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Carta a Luis Aragonés

Carta a Luis Aragonés

Míster, não sei como começar estas linhas. A notícia apanhou-me em Lisboa e não tenho palavras. Desde logo, estou chateado consigo. Ainda há duas semanas falámos por telefone e não me disse nada. Mas é normal: você seria incapaz de queixar-se. Neste momento, só me vêm à cabeça momentos únicos que passei consigo.

Lembra-se da manhã da final da Taça do Rei, frente ao Real Madrid, em que foi ao meu quarto às 9 da manhã a dar murros na porta como um louco? Entrou como uma fera por ali adentro, abriu as persianas e pôs-se ao lado da minha cama. “Olha-me nos olhos”, gritou-me. “Mas como o vou olhar nos olhos, se ainda nem os consigo abrir. Tenho a certeza de que o que me quer dizer agora, pode dizer mais tarde”, respondi. “Não fales. Olha-me nos olhos e escuta o que te digo”. “Pelo menos posso lavar a cara?”. “Não! Lembras-te dos insultos de Michel, Gordillo e Fernando Hierro ao teu companheiro de equipa, e amigo, Pizo Gómez?” “Sim, lembro-me”, disse-lhe. “E sabes que as barbaridades que disseram ao Pizo não foram dentro de um campo de futebol? Sabes onde e como o humilharam?” “Claro que sei. O carro onde iam os três jogadores do Real Madrid cruzou-se com o do Pizo num semáforo e eles começaram a gozar com ele, com frases do tipo: ‘Pizo, és o nosso ídolo’, e mais mil barbaridades”, respondi. “Pois bem, Paulo, sabes por que estou aqui, no teu quarto, a esta hora?”. “Porquê”, perguntei. “Porque hoje vingaremos o Pizo, porque hoje esses três vão pagar pelos insultos que disseram ao teu companheiro e vão recordar este dia até à última hora das suas vidas. A partir desta noite, vais tornar-te o grande ídolo de Michel, Gordillo, Hierro, do teu grande amigo Paco Buyo e companhia. Hoje estás totalmente proibido de falhar. Hoje será o teu dia. Deves humilhá-los como eles humilharam o teu companheiro. Agora volta a dormir, mas lembra-te que esta noite não podes falhar.”

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Evocê foi-se embora do meu quarto. Obviamente que já não consegui voltar a dormir. Para mim, a final tinha acabado de começar. Era isso que você desejava. O seu grande objetivo era que eu começasse a jogar a partida mentalmente 12 horas antes do apito inicial. Naquele dia vingámos o Pizo e ganhámos a Taça do Rei.

Lembra-se de outra manhã em que voltou a acordar-me como um louco para me mostrar um jornal? Também foi antes de um jogo da Taça do Rei, mas agora frente ao Oviedo. O defesa Gorriagán tinha-me anulado. Fazia-me marcação individual durante os 90 minutos e era tremendo. Um marcador incrível que conseguia tirar-me do jogo. Pior ainda: o Atlético não ganhava. Aquilo tornou-se um dilema para mim e um assunto muito comentado pela imprensa cada vez que se aproximava um jogo contra eles. E, tal como no dia da final, você entrou no meu quarto como um furacão, mas a segurar o jornal. A manchete era uma frase de Gorriagán: “Hoje o Futre não vai tocar na bola”. Você perguntou-me: “Quem é este tipo? E esta falta de respeito? Esta humilhação? A partir de hoje, vai recordar-se de ti para o resto da vida dele porque vais rasgar por completo este Gorriagán ou Gorriagu”. Ganhámos aquele jogo por 5-1. Marquei dois golos e fiz duas ou três assistências. Graças a esta grande palestra, míster.

Também me lembro do último Mundial, quando passámos um mês inteiro na África do Sul a comentar jogos para a Al Jazeera. Você foi sempre um teimoso e nunca aceitava os elogios: para você, o mérito da conquista era dos jogadores espanhóis. Mas lembre-se do que lhe dizia sempre nestas discussões: que você é o homem mais importante do futebol espanhol, o homem que fez o bebé da atual seleção. Foi contra tudo e contra todos antes de ganhar o Euro’2008. Já não se lembra da polémica com Raúl? Se você não tivesse existido, a Espanha nunca teria ganho dois Euros e um Mundial. No futebol espanhol há um antes e um depois de Aragonés.

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Por último, míster, recordo-me das nossas guerras. Quando discutíamos no balneário, em frente aos meus companheiros, ou fosse onde fosse, quantas e quantas vezes me disse: “Português, vamos para um apartamento, com umas luvas de boxe, e trocamos uns socos”. E eu respondia sempre: “Quando você quiser”. Nunca aconteceu, Luis, porque somos pessoas de bem. Mas só nos faltou fazer isso. Espere-me aí em cima. Descanse em paz, míster.

GRANDE CALDEIRADA

Afinal há dinheiro

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Grande negócio para o Porto, mas em Espanha não se fala de outra coisa. O Valencia está quase falido e prepara-se para ser comprado. Também tem vivido o drama dos salários em atraso, mas contratou Otamendi ao Porto por 12 milhões de euros, que podem chegar aos 15 milhões (por objetivos). Nunca tinha gasto tanto num central e o argentino nem poderá jogar esta temporada, por já não haver vagas para extracomunitários. Para umas coisas não há dinheiro, mas depois aparecem 12 milhões para um reforço que nem pode ser utilizado agora. É, no mínimo, antiético.

Nós lá fora

O treinador que nunca tive

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Um génio. Um campeão. O meu amigo José Mourinho continua imparável. Zé, vi a vitória do teu Chelsea no campo do Manchester City. Ganhaste 1-0, mas até podias ter goleado. Grande jogo e grande estratégia a tua. Os teus jogadores entram em campo com uma confiança brutal neles próprios e nas tuas ideias. Só jogam assim por causa da forma como os motivas. És único. E vais continuar a fazer história, estejas onde estiveres. Tive grandes treinadores no meu tempo, mas adorava ter sido treinado por ti.

DO MEU ÁLBUM

Os dérbis da minha vida

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Estamos a viver uma semana de dérbis em Portugal e Espanha. Isto faz-me recordar os dérbis da minha carreira. Adorava esses jogos e sempre fui um jogador dos grandes momentos e das grandes decisões. No Atlético, vivi batalhas únicas frente ao Real. Em Portugal, estive dos dois lados. Com a camisola do Sporting, ainda muito novo, e ao serviço do Benfica, já depois de me ter consagrado em Portugal e Espanha. Foi sempre especial. Jogar um dérbi é dos sentimentos mais fortes que o futebol nos pode trazer. É mágico.

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