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Quem anda por gosto não cansa, já dizia aquele tão conhecido provérbio português. Record está por esta altura presente na 16.ª Festa do Basquetebol, competição juvenil que se realiza em Albufeira e que concentra centenas de jovens basquetebolistas numa verdadeira disputa (saudável, é claro) pelo troféu de campeão.
O primeiro dia desta competição centra-se sobretudo no companheirismo, que anda à boleia de comboio. A viagem desde o Norte ao Sul do país acontece sempre no primeiro dia da Festa do Basquetebol e junta atletas, comitivas e até pais num só transporte rumo àquela cidade algarvia para uma experiência inesquecível, de miúdos a graúdos. A comunicação social não fica de fora desta grande comemoração e Record também fez questão de estar presente nesta longa viagem de Campanhã até Albufeira. E foi lá que conhecemos a história de Francisco José Rodrigues e de Maria João Simplício, treinador principal e treinadora-adjunta da equipa feminina de sub-16 da associação de Santarém, um casal que divide o seu amor um pouco também pelo basquetebol.
"Já vim mais vezes à festa do que ao tempo que ela existe", disse Francisco de pronto, explicando-nos de seguida um pouco sobre a forma como se realizava a competição antes de ser batizada com o nome 'Festa do Basquetebol'. "Antes era um processo diferente, eram apenas quatro [associações], agora é que já competem todas juntas, e já era selecionador do distrito na altura. A Festa do Basquetebol foi uma aposta ganha desde o início. Já tínhamos competição entre seleções, mas agora temos uma enorme divulgação da modalidade e isso atrai os atletas e fá-los querer estar lá e pertencer àquilo. Para eles, é mais uma razão para lutarem, para além do gosto pelo jogo, claro. Claramente que é muito atrativo neste aspeto."
Curiosos, quisemos saber mais sobre todo o processo de seleção de jogadoras e foi nessa altura que Francisco e Maria João nos explicaram que a preparação para a competição deste ano fugiu um pouco à regra. "O processo deste ano foi um bocado anormal porque nós não éramos selecionadores até ao início de janeiro. Foi diferente nesse aspeto. Mas normalmente recolhemos um grupo alargado da nossa visualização e dos clubes, que nos enviam todos aqueles que entendem que são os seus melhores atletas. Portanto, tentamos sempre combinar as duas coisas: aqueles que são os melhores atletas segundo a nossa visão e o premiar dos clubes. Normalmente, vamos reduzindo [o grupo de selecionadas] até ao Natal, altura em que fazemos um grande estágio. Todo este processo de eleição começa logo em setembro, depois do arranque dos campeonatos. Em dezembro costumamos ter já um grupo mais reduzido, com 18-19 atletas no máximo. Depois, selecionamos um grupo de 15 atletas. No final, o objetivo passa por tentar melhorar o nível do basquetebol do distrito, com mais equipas, mais atletas e mais competição entre toda a gente. Quem fez a primeira seleção e triagem foi o Professor Monteiro e nós acabámos por dar continuidade ao seu trabalho", revelou-nos.
Francisco aproveitou ainda para revelar-nos algumas das peripécias que acompanharam o processo de preparação para a Festa do Basquetebol e da seleção de jogadoras para representar a equipa de sub-16. "Entrámos [para o comando da equipa] numa fase muito complicada, por causa das fases finais regionais de janeiro, dos acessos aos nacionais e os nacionais, e acabam por não sobram folgas para treinar até fevereiro, altura em que nos reunimos com as 15 atletas e jogamos mais do que treinamos. A maior parte destas atletas ocupam dois escalões, então jogam ao sábado e ao domingo e treinam entre quatro e cinco vezes por semana. Ou seja, já não há espaço para treinar mais. Reduzimos o grupo antes da Páscoa para treinarmos um bocadinho mais até segunda-feira. Tentávamos treinar sempre conforme a disponibilidade. Quando elas todas deixaram de ter aulas, treinávamos duas vezes por dia", disse, acabando por revelar-nos o número de horas diárias que tanto ele como a sua mulher e as jogadoras normalmente dispendem numa altura de pré-Festa do Basquetebol: "Normalmente, são cinco horas ou cinco horas e meia por dia a treinar. Quando não temos a possibilidade [de treinar nos dias previstos], tentamos encaixar numa quarta-feira à tarde ou uma terça à noite, quando ninguém tem aulas. Tivemos que tomar a decisão final agora. Foi muito mais em cima do que nós gostávamos", lamentou.
Ser treinador/a não é propriamente uma tarefa fácil, uma perceção que fica sempre mais nítida na hora de dizer a uma criança ou adolescente que não foi escolhida. "É desagradável para quem fica de fora na última semana, sem dúvida. [Como é dizer não?] Fico triste. Eu sou treinador há mais de 30 anos, selecionador há mais de 25. Mas juntos já vimos lágrimas, tristezas... já vimos de tudo. Ficamos solidários porque também nos custa muito não podermos levar toda a gente, mas a verdade é que temos de cumprir regras. Acreditamos que elas ganham em vir cá, porque mantemos sempre um modelo de jogo que as ajuda a crescer. Não tentamos esfoliar as melhores e as outras encostá-las a um canto. Tentamos ensinar-lhes no pouco tempo que temos com elas e ajudá-las a serem melhores jogadoras. Se conseguirmos ter algum sucesso disso, ficamos satisfeitos. Infelizmente só podemos levar 12. Vamos esperar que tenhamos escolhido as 12 que vão promover da melhor forma a nossa associação", afincou.
Já Maria João aproveitou a conversa com a equipa de reportagem de Record para exaltar o papel importantíssimo que todos os pais têm no trajeto desportivo de todas as crianças que marcam presença na Festa do Basquetebol. "Os pais andam para trás e para a frente com estas miúdas, quer a nível de clubes, quer a nível de seleções. A Festa do Basquetebol é uma oportunidade para que elas evoluam porque estão a treinar com as melhores e acabam por ter mais desafios que às vezes nos clubes se calhar não têm. Assim têm a oportunidade de continuarem a evoluir e não se lhes fecha logo a porta."
E na balança entre a competitividade e o desfrutar do momento, o que pesa mais? "Eu acho que as duas estão muito bem equilibradas. Elas também sabem que há a parte em que podemos relaxar e que quando é para competir é para competir. Elas próprias já estão habituadas a isso desde os clubes. A ter essa mentalidade. Nesse aspeto é muito tranquilo. Em termos de regras, também existem outras que não só as competitivas: deixar os quartos arrumados como os encontraram, não mandar lixo para o chão, esse tipo de coisas também são muito importantes para nós porque para além de excelentes atletas, também queremos que elas sejam excelentes mulheres e seres humanos. Está tudo interligado", respondeu-nos a treinadora-adjunta das sub-16 da AB Santarém, ao que Francisco acrescentou: "Mas com regras bem exigentes. Elas têm horas para comer, para descansar, pousar o telemóvel, ver jogos para falarmos nas reuniões. Normalmente temos reuniões duas vezes por dia para prepararmos os jogos, reuniões essas que acontecem no quarto da capitã porque não temos muitas salas. Depois, tudo o que é do acordar, do deitar, o que têm de vestir... tudo isso se cumpre. Normalmente, mais lá para o fim, quando se alivia a pressão dos jogos, há um bocadinho mais de espaço para elas desanuviarem. Mas elas gostam de estar nos jogos. Quando lhes damos uma folguinha, elas vão para o pavilhão ver as melhores a jogar, porque na realidade é isso que elas querem."
As sub-16 de Santarém estão atualmente na Divisão A da Festa do Basquetebol, um estatuto que conquistaram com a prestação do ano anterior. "O colega que trabalhou antes com a seleção deixou-a na primeira divisão, entre as oito primeiras, e nós este ano vamos, dentro das oito primeiras, tentar ficar entre as sete melhores. É esse o nosso objetivo. Mas claro que pela frente teremos as melhores e defrontá-las será certamente inesquecível para estas miúdas", sublinharam.
Um dos pormenores que nos chamou à atenção durante a viagem foi o facto de este casal estar acompanhado pela sua filha. A abordagem que tivemos foi de quem se preparava para falar com dois pais babados que acompanhavam de muito perto o percurso competitivo da filha, mas afinal Joana - como se chama - ainda não tem idade para competir nesta Festa do Basquetebol, que vai dos sub-14 aos sub-16.
Depois de sabermos que afinal eram mais do que apenas dois pais, mas sim dois pais-treinadores, tentámos perceber se Joana já tinha estado presente numa das inúmeras viagens que o pai fez no comboio da Festa do Basquetebol. "É a primeira vez que ela vem connosco no comboio. Nos outros anos, o meu marido vinha no comboio e como ela era mais pequena, eu ia de carro porque podia ser necessária alguma coisa. Ainda há pouco estava aqui o senhor da FPB TV e perguntou-lhe se ela gostava de basket e ela disse logo: 'Basket é a minha vida', foi a resposta que ela deu. Mas foi por escolha dela que foi para o basket", disse-nos a mãe, claramente babada, assim como o pai: "Nós quase que a obrigámos, entre aspas, a ir para natação, onde ainda anda, até porque eu acho que saber nadar é uma obrigação. O resto surgiu naturalmente, nem a colocamos no basket. Foi ela quem quis vir para o basket."
O gosto e a paixão pelo basquetebol está claramente no ADN desta família."Todos os anos eu pergunto-lhe: 'Joana, como é? A mamã precisa de saber se é para pagar a inscrição...' e ela diz logo: 'Podes inscrever que eu quero continuar'", confessou-nos, enquanto Francisco não escondeu que gostava de ver a filha a ser bem-sucedida na modalidade. "Ela depois ganhou gosto, ganhou vontade e até posso dizer, com alguma arrogância se quisermos, que ela já é muito boa jogadora para o escalão dela e pode, se continuar assim e com vontade, até vir a fazer umas coisas giras no basquetebol português."
Maria João acabou também por explicar-nos que a presença de Joana no comboio da Festa do Basquetebol acabou por ser algo duplamente positivo. "A Joana só tem o pai e a mãe, ainda temos a mãe do Francisco e a minha mãe, mas são pessoas já com uma certa idade, então não temos com quem a deixar. Por um lado, não temos alternativa, mas por outro se ela tivesse com quem ficar, ela não ia perdoar não vir. Ela começou por vir quase como uma mascote, até já me perguntou: 'Mamã, o quê que eu tenho que fazer para vir à seleção?' As miúdas são muito queridas com ela, acolhem-na muito bem e é muito giro de se ver. Elas até podiam, o que seria natural, estar mais desligadas por causa da barreira da idade, mas elas são todas muito queridas e andam com ela para todo o lado", disse-nos, com um sorriso no rosto. Já Francisco José revelou-nos que possivelmente no futuro vá voltar a treinar uma equipa feminina da AB Santarém. "Ela já veio ter uma conversa séria com o pai e disse que queria que o pai treinasse as meninas para o ano porque os rapazes não brincam tanto com ela, ela gosta mais de estar entre as miúdas", contou.
Se Joana vai ou não ser uma craque do basquetebol português, Maria João e Francisco ainda não sabem, mas deixaram bem vincado os seus desejos para o futuro: "Uma coisa pode ter a certeza, nós estamos a trabalhar para que seja uma excelente mulher, se se vai tornar uma excelente craque ou não, vamos ver. Dependerá do trabalho e do talento dela. Será passito a passito. Mas estamos a trabalhar para que seja uma grande mulher", disse a mãe, orgulhosa por estar a ser bem-sucedida na sua tarefa maternal, enquanto que Francisco 'atirou' as responsabilidades para a filha: "No início, o que conta é o talento, mas a partir de certa altura é mais o esforço e o sacrifício que vai determinar. Ela tem talento, acho eu, e tem esforço e sacrifício. Se vai ou não manter, dependerá dela."
A Festa do Basquetebol arrancou na quarta-feira e terminará no domingo. Até lá, Record continuará à procura de histórias como esta, que enchem o coração de qualquer amante de desporto. Continue connosco, embora desse lado, a acompanhar esta experiência fantástica de basquetebol juvenil.
Por Sérgio Magalhães