Uma aventura no lago do monstro

Quando se fala na Escócia, de imediato se lhe associa whisky, castelos, homens que vestem ‘saias’ e, porventura em primeiro lugar, o famosíssimo Loch Ness, o lago onde se esconde um monstro que, segundo a última ‘descoberta’, não será mais que um enorme peixe-gato. De facto, a Escócia é tudo isto, mas não só. É um país de paisagens espetaculares, de um verde lindíssimo, de gentes afáveis e prestáveis, das Highlands, as montanhas com vistas soberbas, de lagos, de ilhas e ilhotas espalhadas por um mar azul. É um país onde a palavra pátria tem sentido. Tudo isto foram razões para irmos até lá.

Poderíamos ter ido de outras formas, talvez mais cómodas, mas a nossa opção foi levarmos os nossos jipes, tendas e tudo o resto em vez de embarcarmos numa qualquer low cost para uma também qualquer cidade. Não será tão confortável (o que duvidamos) mas permitiu à Isabel, à Cristina e ao Paulo, ao João Cerqueira e a mim próprio uma liberdade de movimentos que de outra forma seria difícil. E mais cara, pois a vida por aqueles lados é feita com libras e estas estão bem cotadas no mercado monetário. Pois, mas conduzir pela esquerda...? Foi simples: após duas/três ‘barracadas’ logo nos habituámos e chegámos a locais onde só se chega com tração às quatro rodas, muita calma e alguma perícia.

E, sim, valeu a pena os milhares de quilómetros feitos. Tudo aquilo que esperávamos se confirmou, mal passámos a ‘fronteira’ de Inglaterra. Pelas estradinhas de montanha fantásticas (como a que vai para Appelcross, que em cinco milhas sobe do nível do mar até aos 2.000 pés), pela panorâmica que delas avistávamos, pelos lagos e laguinhos convidativos ao mergulho, pelas aldeias tão arrumadinhas que até aborrecia e onde sempre encontrámos ‘tascos’ magníficos, pelas flores espalhadas por todo o lado, pelos campos e campos cultivados, pela água a jorrar em cascata por tudo quanto era monte... Com frequência ficávamos por ali, parados, lá no alto, no meio do nada, envolvidos pelo silêncio e por aquela chuva, fria, persistente, chata – é o Verão naquelas terras, meus senhores! – mas que nem por isso nos impedia de gozar a beleza que se espalhava até onde a vista alcançava. Esmagador! É a palavra que encontro para definir a paisagem.

O verde dos campos. O azul do mar. As prainhas de águas límpidas e gélidas. As vilas de pescadores. As vacas, cabeludas e de cornos retorcidos. Os castelos, imponentes, recordações vivas de uma época de grandes e heroicas lutas, alguns dos quais transformados em pousadas de luxo. Os pubs, com as tradicionais ‘pies’ e uma enormidade de desconhecidas cervejas que não têm gás e se bebem quentes. As cidades, como Inveraray e o seu castelo, Tobermory e as suas casinhas coloridas, Invergarry, onde perto se pode ver o Eilean Donan Castle, construído numa pequena ilha, Inverness ou Edimburgo, cujos centros históricos é obrigatório percorrer de olhos bem abertos... Escócia: uma surpresa... A repetir...

Na "câmara dos segredos"

Saindo de Fort William em direção a Mallaig, onde a estrada finda no ferry que parte para a ilha de Skye, há uma paragem obrigatória, ou melhor, duas, em Glenfinnan (que é bem mais fácil de escrever do que em gaélico escocês, como no título). A primeira é para almoçar no Dining Car, uma carruagem de comboio parada junto à estação do mesmo nome, que serve refeições ligeiras confecionadas a bordo.

A outra paragem é poucos quilómetros mais à frente e serve para observar o viaduto ferroviário tornado famoso nos filmes de Harry Potter. O Expresso de Hogwarts, visto nos filmes de Potter, tornou The Jacobite (nome da locomotiva a vapor) ainda mais célebre e ainda mais procurado pelos turistas que, durante o verão, esgotam o histórico comboio.

Chocolatinhos...

"Ena pá, imagino os uísquinhos que beberam..." Não nego. Bebemos, sim. Vários. De malte. Com nomes estrambólicos, absolutamente desconhecidos no nosso mercado. Fizemos provas em duas destilarias, uma na Ilha de Mull, outra na de Skye. Nestas visitas ‘culturais’, aprendemos, por exemplo, que os maltes dividem-se em vários tipos, consoante são envelhecidos em cascos de carvalho ou outra madeira, havendo um deles designado por Porto devido aos cascos terem sido antes utilizados para guardar o nosso vinho licoroso; um malte bebe-se em copinhos pequenos e só com uma lágrima de água para ‘abrir’ os aromas; e entre eles deve-se comer um pedacinho de chocolate, para realçar o sabor. Claro que comprámos algumas garrafitas. Poucas, que os preços, apesar de estarmos no produtor, queimam. Um malte bonzinho custa uns 85 euros, mas o que eu queria mesmo era aquele que valia mais de 3 mil... Azar, pois eles não tinham multibanco.

Boletim da Idade da Pedra

Há um postal que retrata bem o clima escocês, em especial o das Terras Altas. Na foto vê-se uma vedação em madeira, a demarcar um campo relvado, onde está colocado um cartaz com o título Forecasting Stone e neste está pregada uma corda que tem na ponta uma pedra de dimensões significativas. E uma série de indicações sobre o tempo. Assim:

Stone is wet (pedra molhada) - Raining (Chove)

Stone is dry (pedra seca) – Not raining (Não chove)

Shadow on ground (sombra no chão) – Sunny (Ensolarado)

White on top (branco por cima) – Snowing (Está a nevar)

Can’t see stone (não se vê a pedra) – Foggy (Nevoeiro cerrado)

Swinging stone (pedra balançando) – Windy (Ventoso)

Stone gone (pedra foi-se) – Tornado (Tornado)

Este sistema não se compara àquele das meninas bonitas que em tempos apresentavam os boletins meteorológicos nas TVs, mas tem mais piada.

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