Delmino: «Tenho vivido momentos de vazio e alguma tristeza»

DELMINO Pereira colocou um ponto final, aos 34 anos, na sua vida de ciclista, uma carreira sempre ligada ao Boavista, a única equipa que representou como profissional. Foram 14 anos de casamento, ligação, essa, que continua, pois o cilista de Campeã aceitou um novo desafio no clube axadrezado, na área da Imagem e Promoção, mas nega a ideia de que os dirigentes do clube tenham tido alguma obrigação em oferecer-lhe trabalho.

"Tive um final de carreira com uma certa dignidade. Por outro lado, os dirigentes do Boavista respeitaram o que fui no clube e os anos que defendi a equipa. Por tudo isso, penso que não foi por obrigação que continuo ligado ao clube", confessou Delmino Pereira, que faz questão de referir que não teve "padrinhos" em toda a sua carreira. "Orientei-me sempre sozinho. O que sou, ou antes, o que fui como ciclista, devo-o apenas a mim e ao meu suor."

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Abandono na hora certa

Delmino fez a última corrida como ciclista em Setembro, no Circuito de Gondomar, onde foi quarto classificado. Foi a hora de dizer adeus à estrada e aos colegas.

"A época passada foi a altura e o momento exacto para abandonar. O meu tempo acabou, tudo o que tinha para fazer como ciclista já fiz", frisou o corredor, que concorda plenamente com o director desporivo do Carvalhelhos/Boavista, José Santos, quando este afirmou que Delmino Pereira não tinha motivação para correr mais uma época.

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"É verdade. Em termos fisícos, tinha condições para continuar a ser um bom ciclista, mas falta-me a motivação. Porque é que a deixei de ter? Bem, em parte deve-se ao facto de não existirem novidades na equipa, de tudo ser sempre da mesma maneira... e também aos negócios. Tenho uma fábrica de molduras e quadros, criada por mim, na minha terra, Campeã."

O negócio de quadros e molduras, ainda de acordo com Delmino Pereira, está a revelar-se extremamente importante para o corredor em termos financeiros. "É o meu maior potencial para sustentar a família", admitiu o ciclista, para quem a realidade não é um mar de rosas. "Quando um ciclista chega ao fim, o contacto com a vida real pode ser chocante", disse, negando, porém, que com estas palavras esteja a confessar passar dificuldades financeiras.

Momentos difíceis

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Já lá vão mais de três meses que Delmino deixou a bicicleta. Se tivesse continuado a correr estaria nesta altura a treinar e a preparar a temporada de 2002, que começa a 3 de Fevereiro, no Algarve.

"Está a ser mais difícil deixar de correr do que pensava. Tenho vivido momentos de vazio e alguma tristeza, apesar de estar a ter a solidariedade dos meus colegas", admitiu o axadrezado, para quem os 17 anos na estrada deixam marcas profundas. "A minha cumplicidade com o ciclismo foi total. Mas sempre ouvi dizer de outros ciclistas que abandonaram, que o primeiro ano é o mais difícil", frisou Delmino, que confessa ainda nutrir uma "profunda admiração pela vida de um corredor. Ser ciclista de corpo e alma é prescindir de muita coisa. A palavra sacrífio é a que melhor o define. Em suma, um ciclista é um desgraçado".

Delmino Pereira faz questão, de resto, de dizer que se despediu de uma carreira como ciclista e não do ciclismo, modalidade que estará sempre no seu coração.

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"Terminei uma carreira como corredor, mas a qualquer momento poderei começar uma outra", confessou, admitindo, desse modo, poder um dia estar do outro lado como director desportivo. "Uma coisa é certa, estarei sempre disponível para o ciclismo, pois sou um homem do ciclismo, um homem de acção e de iniciativas", disse Delmino Pereira, que se não tivesse enveredado pelo desporto teria sido, sem dúvida, o que hoje é, um homem de negócios. "Tenho características de empresário."

Santiago, o melhor colega

Muitos foram os colegas, adversários e dirigentes que privaram de perto com o ciclista axadrezado. Delmino Pereira não recusa a dizer na primeira entrevista que dá após a retirada da competição quais foram algumas das pessoas que mais o tocaram ao longo dos 17 anos de carreira.

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"O senhor Tavares Rijo foi o pai da minha carreira, sempre olhou por todos os corredores do Boavista; o Joaquim Gomes considero-o o melhor ciclista da minha geração: o José Santiago foi o melhor colega", sublinhou.

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