Caio Mecenas começou por patrocinar a Roma de Otávio Augusto e deu o seu apelido a todos aqueles que ao longo dos tempos investiram em projetos, artistas e obras. O futebol viveu também durante muitos anos sustentado por capitalistas com gosto pela arte, mas é uma moda que está em extinção. Em Chaves, Tondela e Arouca estão os derradeiros bastiões do mecenato
Gilberto Coimbra, no Tondela, Carlos Pinho, no Arouca, e Francisco Carvalho, no Chaves, são provavelmente os últimos mecenas do futebol português. Um deles, o presidente do Arouca, já conseguiu concretizar o seu sonho de trazer a equipa até ao primeiro escalão do futebol português, onde vai na sua segunda temporada.
Todos estes dirigentes têm um denominador comum: são líderes de clubes que por tradição cumprem as suas obrigações. Qualquer um dos seus presidentes faz ponto de honra de que seja assim. É o caso muito especial de Francisco Carvalho, que nem sequer é presidente do Chaves mas delega nos filhos as lideranças do clube e da SAD. Apesar de não conseguir fixar treinadores, Carvalho faz questão de se despedir deles pagando todo o contrato!
O caso confirmado de sucesso de uma aposta num empresário na equipa de futebol da terra é o de Carlos Pinho, que tirou o clube dos distritais até o ver atingir a 1.ª Liga, colocando Arouca no mapa futebolístico nacional. Homem simples mas de visão, o presidente do Arouca tem uma relação direta com os treinadores e não gosta de meter a sua colherada. Os treinadores que com ele trabalharam pintam-no como um dirigente que gera estabilidade. O mesmo não se pode dizer de Francisco Carvalho, que já despediu uma dezena de treinadores e gosta de ver os seus jogadores preferidos na equipa. No fundo, é algo que costumava fazer parte do ADN dos presidentes-mecenas. Quem mete o dinheiro, gosta de decidir tudo: das cores das camisolas à escolha do ponta-de-lança.
Gilberto Coimbra, em Tondela, confessa que gosta de estar por dentro. Por isso, apesar de ser um dos maiores empresários da área alimentar, com empresas um pouco por todo o país e interesses no estrangeiro, faz questão de não falhar um jogo e no dia seguinte está também presente, para fazer o balanço de mais uma jornada.
A passagem pela 2.ª Liga é sempre o momento mais doloroso para o bolso destes mecenas. O campeonato secundário é profissional e fazer um plantel exige um investimento nunca inferior a 800 mil euros, isto para equipas sem a ambição máxima. As receitas garantidas não ultrapassam metade da verba mínima. Portanto, as contas são fáceis de fazer – só com o esforço pessoal destes empresários que apostam no clube da terra é que se consegue chegar lá e nem sempre à primeira tentativa.
O Arouca já chegou onde queria e agora luta por se consolidar no escalão principal. Tondela e Chaves são favoritos à subida mas não têm como garantido o prémio pois há outros clubes na compita Mas os seus adeptos têm a certeza de que têm à frente dos clubes dirigentes que querem concretizar um sonho e que não se importam de "investir" dinheiro nesse objetivo, todos eles com a particularidades de viverem intensamente o dia a dia dos seus clubes, com o propósito de realizar um sonho.