Grandes banquetes

Na primeira época entre os grandes do futebol nacional, o encontro com Tibi em Famalicão terminou com a descida de divisão mas... em permanente diversão

Corria o ano de 1978 e iniciava a minha experiência profissional na 1.ª Divisão (ainda era essa a denominação dos campeonatos profissionais) em representação do Famalicão que tinha subido nesse ano.O treinador contratado, o argentino Mário Imbelloni, antigo malabarista do San Lorenzo de Almagro, desde muito cedo, logo nos primeiros contactos, demonstrou ser uma pessoa que priorizava as relações humanas e dava, acima de tudo, responsabilidade aos jogadores nas suas escolhas e nas suas opções de vida.

O estágio de pré-época, em Esposende, iniciou-se com grande intensidade e como era hábito naquele tempo, com muita correria pelas matas ali perto e muita carga física.
Logo no primeiro dia, as dores nas pernas e em todo o corpo faziam-se sentir de forma muito penosa. Os primeiros dias de trabalho, depois das férias, são essencialmente tempo de muito sacrifício. Já sabia que era assim, mas o facto de ser um clube de 1.ª Divisão naturalmente elevava a exigência.
Depois do treino da tarde e do banho retemperador, algum tempo no quarto para ganhar ânimo para o jantar. À hora determinada, descemos para o restaurante. Foram-se constituindo as mesas de 4 de acordo com as amizades, outras formaram-se de modo aleatório.
Eu e o Zé Eduardo procurávamos um local para nos sentarmos, quando a nossa atenção foi despertada por uma voz que se fez na nossa direção:
– Ó miúdos, podem sentar-se aqui. Venham lá!
Quem assim nos chamava era o Tibi, o nosso sempre animado guarda-redes, sentado numa mesa com o Jacinto, lateral-esquerdo que tinha vindo do Leixões e homem de poucas falas – e, por isso, também de poucos amigos.
Para lá nos dirigimos. Pela disposição da mesa, verificámos que iríamos ter sopa, prato de peixe, prato de carne, fruta e doce. 
Tal como o nosso treinador nos tinha dito, no seu “português argentino”, numa das primeiras preleções “podem comer e beber à vontade muchachos!”
Depois de servir a sopa, o empregado perguntou o que iríamos beber. Rápido e decidido, como o fazia entre os postes, o Tibi respondeu-lhe:
– Nós vamos beber esse verde branco delicioso que vocês têm aí e os miúdos vão beber água. Mas podes encher também de vinho o copo deles. É isso não é? Vocês em Lisboa só bebem água e Coca-Cola.
– É Tibi, é! Só bebemos água... não é Zé? Respondi.
– Sim, água e Coca-Cola.
– Eu sabia que tínhamos feito a escolha certa. Esta vai ser a vossa mesa durante estas semanas de estágio. E vai ser a mesa mais divertida.
Assim foi. Durante todo o estágio, ao almoço e ao jantar, os dois leixonenses, o rapaz de Seixas e o forcado de Vila Franca trocavam histórias das suas vivências, sempre doridos em resultado dos treinos, mas sempre a rir com a diversão do nosso “portero”. Uma mesa bem regada por copos de água... e com o vinho verde branco à mistura.
Passámos a ser os mais requisitados nas refeições. A maioria do plantel do Famalicão era oriunda do Norte e aí o hábito de beber vinho às refeições estava arreigado como cultura.
No final da época, descemos de divisão! Não foi por causa dos grandes banquetes. Mas que ajudou, lá isso ajudou…

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