull tinha-me exigido ficar em 5.º lugar nas World Series e eu fui 4.º, mas não houve capacidade financeira. Os meus managers disseram-me que o sonho da Fórmula 1 tinha ficado difícil, mas o meu sonho era ser piloto profissional."

A seguir, entrou na Audi, mas primeiro teve de provar que estava à altura da marca alemã. "Conseguimos um teste e eu fui o mais rápido de todos. Às tantas, perguntavam: ‘Quem é este tipo?’." Mas não foi fácil: "Antes do teste com o R15, deram-me um livrinho para estudar as funções todas, o volante estava cheio de botões. Depois era preciso estar à vontade com 700 cavalos. Depressa chegava aos 290 km/h, parecia que estava no ‘Regresso ao Futuro’."

A conjuntura era favorável e Filipe Albuquerque foi convidado a participar na Corrida dos Campeões, uma prova de exibição que reúne esperanças e consagrados de várias vertentes do automobilismo, dos ralis à Fórmula 1. E ganhou, apesar da concorrência de Sebastien Loeb e Sebastian Vettel. "Disseram que eu consegui o lugar na Audi por ter ganho a Corrida dos Campeões, mas foi coincidência."

Em 2010, Filipe Albuquerque tinha o futuro pela frente, mas a Fórmula 1 não deixou de ser um sonho que ficou para trás. "O gosto pelas corridas começou a ver os grandes prémios ao domingo e a ouvir o Domingos Piedade falar do Senna, do Prost e do Mansell. O meu pai também me incentivou muito, ao levar-me aos karts com sete anos. Eu ia para as aulas desenhar os circuitos, por isso é que nunca fui um grande aluno, mas tive de trabalhar, porque sem resultados não havia corridas."

Uma vitória

Falar de corridas e tirar prazer de um pedaço de Red Dragon é o suficiente para que Filipe Albuquerque vá acelerando o discurso. Ainda mais quando fala da vitória mais marcante na sua categoria. "Foi nas 24 horas de Daytona, em 2013. Na minha primeira vez a andar nos Estados Unidos, ganhei. Visto de fora até pareceu fácil, mas só acabei com 15 segundos de vantagem. Andámos sempre nos quatro primeiros, mas deram-nos uma penalização e caímos para o 7.º lugar. Eu ia guiar no último turno, mas, a três horas e meia, disse: ‘Ponham-me a mim. Eu vou para ganhar ou ficar em último’. A equipa foi brilhante, soube lidar com as regras. Às tantas eu já estava na volta do líder e aquilo acabou por cair para o nosso lado. Foi espetacular. Até hoje, foi o único Audi a ganhar em Daytona", diz, orgulhosamente.

Filipe Albuquerque confessa-se guloso, mas nos Estados Unidos teve uma experiência inesperada quando quis comer pipocas no cinema, um dos seus grandes hóbis. "Quando vou comprar, vejo que só há pipocas salgadas, mas eu só gosto das doces. Eu a tentar explicar-lhes e eles a encolherem os ombros, foi aí que percebi: nos Estados Unidos não fazem pipocas doces", conclui com algum desdém.

Quando os pilotos da Audi se juntam, Filipe Albuquerque não corta nas sobremesas. "Eles ficam doidos comigo, porque como de tudo sem problemas." Nas corridas não se brinca com o peso. "Dez quilos a mais significam mais meio segundo por volta, uma eternidade. A minha regra é: tudo o que como vai ser queimado. Hoje já queimei mil e tal calorias, com o treino no Jamor." E a seguir ataca o leite creme de moscatel caramelizado. "Muito bom, mas a dose é demasiado grande", diz, como quem sabe que, para muitos apreciadores, esse é um comentário proibido: as doses, quando o prato é bom, nunca são grandes.

O objetivo do piloto português é fazer um grande resultado em Le Mans, mas não só. Dentro da Audi ainda lhe falta subir um degrau: integrar a equipa que corre no Mundial de resistência. "Neste momento, isso não se põe, mas quando houver oportunidade, tenho de ser a escolha indiscutível, preciso estar preparado." Aos 30 anos, é o "segundo mais novo do projeto Audi para Le Mans. Mas depende dos resultados, nas corridas não se pode prever a vida."

Enquanto o momento não chega, Filipe Albuquerque acumula a Audi com a participação nas European Le Mans Series (ELMS), ao volante de um Gibson, da JOTA Sport. "AAudi incentiva os pilotos do terceiro carro a manterem--se ativos noutras competições e ajudam até a encontrar soluções, para não perdermos o ritmo."Em quatro corridas das ELMS, Albuquerque conseguiu quatro pódios, mas na última, nas 4 horas do Estoril, acabou por perder o título. A seguir, até ao início da próxima temporada, o piloto português vai treinando no simulador, embora este tenha um problema até agora inultrapassável. "As condições de aderência são iguais em todo o lado e na pista não é assim, ela ganha mais borracha em determinados sítios." ‘À civil’, Filipe Albuquerque é um condutor calmo. "Mas os domingueiros dão cabo de mim", adverte quem sai de cena ao volante de uma Audi RS6 com 560 cavalos.

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