José Redondo: O senhor râguebi

DONO DO LICOR BEIRÃO TEM VIDA LIGADA À MODALIDADE

José Redondo: O senhor râguebi
José Redondo: O senhor râguebi • Foto: Miguel Barreira

Um dos netos descreveu-o bem, quando o acompanhou numa visita à fábrica do Licor Beirão que é o negócio da família desde 1940: “Ó avô, tu tens cá uma pedalada!” De facto, José Redondo não aparenta os 72 anos que exibe no Bilhete de Identidade. A energia nos gestos, os olhos vivos, o sorriso largo e com uma história sempre na ponta da língua, este produtor de licores e empresário de sucesso já entrou na história do râguebi português. Fundador do Rugby Club da Lousã (RCL), treinador, “paitrocinador”, presidente da Assembleia Geral e só agora presidente da direção nos 43 anos de existência do clube, José Redondo vive uma segunda juventude.

Recuperou o RCL para a Divisão de Honra da modalidade – “tenho uma direção fabulosa e nos últimos dois anos só perdemos um jogo [em 38]”, diz com orgulho – e ainda faz uma perninha nos jogos de veteranos, como aconteceu no mês passado em Farnham, em Inglaterra. “Sabe, no râguebi só é placado o jogador que tem a bola nas mãos e eu normalmente costumo estar longe da... bola”, conta entre sorrisos.

O caráter empreendedor fica-lhe bem marcado pela sua história na modalidade, apesar de ter despertado para o desporto no... futebol. Jovem craque na equipa de futebol da terra natal, recusou aos 17 anos um convite dos juniores da Académica, para poder jogar na formação sénior do Lousanense.

Ainda assim, até aos 22 anos, o médio/extremo-direito dividiu o futebol com o râguebi na Briosa. “Era médio de abertura e tinha um belíssimo pontapé graças ao futebol, pois os treinos naquela altura eram de ‘tiro ao boneco’”, recorda, acrescentando com um laivo de vaidade: “Ainda hoje me admiro como fazia pontapés dos 22 metros a saírem na bandeirola do canto. Fiz ‘drops’ (n.d.r.: pontapé de ressalto para os postes) de 60 metros, que naqueles tempos era uma coisa…”

Contrato com a mulher

Foram 15 anos no râguebi da Briosa e, após regressar da guerra no Ultramar, José Redondo lançou a modalidade na Lousã em 1973. Tirou 16 horas semanais da fábrica para dedicar-se às aulas de Educação Física na escola preparatória e meteu mãos à obra. Dois anos depois conseguiu formar a sua primeira equipa de juvenis. Em 1978 já tinha um grupo de juniores que em 1981 passaram a seniores, numa altura em que os seus fins de semana eram dedicados em exclusivo ao râguebi. “Todos temos de ter paixões e o râguebi para mim é uma paixão”, sublinha. De tal forma que teve de chegar a um acordo com a mulher Fernanda. “Com quatro filhos, senti que ela estava a ficar desvairada. Então fizemos um contrato, ainda hoje em vigor: de outubro a maio todos os fins de semana são meus; de maio a outubro são dela. Mas ela foi aceitando o râguebi, porque os filhos foram internacionais – o Daniel e o Ricardo até foram capitães de juniores – e os quatro netos mais velhos [n.d.r: ao todo são dez, cinco rapazes e cinco raparigas] já são jogadores de râguebi. A modalidade é uma religião lá em casa.”

Um relvado e uma camisola

A história de vida de José Redondo confunde-se com o jogo da bola oval e não é por acaso que, desde 2012, o campo do Rugby Club da Lousã adotou a designação de Estádio José Redondo. “Este é o quinto campo que fiz na Lousã. O primeiro tinha sido numa plantação de batatas, depois fomos para um terreno inclinado, com um poste ao meio; eu tinha de estar à volta do poste para evitar que os miúdos se magoassem. O primeiro jogo oficial, um Lousã-Cascais para a Taça de Portugal em 1988, foi num campo com 80 metros por 45 e rodeado de oliveiras, que depois fomos alargando até ao estádio atual”, adianta o presidente do RCL, tornando claro uma regra de sempre: “Ali não entra uma bola de futebol. O futebol onde entra toma conta de tudo e eu quero deixar um exemplo na Lousã.”

O epíteto de ‘Senhor Râguebi’ é pouco para o caráter pioneiro de José Redondo, responsável pelo primeiro campo relvado em Portugal em exclusivo para o râguebi. O ‘seu’ RCL também foi dos primeiros emblemas nacionais a receber atletas do Hemisfério Sul e inovou nos equipamentos. “Reparei que os jogadores agarravam-se muito às camisolas, que eram largas, e comecei a utilizar fita adesiva do Licor Beirão para amarrar as mangas.” No torneio de Sevens de Lisboa em 2002 os jogadores do RCL alinharam, pela primeira vez, com umas camisolas de licra. “Fomos gozados, mas o Serevi [n.d.r.: o melhor jogador do Mundo de sevens] quando mexeu na camisola fez-me um sinal afirmativo. Resultado: jogou pelo RCL no Torneio de Sevens de Madrid, que ganhámos”, adianta com orgulho. Três semanas mais tarde a Seleção Nacional de Sevens passou a jogar com camisolas justas, atualmente também o traje das equipas de quinze.

‘Paitrocínio’ em vez do título

Fã dos All Blacks (seleção da Nova Zelândia) – “como toda a gente”, acrescenta –, José Redondo tem seguido a par e passo o Mundial que decorre em Inglaterra. “Fui ver o Austrália-Argentina em Wembley e fiquei maravilhado com o estádio, é assombroso. Ficámos no topo, nos bilhetes mais baratos, mesmo assim a 190 libras (260 euros)”, acrescenta com uma gargalhada, revelando que costuma ir uma a duas vezes por ano a Inglaterra para assistir a jogos de râguebi.
É para pequenos luxos como este que dá graças ao dinheiro. Já ao RCL não falta nada e diz mesmo que a dedicação ao clube desde 1973 é um “paitrocínio”. “Mais do que dar dinheiro dou ferramentas”, explica. “Se quisesse ser campeão nacional era só pegar em 2 ou 3 por cento do orçamento da empresa e metê-lo no râguebi. Mas isso não me dá prazer nenhum, porque no fundo ia fazer o que fazem os presidentes do futebol – estão lá três, quatro anos, metem uns milhões e chegam ao topo, mas depois vão-se embora e o clube cai na 3.ª Divisão. Mais do que querer ganhar campeonatos, eu quero é estruturar, deixar uma obra.”

Apoio à cultura e ao amigo de matos

José Redondo tem a Lousã no coração e são inúmeros os apoios de caráter social que a Licor Beirão aplica nas instituições locais. “Fomos a empresa com a maior eficácia na publicidade no século XX e quando atingimos determinada dimensão temos de arranjar outras fórmulas de publicidade e marketing”, adianta. Para além da parte social, a empresa associou-se agora à cultura. “É uma parte sempre marginalizada pelo Governo, mas um bem público que as empresas estão a fazer.” Na galeria Tintos e Tintas (Av. Duque de Ávila, 120), em Lisboa, uma exposição do pintor De Matos divide o espaço com a história do Licor Beirão. Foi a forma de José Redondo apoiar um amigo de longa data, António de Matos Ferreira – “o Matos Ferreira”, como gosta de dizer –, também ele natural da Lousã. 

Vendas a subir com vitórias do Benfica

Tem uma paixão pela Académica, mas confessa-se benfiquista. No entanto, José Redondo não gosta de ver futebol, um jogo “demasiado tático” e que “não é honesto como o râguebi”. “O que gosto de ver é a publicidade do Licor Beirão”, remata de pronto. “E se o anúncio aparece quando é golo ou um penálti duvidoso, então é uma alegria porque no dia seguinte vai aparecer mais uma meia dúzia de vezes... em três ou mais canais”, adianta, para logo acrescentar: “Quando ganha o Benfica é fantástico. Nota-se logo nas vendas. As pessoas ficam a ver os comentários depois do jogo, as imagens, as entrevistas. E quem está em casa ou no café a beber um Licor Beirão pede mais outro... e outro.” O Licor Beirão produz para cima de 3,5 milhões de garrafas/ano, exporta para 45 países e fatura 13 milhões de euros/ano. “Mais uns quantos milhões da nossa empresa distribuidora”, acrescenta.

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