Cátia Azevedo: «Ainda há muita desvalorização do atletismo em Portugal»

Em entrevista a Record, velocista fala também do impacto da pandemia na sua preparação

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Record - Treinos, hospital, umas quantas horas a viajar. Quem é a Cátia para além de tudo o que vemos?

Cátia Azevedo – Uma Cátia que não via os pais há quase um ano; uma Cátia que aprendeu a viver sozinha, a estar sozinha. Mas tenho muitos sonhos e cedo percebi que tinha de amadurecer mais rápido, porque vim para Lisboa com 14 anos. Sou muito atarefada, tenho excesso de energia, sou irreverente, mas quem me conhece sabe que também sou alguém que não esquece as origens, que sabe de onde veio e para onde quer ir. Sou uma Cátia muito realizada.

R – Apesar da distância física, de ter deixado a sua terra, Cucujães, são os seus pais a sua força para acarretar com tudo?

CA – Sim. Defendo a tese de que as coisas têm um propósito e o facto de ter começado este caminho há quase 13 anos não foi por acaso. Há sofrimento, privo-me muito de ver os meus pais, eles sofrem porque nunca me acompanharam, o meu domingo é longe de casa, não tenho o assadinho da mãe... Há momentos dolorosos, em que sinto que precisava desse colo, mas vou buscar força aos meus pais. A minha família é a minha âncora.

R – Enquanto tudo isto, e entre um ano atribulado, ainda perdeu a sua avó.

CA– E entendi que não controlamos nada e temos que usufruir muito mais, deixar de fazer tantas planos. Vivo com mais calma... e reconforta-me pensar que a minha avó não partiu, está só no norte e por isso não posso vê-la. 

R – Como é que a modalidade, tantas vezes medalhada, é hoje vista em Portugal?

CA – Acho que ainda há muito preconceito, muita desvalorização do atletismo. Neste momento, só há dois clubes em Portugal a apoiar minimamente bem o atletismo, o Benfica e o Sporting. Faço isto sete dias por semana, sou recordista nacional, duas vezes olímpica e, se calhar, não recebo o que recebe um suplente de basquetebol em Portugal. Isto não quer dizer que eles estão a ser bem pagos, quer dizer que eu estou a ser mal paga. Para além disso, as pessoas não têm noção do quão desvalorizante é o fator ‘mulher’.

R – Mas tem notado melhorias nos últimos tempos?

CA – Está a melhorar, mas ser mulher é complicado, ser atleta de atletismo é ainda mais complicado, e a juntar a isto sinto que há alguma falta de promoção. Temos atletas estrondosos e eu posso dizer que sou bastante apoiada pelo Sporting. Mas ser atleta é conseguir manter o sonho e os objetivos pessoais, independentemente do valor que nos reconhecem. *

R – Aos 14 anos, largou o lar e aventurou-se por Lisboa. Como foram esses tempos de adaptação?

CA – Por acaso tinha um tio em Lisboa, então vivi com ele, o que me ajudou. Depois, por ironia do destino, fui viver com uma enfermeira. Mas, como disse, fui obrigada a amadurecer. Ainda hoje o meu pai me diz: ‘Cátia, estás a viver coisas que ainda não são para a tua idade’. Mas sempre fui muito responsável e recordo-me que quando tinha 16/17 anos continuava a ligar ao meu pai para pedir autorização para sair à noite.

R – Já vinha para ser atleta do Sporting, certo?

CA – Sim. Na altura tive convites do Sporting e do Benfica e acabou por ser o meu avô a decidir. Ele é sportinguista ferrenho e pediu-me que viesse para o Sporting. E ainda bem porque é a melhor equipa nacional de atletismo. 

R – A Santa Casa da Misericórdia tem dito ‘presente’ e tem atribuído bolsas de educação a vários atletas, sendo que a Cátia é um desses casos. Tem sido determinante este apoio financeiro para que continue a alimentar esse plano B?

CA – Dá-me um grande conforto, é certo. Este apoio permite-nos conciliar as duas coisas, o atletismo e os estudos, e faz com que consigamos investir esse dinheiro, que à partida seria para propinas e afins, na nossa vida desportiva, em coisas que nos serão úteis no nosso rendimento. É totalmente determinante termos esse apoio da Santa Casa. E, claro, está a ajudar-me verdadeiramente a realizar este sonho. 

Por Rita Pedroso
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