O pesadelo dos treinadores

O pesadelo dos treinadores

Não consigo falar dele sem sentir saudades. Foi a relação de amor-ódio mais polémica de sempre na história do futebol entre um jogador e um líder de um clube. Falo de Jesús Gil y Gil. Meu presidente no Atlético Madrid. Umas vezes era como um pai. Outras vezes parecia o diabo. Conhecemo-nos no verão de 1987. Eu tinha acabado de ser campeão europeu pelo Porto e estávamos em Milão a disputar o Mundialito de clubes de pré-época.

Tinha vários clubes interessados em mim. Um dia Pinto da Costa veio ter comigo no hotel onde estávamos hospedados: “Paulinho, vem aí um homem de Espanha que é candidato a presidente do Atlético Madrid. Parece que tem muito dinheiro. Tanto para o Porto como para ti. Vamos ouvir o que ele tem para dizer”. “Claro, presidente. Vamos a isso”, respondi.

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Foi a primeira vez que vi Gil y Gil. Eu estava de fato de treino e com uns chinelos do Porto que diziam “Futre”. Ele estava ali para me contratar, mas vejam bem o que percebia de futebol que só me conheceu quando olhou para os meus pés: “Então tu é que és o Futre?” Fui o seu grande trunfo eleitoral. Ali começou a nossa história de 17 anos, até à sua morte, em 2004.

Gil y Gil foi o presidente mais polémico do Mundo. Era explosivo. Uma bomba-relógio. Fez e disse aquilo a que nenhum outro ousou. Vejam, como exemplo, algumas das suas frases enquanto presidente. “É para agarrar numa metralhadora e matá-los a todos [sobre os jogadores]”. “Não falo com Alfio Basile [treinador] porque os nossos horários não coincidem. Quando me levanto, ele está a deitar-se”. “Vou implantar o método Berlusconi: o presidente escolhe o onze”. “Com a popularidade que tenho, poderia ser Deus.”

Com Gil y Gil ninguém sabia o que ia acontecer. Tudo podia mudar de repente. Do céu para o inferno. Principalmente com os treinadores. Todos os técnicos que tive, naqueles primeiros anos no clube, sabiam que o contrato podia ser de um ou mais anos, mas se tivessem dois resultados negativos seguidos, seriam demitidos. O contrato pouco importava: ele pagava-lhes e rua! O dia-a-dia no balneário era uma autêntica loucura. Especialmente na semana que se seguia a uma derrota. Um ambiente de total intranquilidade e nervos. Até nos chuveiros reinava o silêncio. Não se ouvia uma mosca. Era uma situação muito tensa para nós, jogadores, porque sabíamos que se perdêssemos o jogo seguinte, o treinador passaria a ser história. Todos nos sentíamos culpados: é sempre muito duro para um plantel quando o seu treinador é demitido desta forma. Mesmo para os que não jogam habitualmente.

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Eu era o capitão. Em muitas ocasiões chocava com Gil y Gil e pedia-lhe para que aguentasse o treinador. Como aconteceu com Javier Clemente, numa altura em que estávamos no segundo lugar da Liga. Nem assim! Também saiu ao fim de dois resultados negativos. Quando Gil y Gil tomava a sua decisão, quase nunca voltava atrás.

Nesses anos tive uma longa lista de treinadores que foram demitidos injustamente. Três na temporada 1987/88: Menotti, Ufarte e Briones. Em 1988/89 tivemos ainda mais mudanças: Magureri, Briones, Atkinson, Addison e novamente Briones. Que barbaridade! No início da época 1990/91 deu-se algo ainda mais bombástico: Peiró foi destituído a poucos dias do começo da Liga (só porque perdemos dois amigáveis na pré-temporada). Veio Ovejero. Saiu para entrar Ivic. O croata qualificou a equipa para a final da Taça do Rei, mas antes do jogo decisivo foi despedido e regressou Ovejero, para ganhar a Taça frente ao Maiorca. Só mesmo com Gil y Gil. Uma personagem única e irrepetível no futebol mundial.

Apesar deste caos, em todos esses anos conseguimos ganhar duas Taças do Rei, fomos às competições europeias e acabámos sempre a Liga em segundos ou terceiros. Tenho a certeza que se tivéssemos mantido o mesmo treinador durante três ou quatro anos, ganhávamos muito mais coisas.

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Lembro-me desta história numa semana em que Paulo Fonseca abandonou o Porto. Nunca é positivo quando estas mudanças acontecem a meio de uma época. Mas é normal que possa sair um treinador e entrar outro durante uma temporada. Acontece em todos os clubes do Mundo. Não é um drama. É futebol. É uma situação normal. O anormal era o que Gil y Gil fazia. Uma loucura!

GRANDE CALDEIRADA

A prisão de Del Nido

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José Maria del Nido, ex-presidente do Sevilha, começou esta quarta-feira a cumprir a pena de sete anos de prisão efetiva num estabelecimento prisional da cidade andaluza. Del Nido foi condenado pelos delitos de fraude, desfalque e prevaricação no denominado “Caso Minutas” (desvio de dinheiro da autarquia de Marbella entre 1999 e 2003). Durante o seu mandato, o clube espanhol teve uma época dourada: conquistou duas Taças UEFA, duas Taças do Rei, uma Supertaça espanhola e uma Supertaça Europeia. Del Nido entrou na prisão com um boné e uma mochila do Sevilha. Uma imagem forte a marcar um dos grandes escândalos da história do futebol espanhol.

NÓS LÁ FORA

Sempre Cristiano

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Gostava muito de não falar de Cristiano Ronaldo esta semana. O nosso menino é o melhor do Mundo. É sempre um privilégio vê-lo e poder escrever sobre ele. Todas as semanas. Todos os dias. Menos quando joga contra o meu Atlético Madrid. Quero que marque em todos os jogos, contra todas as equipas, mas nunca contra os colchoneros. Só que ele não me deu outra hipótese. Infelizmente para toda a família rojiblanca, voltou a ser decisivo no dérbi. Marcou o golo do empate nos últimos minutos e roubou-nos a nossa maior alegria: poder vencer o nosso eterno rival: no mítico Vicente Calderón, já não derrotamos o Real há 16 anos. Esteve quase. Mas o Cristiano estragou-nos a festa.

DO MEU ÁLBUM

Aventura no Milan

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Na próxima terça-feira joga-se a segunda mão dos oitavos-de-final da Champions. O meu Atlético Madrid recebe o AC Milan. Quero, como sempre, que o Atlético ganhe, mas este jogo faz-me também lembrar a minha etapa no Milan. Lamento profundamente que o meu joelho não me desse oportunidade de jogar como queria e sabia. Mesmo assim ganhei o scudetto em 1995/96. E tive a sorte de fazer parte de uma equipa lendária com Costacurta, Tassoti, Baresi, Maldini, Baggio, Weah, Desailly e Savicevic, entre outros. Também guardo boas recordações de Silvio Berlusconi, Adriano Galliani e Ariedo Braida. Os três levam mais de 30 anos a fazer do Milan um clube gigante. Foi um privilégio poder fazer parte deste clube de sonho.

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