_
Quando Godinho Lopes foi empossado como presidente do Sporting pensou que ia entrar num mar de média agitação e saiu-lhe uma onda nazarena, alta e forte, capaz de o engolir e de o atirar para as rochas. Parece estar no fim da “aventura” e é no fim da “aventura” que lança a (tardia) “bóia de salvação”: sim, estou disposto a ir a eleições, mas só no final da época e se não houver, agora, assembleia.
Éum assomo de dignidade, repito tardio, que o coloca num patamar intermédio: sim, a lapa existe; sim, a lapa está agarrada à rocha, mas... não é uma coisa para a vida.
Ontem, perante o previsível indeferimento do tribunal, Godinho Lopes quis dar uma nova oportunidade a si próprio, mas esse aparente “altruísmo” logo ficou prejudicado com a colagem que quis fazer dos insucessos das contratações (Niculae + Kléber) à acção dos membros da assembleia geral. O Godinho quis ser magnânimo mas o Lopes não deixou. Há um lado diabólico em Lopes, aparentemente decalcado – ou será... recalcado? – de outro personagem da bola indígena que não casa com a bonomia de Godinho. Talvez tenha sido esse combate interno que levou o presidente do Sporting a cometer tantos erros. A falhar os “timings” de intervenção e a separar o trigo do joio.
Não tenho dúvidas em afirmá-lo: provavelmente Godinho Lopes deixará o Sporting no momento em que estará mais capacitado das valências necessárias que lhe permitiriam presidir. Mas esse tem sido um dos dramas do Sporting: achar que os presidentes precisam de ir aos treinos para (não) presidir; os treinadores têm de ir aos treinos para (não) treinar; os jogadores têm de ir aos treinos para (não) jogar. Preto no branco: o Sporting andou muitos anos a mais a fazer experiências com presidentes, treinadores e jogadores. Gastou milhões de euros em “criminosos experimentalismos”, e o resultado está à vista: um clube exaurido financeiramente e, agora, falido nos seus valores, com dúvidas sobre a importância do desportivismo, do respeito (entre pares), da tolerância e da democracia.
Este “vale tudo” que se instalou no Sporting, com ovos atirados à cara do psiquiatra, é a representação da concessão feita perante a arruaça. As cliques e as claques, quando não são responsavelmente controladas, mancham o que os clubes têm de mais precioso: a sua história e memória, os seus valores, o seu exemplo.
Godinho Lopes errou a estratégia. Há muito que tinha de inflectir o caminho. Não sei quem o aconselhou a levar esta “indignação” até ao fim, mas teria ganho muito mais, junto dos sportinguistas e da opinião pública, se a certa altura tivesse gritado a plenos pulmões: ‘”meus amigos, cá estou eu, venha a assembleia, não estou agarrado a nada, não há coisa mais importante do que a opinião dos sócios. E é na opinião dos sócios que eu tenho de preparar o futuro ou parar.”
Foi pena que Godinho Lopes não tivesse ninguém que lhe acordasse o bom senso.
TEMPO EXTRA
FC Porto "resolve"
Por mais responsabilidades que se queiram atirar para cima de terceiros e para questões do foro interno, o Sporting precipitou-se no “ataque” a Niculae. Foi demasiada a sede de tornar pública uma contratação, em tese, do agrado dos sportinguistas, quando seria de elementar prudência travar o ímpeto da divulgação sem verificar todos os pressupostos que poderiam conduzir à contratação. Depois, Kléber. Terão sido os ovos atirados a Daniel Sampaio ou a falta de pontaria que estiveram na base do logro e da recusa, no... fundo, do BMG?! Seja como for, o Sporting já havia resolvido a debilidade do lateral-direito, com a contratação de Miguel Lopes; não resolveu o problema do ponta-de-lança ou a falta de uma alternativa credível a Wolfswinkel. O Benfica ficou com menos soluções para o imediato e está a pensar no futuro. O FC Porto resolveu, com Izmailov e Liedson, dois ex-leões, as suas principais debilidades.
JARDIM DAS ESTRELAS
Cabo Verde em português ****
A selecção de Cabo Verde vive momentos de festa, depois de conseguir eliminar a teoricamente mais forte Angola e joga hoje os quartos-de-final com o Gana. Contudo, Cabo Verde não apenas merece destaque pelo seu desempenho desportivo. Na verdade, a opção da delegação cabo-verdiana em utilizar apenas a língua portuguesa – como uma decisão assumida em nome da afirmação do idioma – é um grande exemplo para todos nós. Mais de 200 milhões de falantes do português no Mundo são um número demasiado expressivo para tanta parcimónia. O futebol pode ser, de facto, um grande veículo para a afirmação da língua portuguesa no globo terráqueo! Portugal e os portugueses não devem nunca esquecer-se disso. Cabo Verde de parabéns.
O CACTO
Previsível
Um grande clube como o Sporting não merece estar a passar pela presente situação. Ela decorre, no entanto, de uma “linha de continuidade” que arruinou o “negócio-futebol”. Não adianta ignorá-lo. Basta olhar para os sucessivos resultados negativos da SAD leonina. Era fácil de intuir que Godinho Lopes iria ter problemas com Eduardo Barroso. Era fácil de intuir que Godinho Lopes iria ter problemas à sua volta... antes de entrar pela porta do futebol. Era de intuir que Barroso não iria assegurar a neutralidade que o cargo lhe conferiria, envolvendo-se em disputas públicas (como comentador) de bradar aos céus. E Godinho Lopes, a certa altura, perdeu os “timings” da reabilitação.