Valdo: «Devo tudo ao futebol»

"O amor que tenho pelo futebol é grande. Tudo que tenho, desde os bens culturais aos bens materiais, devo ao futebol, que para mim é o mais importante. Por isso, devo ter muito respeito por este desporto, que me deu tanto na vida". É assim que o quase quarentão Valdo justifica a sua duradoura presença nos relvados, agora com o camisola do histórico Botafogo do Rio de Janeiro.

O médio brasileiro, que vai deixar de ser futebolista no final do ano, já pisou palcos mais prestigiados ao longo da carreira, como nas duas passagens pelo Benfica, mas o facto de estar numa equipa que disputa a Série B do Brasileirão não interfere na sua motivação.

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"É um desafio jogar num clube do Rio de Janeiro e voltar a trabalhar com o Levir Culpi [o treinador do "Fogão"]. Para mim, o importante é colocar o meu nome na história do Botafogo como um dos jogadores que ajudou o clube a voltar à primeira divisão. E isso não tem dinheiro que pague", afirma Valdo, que já pôde comemorar um feito histórico: o de ser o jogador mais velho de sempre a vestir a camisola alvinegra, superando a marca do mítico lateral Nilton Santos, que fez parte da famosa equipa de Garrincha, no final dos anos 50, início dos 60.

No clube carioca, Valdo também exercita uma faceta de professor, pois faz questão de passar um pouco do que aprendeu aos mais jovens. "Procuro falar-lhes que tudo isso aqui é passageiro. Hoje nós somos manchete, mas amanhã é outra realidade. O que vamos guardar do futebol são as amizades e o que conquistámos monetariamente. É bom que todos saibam que eles não podem gastar tudo, para que amanhã as pessoas não digam que esse teve tudo e jogou fora. Esta é a única mensagem que posso passar", ensina.

Quando chegar a hora de finalmente pendurar as botas, Valdo já tem o futuro mais ou menos definido. Casado com uma portuguesa desde 1991, deve voltar a residir em Portugal a partir de 2004. "Tenho casa em Portugal, minha esposa é portuguesa. Tudo indica que voltarei a morar lá, até porque tem um grau de violência bem mais baixo do que aqui, no Brasil. Por isso tudo, devo mesmo voltar para Portugal, onde sou feliz quando lá vou, e fui muito feliz nas passagens que tive", confirma.

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O fim da carreira e a nova mudança de país, no entanto, não significam que o futebol vai desaparecer da sua vida. Ser treinador nas camadas jovens do Benfica, por exemplo, é uma ideia que o seduz. Valdo vestiu, aliás, a camisola do Benfica em dois momentos do seu longo percurso no futebol. O primeiro foi no final dos anos 80, depois de um namoro que se arrastou por meses. Para o veterano jogador brasileiro, este foi o melhor período no Estádio da Luz.

"Fui feliz na primeira passagem, ao contrário da segunda, com o Manuel José. Mas eu não guardo mágoa do Benfica, muito pelo contrário. Fui superfeliz lá e guardo os bons momentos que passei. Se me perguntar qual a equipa por que eu torço, digo que é o Benfica, pois foi um clube que me recebeu muito bem. Foi a jogar em Portugal que conheci a minha esposa, foi lá que tive a oportunidade de conviver com o "King" Eusébio, por isso, digo que o Benfica, para mim, é só alegria."

A escassez de conquistas verificado nos últimos anos é analisada por Valdo com alguma prudência. "O clube passou por vários problemas, por motivos que eu não tenho autonomia para comentar. Mas não é por isso que o clube deixa de ter grandes equipas, como acontece este ano."

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Afronta de Parreira e a morte da filha

A trajectória de Valdo no futebol teve inúmeros momentos felizes e gloriosos. Duas situações, no entanto, marcaram pela negativa a vida do jogador brasileiro, sobretudo o trágico falecimento da filha Tatiele, que tinha apenas 13 anos: "A minha esposa ajudou a superar tudo. Ela é a minha fonte de inspiração. E o futebol também me ajudou muito. Sempre que entro em campo só me preocupo em tratar a bola com carinho, procurando devolver ao público todo o apoio que me dá. Foi um momento difícil para mim. Se pudesse queria ter sido eu a morrer e não a minha filha, até porque eu já tinha vivido bastante."

O outro marco negativo está directamente relacionado com o futebol e envolveu o actual seleccionador brasileiro, Carlos Alberto Parreira, num episódio que remonta à anterior passagem do técnico pelo "escrete".

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"Tinha de defrontar a selecção brasileira num particular, já que o Parreira queria observar-me, quando eu já tinha disputado 67 jogos pela selecção. Na maioria deles, eu tinha sido treinado por ele e, por isso, fiquei chateado, já que quis observar-me num jogo com o PSG. Eu achava que o grupo dele já está definido e que eu não devia dar tiros contra a própria pátria, por isso decidi não jogar. Achei que seria um grande desrespeito e, como eu pensava que as cartas já estavam marcadas, acabei por ficar de fora. Fui consciente."

«Artur Jorge tem nível cultural acima dos outros»

Entre os vários treinadores que teve ao longo da carreira, Valdo destaca quatro nomes. O já reformado Rubens Minelli, responsável pelo seu lançamento no Grémio, e Otacílio Gonçalves foram dois deles. Os mais elogiados, porém, são o português Artur Jorge, que tentou trazê-lo para a Académica de Coimbra no início da presente época, e Levir Culpi.

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"O Artur Jorge tem um nível cultural acima dos outros. Quanto ao Levir, actualmente trabalho com ele no Botafogo e só não farei o que me pedir em campo se não puder. Se tiver que ficar de fora por um pedido dele, fico sem problema. Ele erra como qualquer um, mas não existe maldade. Considero o Levir e o Artur Jorge como meus amigos pessoais."

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