Cátia Azevedo: «Enfermagem mudou-me como atleta»

Atleta do Sporting em entrevista a Record

Especialista nos 400m ajudou no Hospital Amadora-Sintra
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Record - Passaram-se cinco anos. Muita coisa aconteceu entre 2016 e 2021. Que diferenças reconhece entre a Cátia do Rio de Janeiro e a que está prestes a colocar um pé em Tóquio?

Cátia Azevedo – Tantas! Sempre vivi a vida ao máximo, fui aos Jogos de Rio a viver a 300 por cento aquilo. Mas, ao mesmo tempo,tenho bastantes inseguranças, mesmo que não pareça. Antes da linha de partida tudo nos passa pela cabeça e a Cátia de 2016 tinha muitos receios, achava que não era capaz. Nas camadas jovens não era fenomenal, então sempre achei que não era capaz, tudo aliado a alguma teimosia. Agora estou mais ouvinte, crente e mais madura, ainda que não muito mais [risos]. Sempre treinei muito bem, como disse, mas não o conseguia transportar a 100 por cento para uma prova por muitos fatores que eram boicotados por mim, e agora consigo acreditar mais no processo e não achar que é o fim do Mundo quando as coisas correm menos bem.

R – Se no Rio’2016 alcançou a 31.ª posição, que objetivos tem para estes Jogos?

CA – Sou uma pessoa terra-a-terra, de objetivos fixos e reais. Não consigo ser uma pessoa que vai de peito feito para ganhar medalhas. Se passar à semi-final fico muito feliz e ainda mais se fizer, quiça, o recorde nacional. Era perfeito!

R – Vivemos tempos atípicos, ainda assim teve um ano que marca um virar de página no seu sucesso desportivo.

CA – Consegui grandes resultados, mas houve uma coisa fundamental. Em tempos de Covid-19 decidi ir para o hospital, porque estudo enfermagem – outro grande sonho. Tudo o que vi fez-me mudar. Antes pensava: ‘Estou aqui nesta prova, não correu tão bem ...’. Mas depois vem o clique, porque lembro-me que há pessoas que nem tão-pouco podem correr. Agora, muitas vezes enquanto treino penso: ‘Acabaram de morrer três doentes e eu venho para um treino a queixar-me dos 8x400?’. Não, vou usufruir porque tenho saúde para lutar por aquilo que quero. A enfermagem mudou-me como atleta.

R – Será um choque de realidade ver de perto o que se vai passando nos hospitais. Ainda terá acompanhado algumas histórias...Alguma a marcou?

CA – Sem dúvida. Na primeira noite, tinha estado com um doente, conversámos, e passados 20 minutos faleceu. Muitas perguntas na minha cabeça naquela hora... Mas uma das enfermeiras que me acompanhava deu-me um lema: todos os dias temos de cometer uma loucura. Naquele tal dia, a loucura seria fazer o levanto de uma doente que tinha sofrido um AVC e era particularmente complicada, alguém rude. Depois de sentada no cadeirão, a doente disse: ‘Não acredito, estou a ver o dia, há sol lá fora’. E eu sem saber que ela nem sequer tinha noção disso... Passou a ser alguém dócil. Vivi dias complicados no hospital, mas saía de lá preenchida e com histórias bonitas.

R – No meio do caos, como é que se gere a questão desportiva? Como foi treinar por essa altura?

CA – Este último ano foi muito complicado. Quem me conhece sabe que, geralmente, às 21h estaria a dormir. Mas desde que comecei o meu estágio no hospital fiquei sem essa rotina, fiquei várias vezes em quarentena, ainda que nunca tenha estado infetada. Treinei na rua, isolada e a viver um dia de cada vez. Fazia noites, sendo que entrava às 22h e saía entre as 09h e as 10h... quase que nem tinha tempo para dormir nem para treinar. Mas foi uma opção minha. E tudo porque outro grande sonho é mesmo ser enfermeira e o bichinho aumentou agora que estive mais perto. Gosto de cuidar, do contacto, de quebrar barreiras, ainda que a enfermagem esteja a ficar para trás. Mas temos tempo...

R – Está a ficar para trás um sonho para que se realize outro...

CA – Sim, porque temos timings e o de ser atleta é curto. A partir dos 30 anos terei muito tempo para exercer. E a enfermagem, para além de um sonho, acaba por funcionar como um plano B, porque no atletismo não recebemos o bastante para ter um pé de meia estrondoso para quando sairmos disto. Faz-se muito por realização pessoal. Gosto de pensar que quando sair daqui, ou se de hoje para amanhã achar que não estou feliz nem realizada com isto, conseguirei ir pela porta grande. 

Por Rita Pedroso
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