A adaptação dos juniores ao futebol sénior exige tempo, suporte institucional, gestão de expectativas e acompanhamento multidisciplinar, conclui a tese de doutoramento de João Tomás, defendida esta quinta-feira pelo antigo futebolista, sobre os constrangimentos nesta fase de transição.
Também os planos de desenvolvimento individualizados, articulados com processos rigorosos de seleção e retenção, asseguram acompanhamento continuo e foco na excelência a longo prazo, sustentou o antigo internacional português, que abandonou os relvados há mais de 10 anos, depois de ter vestido camisolas de clubes como Benfica, Sp. Braga, Académica e Betis.
Ao longo de 20 minutos, João Tomás apresentou os pontos essenciais da sua tese de doutoramento "Constrangimentos associados ao (in)sucesso na transição júnior/sénior em futebolistas portugueses", assente em quatro artigos, que serviram para identificar os constrangimentos da transição de escalão, a partir das perspetivas de treinadores, coordenadores e jogadores.
Sob o olhar atento de cerca de 80 pessoas - entre eles dirigentes desportivos e os antigos futebolistas Pedro Roma e Tarantini (este último foi o primeiro a atleta profissional a conseguir o grau de doutor em 2022) - que compunham a plateia do auditório da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra, o antigo futebolista respondeu, durante aproximadamente duas horas e meia, aos elementos do júri.
Entre os comentários deixados pelo júri, a sua tese de doutoramento foi considerada “uma reflexão cientifica muito importante” e “um exemplo em termos nacionais e internacionais por sair da sua zona de conforto – os relvados – para se dedicar à vida académica”.
Já o elemento do júri André Seabra, que é também diretor da Portugal Football School, da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), sugeriu que a sua tese fosse editada em livro, face à importância das suas conclusões.
A fechar, outro elemento do júri considerou que João Tomás está “claramente acima da média no contributo que pode dar” ao futebol, acrescentando que o que parecia ser senso comum na sua apresentação, afinal “é o destilado”.
Já o orientador Hugo Sarmento evidenciou que se trata de um primeiro futebolista a concluir uma tese de doutoramento, que desenvolveu ao longo de cinco anos, demonstrando “capacidade de recomeçar, se reinventar e abraçar um desafio de natureza completamente distinto: a academia”.
“Poucos chegam até aqui e muito mais raros são os que chegam assim”, referiu, minutos antes de se saber que a tese de João Tomás foi aprovada, por unanimidade, com distinção e louvor.
No final, o antigo futebolista vincou aos jornalistas que o seu trabalho tem um modelo de desenvolvimento muito prático, que exige uma profunda reflexão.
“Muitas vezes mudar políticas e pensamentos. Nós vemos que é difícil, mudar rotinas, ter dinheiro, porque é importante também para criar infraestruturas, para criar departamentos. Sem isso não acontece, não se faz um campo de forma voluntária, é preciso alguém que pague e essa deve ser a grande reflexão a ser feita”, sustentou.
João Tomás explicou ainda que na sua tese teve em conta jogadores que chegaram ao topo, analisando o que se fez bem, para ser replicado.
“Um estudo onde procurei os melhores para que eles me digam o que é que é preciso ser feito. Porque as referências que nós temos são ao contrário: fala-se muito o que é feito em baixo e no que se espera encontrar em cima”, afirmou.
No documento, com mais de 350 páginas, divididos em quatro artigos, é precisamente no último que encontram “o resumo dos outros três, de uma forma muito conceptualizada, muito detalhada e muito simplista”.
Já sobre o futuro, admitiu que gostava muito de ficar ligado ao futebol, embora “para casar seja preciso um noivo e uma noiva”.
“Como um jogador, estou no mercado. Mas gosto muito, além disso, de dar aulas: gosto muito do meio académico”, concluiu.
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