Sebástian Rodríguez Veloso: O terrorista que se tornou herói olímpico

Foi condenado e preso, fez greve de fome e ficou paraplégico. Foi libertado dez anos depois e tornou-se campeão olímpico...

Sebástian Rodríguez Veloso: O terrorista que se tornou herói olímpico
Sebástian Rodríguez Veloso: O terrorista que se tornou herói olímpico

No passado: terrorista condenado por homicídio. No presente: o atleta mais medalhado do desporto espanhol. Esta é a história de Sebástian Rodríguez Veloso. O homem que trocou as armas pela natação.

“Não posso negar o meu passado. Faz parte da minha vida. Mas a minha vida não é só isso”. Sebástian Rodríguez Veloso, mais conhecido por Chano, é um caso único no desporto espanhol. Prepara-se para participar nos quintos Jogos Paralímpicos da sua carreira. Chegará ao Rio de Janeiro com 60 anos e um palmarés de oito medalhas de ouro, seis de prata e duas de bronze, conquistadas entre Sydney, Atenas, Pequim e Londres. Não há ninguém da sua idade na natação paralímpica.

“Às vezes, quando estou com os outros atletas, eles brincam por eu ser mais velho do que muitos deles juntos”, revela à Revista Record numa entrevista telefónica. “Não sei se os Jogos do Rio de Janeiro vão ser os meus últimos. Nessa altura logo vejo. Se nos encontrarmos por lá, digo-te o que vou fazer a seguir [risos].” Passo a passo. Este é o lema de Chano. “Quando estou com os mais jovens, oiço-os dizer que sou um super-homem, um superatleta. Não sou super nada, mas foco-me numa decisão e não a abandono. Dou o máximo todos os dias. Hoje, por exemplo, acordei às 5h30 para treinar. É assim todos os dias. Só descanso ao domingo.”

O interesse pela natação começa ainda em criança. Nasce em Cádiz, em 1957, e tem no mar o seu espaço de recreio: “Não havia muito mais para fazer naquela zona do que brincar na praia. Habituei-me a estar sempre dentro de água desde muito novo.” Com a idade adulta, porém, as braçadas são trocadas pelo idealismo político e pela vontade de lutar por um país mais democrático: “Vivi na Espanha das décadas de 1970 e 1980, durante os anos do franquismo e do pós-franquismo. Foi uma época de muitas injustiças sociais. Não havia liberdade e as pessoas não tinham oportunidade de viver de forma digna.”

Passado terrorista

Sem esperança numa mudança pacífica, entra na organização terrorista Grupo de Resistência Antifascista Primeiro de Outubro (GRAPO), o braço armado do então Partido Comunista de Espanha Reconstituído. “Na altura era jovem e aquela pareceu-me uma forma de lutar por um mundo melhor. Só mais tarde percebi que tinha escolhido um caminho errado.”

Chano abraça a vida de terrorista e fica sedeado em Barcelona, onde aguarda por ordens dos seus superiores. Participa em vários atentados à bomba e faz parte do comando que, em setembro de 1984, assassina, com dois tiros, o presidente da confederação de empresários de Sevilha, Rafael Padura. É detido no ano seguinte e condenado a 83 anos de prisão.

A sua vida piora ainda mais em 1990: participa na maior greve de fome da história de Espanha, juntamente com vários membros dos GRAPO, num protesto contra a transferência de presos do grupo para outras prisões: “Quando estás encarcerado, a tua saúde é a única arma que tens”, lembra. Ao todo são 432 dias em que 60 homens se negam a comer, sendo o governo obrigado a decretar a alimentação forçada dos reclusos. O longo período de jejum faz com que Chano perca a mobilidade na parte inferior do corpo. “Fui um dos que tiveram sorte. Sendo paraplégico, posso ter uma vida quase normal. Outros ficaram com danos graves no cérebro e muitos morreram.”
Preso a uma cadeira de rodas para o resto da vida, Chano encontra na natação um novo ânimo: “Os médicos viram que eu gostava de nadar e disseram-me para continuar. Não porque houvesse alguma esperança de que, através da natação, eu pudesse voltar a andar, mas apenas porque me fazia bem ao resto do corpo e à cabeça.” Tudo melhora em 1994: recebe liberdade condicional devido à sua debilidade física e aproveita para intensificar os treinos. “No princípio não pensava em competir. Fui nadando devagar e depois vi que podia fazer isto a sério”, lembra.

Polémica após Sydney

Bastam poucos anos para que se torne o Michael Phelps da natação paralímpica, como lhe chamariam mais tarde. Regressa dos Jogos de Sydney, em 2000, com cinco medalhas de ouro. Todos querem saber mais sobre este novo herói nacional. As suas biografias desportivas dizem que ficou paraplégico devido a um acidente de automóvel. Mas a verdade vem ao de cima e a opinião pública divide-se: o passado terrorista, o dinheiro público recebido e o direito de representar a bandeira espanhola são alguns dos temas debatidos. A família do empresário assassinado sublinha, em várias ocasiões, que Chano nunca deu mostras públicas de arrependimento. O nadador chega a responder: “O passado não se pode mudar e de nada me vale dar golpes no peito e dizer que me arrependo.”

Enquanto a polémica cresce, continua a nadar e a ganhar medalhas para Espanha: “O que as pessoas diziam de mim nunca me afetou desportivamente. Afetava-me enquanto ser humano. Nunca poderei apagar o crime que cometi, mas aquela fase da minha vida durou apenas nove meses e falavam como se tudo o que eu fiz a seguir não contasse para nada.” Apesar das mudanças, e de todas as glórias desportivas, Chano é o primeiro a saber que ainda há quem ache que ele não deve representar Espanha. “Vai haver sempre gente com essa opinião, mas felizmente já são menos”, assinala.

Condecorado pela família real

O governo espanhol decide conceder um indulto a Chano em 2007. Muitos não concordam com o perdão para um ex-terrorista. As críticas regressam passados dois anos num momento que mostra a transformação radical da sua vida: o antigo terrorista, convertido em campeão da natação, recebe a medalha da Real Ordem de Mérito Desportivo das mãos dos reis de Espanha. “A rainha deu-me a medalha e disse ao rei que eu era um fenómeno. Depois, preparei-me para tirar uma fotografia ao rei e ele disse: ‘Sou eu que quero tirar uma foto contigo’. Tirou-me a máquina das mãos, deu a outras pessoas e fizemos a foto. Foi um momento especial.”

Durante os comentários mais severos e os maiores êxitos desportivos, a população de Vigo nunca deixa de apoiar Chano. “Puxaram sempre por mim e tinham pena de não me ver a competir porque em Vigo não há piscinas de 50 metros.” Chano tem então a ideia de fazer travessias para homenagear aqueles que sempre estiveram a seu lado. Num desses percursos entra para o Guinness Book quando faz toda a Ria de Vigo a braços, durante quase 25 horas, ao longo de um trajeto de 45 quilómetros. Acaba extenuado. Quase em hipotermia. Nenhum outro nadador do Mundo passou tanto tempo em águas abertas.

Chano sai do hospital, recupera e volta a nadar. Pronto para enfrentar novos desafios. Os amigos dizem que não conhecem ninguém com tanta força mental. Ele admite que deixou de ter esperança quando esteve detido e ficou paraplégico, mas encontrou uma segunda vida na natação: “Dentro de água não há obstáculos, não há idade, não há cadeiras de rodas. Sou igual a ti. Sou livre. É como se voltasse a andar.”

MESMOS IDEAIS

O terrorismo está no passado, mas as convicções políticas mantêm-se, diz o próprio Chano. “A minha forma de ver o mundo é a mesma de quando era jovem. Continuo a ser um humanista, a acreditar que as pessoas devem ter liberdade, dignidade e bons empregos. E, de uma forma geral, isso não acontece.” A grande alteração em Chano é a forma de manifestar os seus ideais: “Hoje consigo ver que a violência que eu praticava não leva a lado nenhum. Vivo a minha vida afastado de qualquer tipo de violência e passo essa mensagem às crianças e aos jovens.”

CHANO OLÍMPICO

Nos Jogos Paralímpicos de Sydney, em 2000, Chano Rodríguez conquista cinco medalhas de ouro e quebra outros tantos recordes do Mundo: 50 m livres, 100 m, 200 m, 4x50 m e 4x50 metros estilos. Em Atenas’2004, volta a juntar o ouro e o novo recorde do mundo em 50 m livres, 100 m e 200 m e prata nos 4x50 m estilos. Em Pequim ganha três de prata (200 m livres, 4x50 livres, 4x50 estilo) e uma de bronze (100 m livres). Em Londres’2012, acaba com prata nos 50 m e 200 m livres e bronze em 100 m livres.

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